Poesia de Outrem – Anne Sexton

annesexton

SONHANDO COM SEIOS  — Anne Sexton

Mãe,
estranho rosto de deusa
sobre a minha casa de leite,
esse delicado asilo,
devorei-te.
Todas as minhas necessidades tragaram-te
como se fosses comida.

O que me deste
recordo-o num sonho:
os braços sardentos envolvendo-me,
o riso algures sobre o meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando os meus sapatos,
os seios suspensos como dois morcegos,
precipitando-se depois sobre mim,
até me dobrar.

 

Agora os seios que conheci à meia-noite
batem em mim como o mar.
Mãe enchi a boca de abelhas
para evitar comer
e isso não foi nada bom para ti.
Finalmente amputaram os teus seios
e o leite derramou-se
nas mãos do cirurgião
e ele abraçou-os
e eu retirei-lhos
e plantei-os.

Coloquei-te um cadeado,
mãe, querida morta humana,
para que as tuas grandes campânulas,
aqueles queridos póneis brancos,
possam galopar, galopar,
aonde quer que estejas.

 

mais poemas dela em: http://poesiailimitada.blogspot.com.br/2011/08/anne-sexton.html

Poesia de Outrem – Caio Fernando Abreu

Caio-Fernando-AbreuDIÁLOGO

Para Luiz Arthur Nunes
A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Eu estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: É.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: É.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro. Tem alguma
coisa atrás, você não vê?
A: Eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não. Não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)
Caio Fernando Abreu – Morangos Mofados

Girassol Espantalho – Vilmar Carvalho

Deduza: quantas luas passaram?

Que o meu rosto de espantalho

A ninguém quer assustar…

Pense na solidão

Sem argumentos medonhos;

Pense e repense o sonho

E não o chame de pesadelo

Porque estava solitário

E à margem do caminho

Sem avisar…

Estou e estou

Ligado à atmosfera

E à ronda luminosa

Dos pássaros!

Deduza: quantas luas passaram?

Repense o sonho

Que nos envolvia…

Não desista cedo

E deixe o susto servir

E guiar-nos, por onde circulam

Os rumores de que os pássaros

Devoram a luz!

Estás e estás

Ligado à palavra

E à metamorfose

Das metáforas!

Feio e doente camarada, os olhos desse besouro

Nunca saem de órbita!

A estática é mentirosa

E a parábola está

Na inércia letárgica das asas…

Doença que enraiza?

Dialética sem pernas?

– Um espantalho engana muito!

Um besouro engana…

O silêncio engana…

O Girassol engana?

As asas são palavras

E nenhuma palavra é letárgica!

A parabola é que a poesia

– Toda poesia –

Também engana!

“Tried so hard to keep myself from falling
Back into my bad old ways,
And it chars my heart to always hear you calling
Calling for the good old days.
Because there were no good old days:
These are the good old days.”

The Good Old Days – The Libertines

Eu menti pra você

 

O que eu quero é minha boca em teu sexo

é rasgar tuas mentiras na minha voz

é ser teu homem, tua mulher

desfeita de cabelos, pelos e peitos

 

te procurar no mar de bares e bebidas

nos corpos dos teus homens

e no gosto de tuas mulheres

 

vem, que a casa é tua

 

Gê de Farias*

——

Porque tenho alunas e alunos formidáveis

Poesia de Outrem – Caio Vitor Lima

FARSA

Sou de tantos!
Entretanto
Não me vejo

Entre os risos
Os aplausos
Onde estou?

Em que boca se perdeu
O meu segredo?

Entre rostos conhecidos
Quem eu sou?

Sou de tantos!
No entanto
Eu me perco

Nos acordes
Que canção
Me traduziu?

Em que verso inacabado
Me padeço?

Que destino arbitrário
Me despiu?

Sou de tantos!
E entre tantos
Desconheço

Este rosto
Que o tempo
Esculpiu…

Caio Vitor Lima*

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*meu aluno, a quem ensinei quase nada.

Poesia de Outrem – Ângelo Monteiro

A ANUNCIADA – Ângelo Monteiro

 

No princípio eras o nome
Que eu dava ao que amava mas desconhecia.
Fora do tempo e virgem na memória
Eu te anunciava assim: louvor e círio.

No princípio eras o nome
Que eu palpava em delírio no meu sono
Para acordar depois sobre o vazio.

Eu te chamava Irmã
Sem que ninguém notasse a quem eu chamava
E me olhavam surpresos os que me viam.

Eu te chamava Amiga
E continuava a caminhar sobre o deserto
Que a minha sombra ainda mais enegrecia.

Eu te chamava Amada
E – pedra intacta – em minha solidão
Nenhum raio descia.

Teu segredo eu guardava em meu segredo
Na chama que me devorava
Ao mesmo tempo que me protegia.

Por um acaso toquei-te a superfície
Com a ponta do meu cetro estilhaçado.
Minhas asas feriram-te: sim, sou tua guarda
Depois de descobrir-te atrás do nome
Que brilha sob o sol, ó Sóror, ó Amiga.

No princípio eras o nome
E foram em tuas mãos, banhadas de palavras,
Que reencontrei a tua face.

No princípio eras o nome:
Portanto só pela palavra me virias
Em forma de presença e redenção.