Poéticas

Poética do Nascimento

 

Nasceu à espera de um milagre:  inseto verde na folha e um predador à espreita. Era a nossa imagem, inadvertida, mas pretensiosa: pétala de chuva na ânsia de um dilúvio. Inunda-me, eu até pensei, olhos fechados, e senti uma leve lágrima cair de minha pálpebra. Onde a chuva, meus deuses, onde? O milagre não veio e as montanhas continuaram a olhar-nos serenas, mas intransponíveis. Nem um passo, eu sei, apenas um pingo e um arrepio: o inseto é apenas uma esperança, eu disse meio confusa, e ninguém entendeu.

Agora, o predador se sacia.

 ***

Poética da Existência

 

Foi por um segundo que existiu. Num tom ainda lívido, não de medo, mas de inexperiência, maravilhada. E existiu, assim, inexata entre lençóis e pensamentos, e habitava a palavra. Nada ainda havia eclodido; nada ainda havia de suspeito. Era toda em forma de som, os quais eu me repetia até adormecer, sozinha.

Foi só por um segundo, mas eu a tive, corporificada. Estava um tanto fria, um tanto doce e molhada, porque era uma manhã aquosa e os tons cinza de agosto se dissolviam na chuva. Um segundo meu de inércia, não por espanto, mas por zelo. Era toda de poesia feita e a mim eu a recitava até me desfazer em lama.

A existência do segundo demorado, em que ela, paixão sensata, sabia-se viva e, então, à mercê da morte. Foi no fim desse instante que ela se pôs de ponta de pés à beirada da cama, e eu tinha olhos de paralisia, não por covardia, mas por destino. Ela era toda suicídio e já se vestia de mortalhas quando, finalmente, o segundo passou.

***

Poética da Infância

 

Saudadinhas do soldadinho. Eita, voou! (B. Cortizo)

 

Tem um soldadinho no jardim. Gostinho do tempo de criança no canto da boca, sabor graviola, por favor! O soldadinho foi embora… Não! Ainda está ali, na corda do balanço. Me balança? Não tão forte. Me segura agora, que eu vou cair. Mas até que o chão é macio até o Merthiolate chegar.

O soldadinho voou com o grito, mas o pé de laranja nem é tão longe assim. Ninguém brinca de gangorra, sozinho. E sozinha eu estava até esta manhã. Então este sol nasceu e nos convidou para vir aqui, mesmo com essa terra ainda molhada. E se sujarmos a roupa de barro, o castigo é certo.

Não toca no soldadinho! Já foi, agora uma de suas asas se desfez. Ele não pode mais voar… Traz para árvore, talvez ele possa viver! Afinal vivemos mesmo com a corda do balanço apodrecendo sob a chuva de todos esses anos e a gangorra se curvando sob o peso do tempo. Além do chão cheio de pedregulhos que ferem e dos remédios que ardem, mas nem curam.

Então eu brinco com palavras por isso: a verdade é o estar de cama quando o mundo poderia ser divertido. Com a gente brincando de esconde-esconde até você, desajeitado, tropeçar na primeira pedra.

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Poética da Adolescência

 

Eu me sentia um spam porque era inadequada. Inadequações. Isso é um círculo, você dizia. Eu, quadrada. Eu não sou cult, eu gritava, e você nem ouvia. Inadequada estava escrito em minha testa e eu, sem vergonha, continuava e a te espreitar e aparecia à tua frente como quem não quer nada. Isso é um retângulo! Eu ouvia. Já mudou? Eu perguntava, toda circular, e você se permitia rir esnobe. E era o riso mais lindo, mesmo que fosse ácido.

Eu me sentia um email nunca lido, enviado diretamente à lixeira, porque a isso eu era destinada. Destino. Isso é karma, eu me repetia, mas era a ela que você beijava. Isso é karma, eu sussurrava, mas é ela quem você tem por linda; e eu me resto só, feia nesse espelho. Eu era o desgosto, o démodé em tempos dessas tendências descoladas, de todos esses sapatinhos vermelhos e desses ângulos confusos.

Convenhamos: eu me sinto um moleskine em tempos de blog. Você me olhava, eu fechada, na estante, meu templo. Páginas sem importâncias, guardadas na prateleira mais perto do chão. Sem pedestais. O amor que se perdeu no caminho entre uma folha e outra. Talvez um sarcasmo não compreendido. Eu sequer era real. Inadequada até na ficção, você me diria, se soubesse como.

***

Poética da Maturidade

 

No mundo dos meus sonhos, você e eu teríamos um filho lindo. De cabelinho bem preto. E todos os fins de semana, você viria nos visitar. Sim, porque você e eu não moraríamos juntos. Eu seria uma mulher independente, dessas que moram num flat. Claro que quando nosso filho nasceu, tive que mudar para um dois-quartos. E você vem tão lindo para gente. Com esse sorriso lindo que só você tem, tão perturbador. Você toma nosso filho nos braços e ficamos assim brincando durante toda tarde no sofá. E nem me importo quando uma taça de sorvete mancha o tapete ou que nosso filho coma todas as besteiras que eu o impedi durante a semana. É tão lindo ver vocês melados de sorvete. À noite, ficamos o olhando por um tempo. A respiração calma, compassada. Ele dorme. Você e eu voltamos para sala. Enquanto isso, você me diz que estava com saudades. Eu acredito, porque eu também estava. Você mexe em meus cabelos. Me pede para narrar algo. Toca em minha nuca. Eu respondo que só se for uma cena de taverna. Com direito a live action. Eu olho para você e vejo o quanto ainda me perturba. Você me beija e eu beijo você. E este amor é o amor mais lindo do mundo, no mundo dos meus sonhos.

Mas, fora dele, crianças vomitam e sujam as fraldas e eu, que tenho ânsia de vômito só em pensar no cheiro enjoativo de talco, eu, que tenho dores de cabeça só em pensar no choro de uma criança me tirando de um sonho bom, eu, que confabulo tragédias quando tu te atrasas um pouco no trabalho e que não admito ter saudades, eu, que te quero todos os dias, por necessidade e por ciúme doentio, calculo os juros do meu cartão de crédito que atrasou.

***

Poética do Fim

 

Nem gostei desse texto. Mas ele estava me irritando tanto na minha cabeça que achei melhor escrever logo e esquecê-lo depois.

Agora não sei de mais nada não sei dizer adeus muito menos oi ainda me vem um até logo que engulo seco como cream cracker sem café.

E você, nem aí. Todo certeza. Todo calculado. Todo razão.

E eu quero dizer que merda eu sinto raiva sinto ódio sinto remorso sinto tesão queria voltar anos contos e palavras e não dar a mínima para aquele dia quando você falou algo e eu tomei como indireta e respondi com várias diretas tempos depois.

Mas você diz que sou neurótica. E, sempre tendo respostas, responde a tudo da forma mais clichê possível, só para deixar claro que nada disso importa.

Então você mata a parte mais poética de mim.

Virgínia Celeste Carvalho

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