Sob o signo de Aquário

Para Filipe Carvalho, meu menininho.

 

Eram olhos que não pediam permissão para serem redondos.

De cílios que pareciam recentemente alongados por um rímel vencido.

Eram olhos curiosos, de um animal sempre assustado por uma monstruosidade.

Aquela de sentir o humano crescer dentro de si.

E são meus olhos favoritos que, agora, só vejo enjaulados na tela;

Emoldurados na tela; sempre encurralados para mim.

 

Embora mais livre que nunca para eles mesmos.

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Eu também, ela falou, decidida.

O também era meu espelho e eu quase emudeci.

Abraçou-me.

E ainda sinto o cheiro de seus seios pequenos

Em minha blusa.

Assombro

De quando cai a ficha que

tudo que você dissera

e tudo que você escrevera

foi lido como algo ruim.

 

Desta sorte, resta calar.

O que não escrevi

 

Lembro de ter dito o que jamais poderia

Te escrever. Não foi a você que eu disse,

Talvez meu maior erro. Talvez a única

Traição, na verdade. Ela estava lá, amiga,

Aberta. Sempre foi fácil dizer-lhe o que

Me sempre pareceu impossível confessar

A você. Não me apareceu na garganta este

Nó, sabe, talvez porque ela também não o

Tivesse. Porque ela sempre foi palavra e

Não ação. Eu confessei-lhe que não sabia;

Ainda Não… Como poderia, se também

Nunca me disseste qual o teu conhecimento

Sobre esse nosso assunto que, acabado,

Parece que existirá para todo sempre.

 


Virgínia Celeste Carvalho

Se eu fosse…

Se eu fosse escritora…

Mas não,
Sou apenas um lápis e um papel vazio.
Uma boca com gosto de ressaca.

Talvez nem lembres,
Talvez puseste um quadro barato
No local em que deixei pichada
A tua parede.

Chegaste a notar?

É, parece que, em cada verbo
De amor investido, escreveste
No verso uma palavra de adeus.

E olha que nem és escritor.

poeminha perdido em um caderno qualquer.