Poesia de Outrem – Anne Sexton

annesexton

SONHANDO COM SEIOS  — Anne Sexton

Mãe,
estranho rosto de deusa
sobre a minha casa de leite,
esse delicado asilo,
devorei-te.
Todas as minhas necessidades tragaram-te
como se fosses comida.

O que me deste
recordo-o num sonho:
os braços sardentos envolvendo-me,
o riso algures sobre o meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando os meus sapatos,
os seios suspensos como dois morcegos,
precipitando-se depois sobre mim,
até me dobrar.

 

Agora os seios que conheci à meia-noite
batem em mim como o mar.
Mãe enchi a boca de abelhas
para evitar comer
e isso não foi nada bom para ti.
Finalmente amputaram os teus seios
e o leite derramou-se
nas mãos do cirurgião
e ele abraçou-os
e eu retirei-lhos
e plantei-os.

Coloquei-te um cadeado,
mãe, querida morta humana,
para que as tuas grandes campânulas,
aqueles queridos póneis brancos,
possam galopar, galopar,
aonde quer que estejas.

 

mais poemas dela em: http://poesiailimitada.blogspot.com.br/2011/08/anne-sexton.html

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… de quando quem te ensinou política se tornou um político.

… de quando quem te falou em utopia, pela vez primeira, tornou-se um burocrata.

 

2009 reencontrado numa pasta do PC

Desabafo

 

Ontem estive me sentindo sufocada; triste até. As coisas se avolumaram de tal forma que pensei que iam me tragar; eu me perdendo num emaranhado de aços tortos, cores fortes, energias fartas. Mas depois lembrei que eu sou Virgínia Celeste Carvalho, com todos os defeitos e qualidades que isso implicava, e, sinceramente, ego murcho não constava em nenhuma das listas.

Tentei lembrar fatos que vivi e, principalmente, porque eu os vivi. Pensar em todas as pessoas que fui e nas que deixei de ser. Nas que eu poderia ter sido também. E esse sentimento enlameado não estava nos planos de nenhuma delas. Tive medo.

Mas era noite, porta da madrugada já, e, nessas horas, as horas deixam de fazer algum sentido. Tudo fica muito instável e era eu quem estava em crise, não uma personagem. Não havia ficção alguma, eu me repetia.  Mas depois pensei que a ficção poderia ser  tamanha que eu nem percebera seus contornos. Duvidei de mim.

As faltas preenchiam. E algumas faltas sequer tinham nome, sequer formas, nem sentido. Era falta do que eu tinha, falta mesmo do que eu era. E fiquei assim pensando nessas coisas amorfas, inominadas, e, justamente por isso, tão intensas e inquietantes.

Daí lembrei que uma amiga me falou que precisamos definir as coisas. Não basta senti-las, vivê-las, jamais apenas passar por elas como passamos pela estrada imersa em canaviais. Precisamos envolvê-las em signos que as designem; que as façam significar algo fora de si. A linguagem e sua alienação primeira: delimitar, quando as coisas são, em si, esparsas.

E tudo que precisei foi nomear aquele momento para poder transcendê-lo.

Dia da consciência negra, por quê?

Vejo uma enxurrada de compartilhamentos, neste dia, sobre a não necessidade de um dia de consciência negra… mas sim de “consciência humana”. Vejo alunas e alunos falando isso e me sinto obrigada a responder.

Bem, vamos lá, usar nosso espaço para tratar disso.

Vou contar uma história baseada em fatos que presenciei.

Não vou citar o nome de quem a viveu, porque não sou dona da experiência e não sei se ele se sentiria confortável em compartilhar. Certamente vou ficcionalizar um pouco. Daí a história se torna minha também.

.. consciência não tem cor, mas qual consciência temos da cor?

Ele nasceu numa dessas famílias brasileiras. Não, não as da propaganda, nas quais todo mundo é branco e cabelo liso, não. Nasceu numa dessas famílias que remontam à nossa formação: um tio de pele negra, outro de pele branca, uma tia com contornos do rosto bem indígena. A mãe, aquela pessoa a quem a sociedade chama de “morena”, casou com este homem, cuja a família traz a pele branca, mas nos traços do rosto e do corpo características inúmeras.

Ele nasceu e o chamaram de moreno. Não, não era negro como o tio, “graças a Deus”.

Na escolinha particular do bairro e depois na escola pública, havia vários morenos que nem ele, mas poucos negros como o tio.

Ele cresceu. Foi para uma escola técnica e fez amigos. Amigos brancos. Na sala, havia negros sim: dois. Ele ainda era o moreno, embora seu cabelo “acusasse” o contrário e ele precisasse cortar bem curto – mesmo desejando um cabelo grande para fazer headbanging.

Quando o conheci, ele trazia o peso de uma questão: por que algumas coisas são mais fáceis para alguns amigos meus? Conversamos muito sobre isso, estávamos inaugurando a vida adulta. Ele viu que, na verdade, eram mais fáceis para amigos de um poder aquisitivo maior que o dele. Amigos que eram brancos, nota. Mas, ao mesmo tempo, ele percebeu quantos outros tinham ficado para trás: os de situação financeira igual ou menor que a dele. Curiosamente, a maioria, “morenos” ou negros.

Anos depois, trabalhando numa área elitista, ele foi a um evento. Foi muito bem recebido, por sinal. Estava ali como igual. Como pessoa merecedora de estar ali. Ótimo. Ficamos felizes.

O evento passou na televisão. E, ao se ver na televisão, foi quando ele notou o quanto era diferente. Ele era o único… NEGRO… que estava ali. Os outros pareciam saídos de uma máquina de produção em série: brancos, cabelo liso ou ondulado – cortados ou grandes não importa aqui —, com roupas do mesmo estilo e com pensamentos sobre “a vida, o universo e tudo mais” bem parecidos. Foi o momento da consciência. Não da cor da pele, mas do lugar social. De como a História do Brasil formou esses espaços que negros e negras frequentam ou não.

Ah, não havia mulher também neste evento, mas isto fica para outro post.

Epílogo

— … porque nós, que somos negros… — ele ia continuar, mas a mãe cortou bruscamente:

— Que negro! Você é moreninho, meu filho.

a dançarina

Ela dançava. Se por felicidade ou desespero, nunca saberei

Convenço-me que pelos dois.

Ela dançava descalça; seus pés deviam ter 40 anos de passos desritmados. Mas os seus gestos, naquela praça, destoava dos nossos gestos de esperadores de ônibus e transeuntes anônimos.

A dança talvez fosse um modo de não ser invisível.

Enquanto dançava, afastava de si o cidadão de bem que lhe pensava como criminosa, por dar outro ritmo à praça; chamava para si a atenção da criança, que nunca vira aquilo.

Afinal fomos educados que a dança é pra festa. Ou pro pecado. E, normalmente, estas estão juntas.

Pego meus ônibus, inerte. E me pego pensando quantas vezes ela repetiria aquela coreografia.

A Tal da Persistência

Como não existiria violência contra a mulher se, ao queremos discutir este assunto, tu taxas logo de “polêmico”? Polêmicas deveriam ser as mortes e não pessoas que procuram um modo de acabar com elas.

Como esta violência não se perpetuaria se tu, quando te mostro números alarmantes, vens comparar a um caso de uma mulher que bateu no marido? Comparar mais de 300.000 denúncias com uma denúncia parece injusto, não?

Como tens coragem de me dizer que mulheres não são silenciadas se, a única professora que traz este tema é a chata feminista, mas, ao cair no ENEM, tu dizes que “este assunto não é feminista”?

Como não existiria violência contra a mulher se, ao me tomares por uma “mulher independente”, pensas logo que não sou casada? Ao achar isso, é porque me comparas ao imaginário de mulher casada – submissa, dependente, servil.

Como não existiria esta violência se, uma menina que foi assediada é convidada a sair de um programa de televisão e seus assediadores estão por aí, soltos, livres, prontos a assediar a mim e a ti também?

Como, ainda, não existiria tal violência se tomas o que eu falo por ideológico (e é!), mas tomas tudo que é “comum” como se não fosse ideológico também? Na verdade, o comum é tão ideológico que sequer consegues ver os discursos que te formam. O que eu, sinceramente, sinto muito.

Como e por que insistem em clamar pela tal “Gramática” quando queremos ter nossa especificidade de gênero nas formas do plural, senão em persistir com o apagamento linguístico? Como se a “Gramática” não fosse uma construção de relações sociais postas em sons e traços. Como se aquelas regras fossem escritas numa tábua de salvação, e quem as quebrassem fosse queimar no quinto dos…

Como, vá me diga como, não persistiria a violência se, ao sermos vítimas – sim, porque não há um dia que eu não receba cantadas idiotas, que alguém menospreze minha fala, que eu escute uma piada sexista, que eu saiba de um caso de estupro, espancamento e morte – tu dizes que sou vitimista?

Como não persistiria esta violência se tu chamas esse homem que bate em mulher de vizinho, amigo, professor, médico, colega, tio, irmão, pai, padrasto, marido e, mesmo que não aches correto o que ele faz, nunca o chamas pelo título de criminoso?

Digo mais: a “facilidade” encontrada por muitos no tema da redação do Enem 2015 nos mostra o quanto ainda temos de estrada nesta discussão. Porque em nada é fácil, este tema.

Perguntas

Aproximei-me.

Ela estava sentada em um canto estratégico da sala: se alguém por ali circulasse, não a veriam, mas, entre os braços da poltrona, dava para ver o desenho animado na tela. Observei por poucos instantes e decidi ir embora, pois não havia nada mais ali para mim. Dei de costas e foi quando ela me surpreendeu:

— Por que você não é bailarina?

Questionou-me de modo inocente. Me enraiveci. Tornei em sua direção, querendo explodir em gritos. Me contive um pouco e respondi com outra pergunta:

— E por que você não sai desse canto?

Ela se assustou e desatou a chorar. Me senti mal por isso, pois eu sabia toda a história. Agachei-me à sua altura e lhe estendi a mão.

— Vamos passear.

Fomos até o quintal. Dolores, nosso gato com nome de gata, corria e subia no coqueiro, depois desaparecia entre as plantas. Ficamos em silêncio, até que ela quis saber:

— A gente vai fazer tudo certo?

— Não. — eu disse rindo — Até porque fazer tudo certo é chato. Como acordar cedo.

Ela odiava acordar cedo.

— Desculpa por você não ser bailarina. — Ela conseguiu se expressar.

— Não se culpe. Culpa é um sentimento desnecessário e cristão. Não somos cristãs. — me pus de joelhos, para ficar com meus olhos na altura dos dela. — Nós devemos nos sentir responsáveis, mas nunca culpadas.

Eu ainda ia falar mais, quando nossa mãe chamou da cozinha.

— Aproveite-a — eu disse, mesmo sabendo que ela o faria mesmo sem conselhos.

— Ela vai ficar com a gente, não é?

— É. Para sempre.

Virgínia Celeste Carvalho

(Alice, do blog Forgotten and Fables Untold me indicou para participar de um destes posts coletivos. Eu, insociavel por natureza, não poderia participar da maneira convencional. Porém duas das perguntas que ela propôs “1. Se a criança que você era te visse/conhecesse hoje, o que ela provavelmente te perguntaria? 2. Se você encontrasse com a criança que você já foi, que pergunta faria a ela?” me chamaram a atenção e eu as respondi, da única maneira possível de responder: em forma de ficção)