Luto

Semana passada eu planejava para sábado ou domingo um post sobre dia dos namorados e sobre o amor em geral. Não sobre a data comercial, mas sobre algumas percepções que eu tenho sobre relacionamentos e gostaria de compartilhar. Bem, fica para a próxima. Quando, não sei. O texto de hoje é sobre o que me levou a não escrever.

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Sábado eu passei o dia distante de INTERNET. Uma amiga querida veio me ver, então acordei e fui diretamente para a cozinha fazer aquele almoço especial. Ela chegou com marido e com mais um casal de amigos. Comemos lasanha, torna de cenoura e carne seca e, para sobremesa, cheesecake de chocolate. Tudo feito por mim, porque cozinhar também é fazer poesia. Ela se foi no final da tarde, mal sabia eu que depois dali, toda minha felicidade seria roubada. (Calma, não aconteceu nada a ela, hoje ela deve estar num congresso feminista).

Naquele dia, 11/06, sentei pela primeira vez em frente ao meu PC às 17h. Abri o facebook, passando rapidamente o feed de notícias. Foi então que vi, no perfil do Adam Levine (aquele mesmo, o gato maravilhoso), uma foto dele com uma ex-participante do The Voice USA – uma das minhas preferidas (sim, acompanho o The Voice USA, UK e Austrália – e saio vendo vídeo randômicos de outros, cujo idioma eu não entendo. Não vejo o Brasil, porque é na Globo), mas não parei para ler o post. Era um textão. Segui. Daí, posts depois, havia uma outra, agora de um ex participante também, Chris Mann. Seria um evento especial do The Voice com a Christina Grimmie? Parei para ler. Parei de ler. Questionei minha habilidade de ler em Inglês. Chamei marido. Perguntei “Estou entendendo certo? Christina Grimmie foi morta com 6 tiros?”. Ele leu. Também parou. Acho que também se questionou sobre estar lendo certo.

Ficamos speechless (desculpem, mas “sem palavras” não consegue dizer o que eu quero falar aqui). Infelizmente era verdade. Um homem se achou no direito de dar seis tiros nela. Lembrei daquela música que diz algo como “Me diz como pode acontecer: um simples canalha mata um rei em menos de um segundo”. E não vamos mais ter a Christina chegando àquelas notas altíssimas (G5!), às quais já estávamos acostumadas. (Cês podem ver aqui).

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Domingo chegou, ganhei um livro de presente (alguém pode dizer “que sem graça”, mas livros são melhores presentes para mim, e marido sempre sabe qual comprar). Eu estava me sentindo muito mal com o ocorrido no dia anterior (até hoje estou, fica a voz da Christina na minha cabeça). Lembro que acordei tarde e com muita preguiça, um tanto agradecida por ter sobrado tanta comida do dia anterior e não precisar cozinhar. Fui pro computador eram meio dia. Abri o World of Warcraft, abri o facebook, abri meu email. Eu sigo uma página, no face, chamada Have a gay day. Ainda meio sonolenta, parei para ver a notícia que postaram… 50 dead, 53 injured… WHAT?… não, não podia ser falha no meu inglês, a frase era muito simples. Procurei no google outras notícias (sim, a primeira reação é não acreditar ou achar que a notícia é antiga ou sei lá). E era aquilo mesmo: 50 pessoas haviam sido mortas e outras tantas feridas porque um homem se achou no direito de chaciná-las. Assim, simples. A maldade é muito simples. É chegar e matar e deixar gente como a gente chocadas.

Em comemorar dia dos namorados, não havia mais sentido. Eu quero e desejo que as pessoas tenham o direito de amar porque eu amo e sou amada! É importante e feliz, para mim, andar de mãos dadas com marido. Amar a pessoa que ele é (e não apenas o corpo). Poder construir uma casa, ter gatos e cachorro, poder tê-lo por perto para enxugar as costas na época da chikungunya (sim, nunca precisei tanto dele como quando adoeci). E, mesmo antes de conhecê-lo, foi importante para mim sair, dançar, me relacionar com outras pessoas. Até mesmo para descobrir que tipo de relacionamento eu queria. E isto é o que desejo às pessoas: que elas se encontrem e sejam felizes com quem (ou sem, para quem não curte relacionamentos) elas quiserem.

E aí vem a mídia e o governo americano querendo levar o crime para a questão de terrorismo islâmico. É mais fácil culpar o outro – o Oriente – do que ver as feridas homofóbicas do Ocidente, não é mesmo? É mais fácil culpar o terrorismo do outro – sempre distante de nós – , do que culpar o terrorismo que nosso vizinho, colega de turma, ou sei lá mais o quê, perpetua a cada piada homofóbica, a cada bandeira levantada contra os direitos civis de homossexuais.

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Nesta Casa, não é permitida a entrada de gente machista, homofóbica, lesbofóbica ou transfóbica.

Dito isto, a Casa está de luto.

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Para não dizer que não falei dos espinhos

Escrevi este texto motivada por um tweet e por um post no facebook.

O dia em que fui quase estuprada, eu estava na Universidade (UFPE).

Saí o Centro de Artes e Comunicação umas 17h30, como era costume. Eu morava a menos de 1 km do campus então, como de costume, fui pelo laguinho. Havia chovido um bocado, o que teria afugentado os casais que todas as tardes namoravam nos arredores.

Ainda perto do Centro de Educação, percebi um cara vindo atrás de mim. Eu, que sou desconfiada por natureza, mudei meu rumo, saindo do caminho entre as árvores e indo para a pista de carros. Ele veio atrás. Apertei o passo e ele também. Será que eu estava enganada? Ainda me perguntei. Preconceituosa? Será que ele apenas estava passando? Melhor testar: voltei meus passos em direção ao laguinho, afinal se ele estivesse apenas seguindo, não andaria que nem barata tonta.

Mas ele me seguiu. Disse que iria me… algo indicente que não cabe aqui. Foi então que corri. Corri até chegar ao prédio de Farmácia, onde, finalmente, havia gente. Bebi água, respirei e voltei para casa.

Eu não estava num baile funk. Eu nunca segurei uma arma. Estava saindo de uma aula, com meus livros de literatura.

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 Muitas vezes sofri assédio. Um que me marcou foi o ocorrido na Ponte Duarte Coelho.

Dessa vez, eu já era a professora. Já no início da ponte, ouvi um “linda”. É curioso como, às vezes, a gente demora para perceber um assédio, afinal podia ser um elogio dirigido a outra pessoa. Mas a continuidade me fez olhar para trás em tempo de ver aquele ser repugnante pegar nas bolas. Era fim de tarde. Numa ponte movimentadíssima. Mas parecia que eu estava ali sozinha com aquela pessoa com quem eu nunca ficaria sozinha. Apressei os passos e noto agora que a vida de uma mulher é uma narrativa repetitiva: pois sempre apressamos nossos passos.

O meu ponto de ônibus ainda era na Avenida Dantas Barreto, mas parei naquela em frente aos Correios. O criminoso parou no fiteiro do outro lado da rua (para me fitar?). Havia um policial na parada e eu falei o que tinha acontecido, apontando para o homem. O policial atravessou a rua para falar com o indivíduo e eu aproveitei para sumir na multidão.

Porque, nessas horas, por mais que a gente saiba que é necessário denunciar formalmente, a gente só quer sumir.

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Eu não sei se a expressão “o pior disto tudo” é a mais precisa aqui, mas irei utilizá-la porque é como sinto-me agora: o pior disto tudo é saber que não só existem os criminosos por aí, mas existem também a grande ignorância sobre sexualidade e gênero. Me deparo hoje com um comentário que confudia sexo e estupro e a gente se sente violentada também. Sente aquele frio de medo. Sente aquele sentimento de estarmos, ainda que discursivamente, sozinhas.

Porque, vamos combinar, se há um vídeo de pessoas assaltando uma loja, há quem lembre da situação social dos envolvidos; há quem minimize dizendo que “não morreu ninguém”; há quem minimize dizendo que o objeto roubado nem tinha tanto valor, mas, me parece e me corrijam se eu estiver enganada, ninguém fala “não foi um assalto”.

Com estupro é diferente: as pessoas veem aquilo, mas não enxergam o estupro. Estamos imersos no que nós, feministas, chamamos de Cultura do Estupro. E nela, ironicamente, a “moral e bons costumes” se encontram com a “pornografia” de forma tão explícita que chega a dar ânsia de vômito e clamar pelo “parem o mundo que eu quero descer”.

A “moral e os bons costumes” querem manter a mulher em cativeiros: se ela for recatada e do lar, não será estuprada. Ora, uma pesquisa rápida em notícias mostra que a práxis é muito diferente disso: mulheres – e crianças – são estupradas em casa, na escola, na igreja.

A pornografia Mainstream faz como que jovens não percebam a diferença entre sexo e estupro. Entre prazer e violência. Entre consentimento e violação.

E os “varões da pátria”, que seguram a bandeira dos bons costumes, não querem que trabalhemos sexualidade na escola. E os meninos e as meninas buscam informações apenas na pornografia de redtube.

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E falta empatia. Mas isso é assunto para outro post.

… de quando quem te ensinou política se tornou um político.

… de quando quem te falou em utopia, pela vez primeira, tornou-se um burocrata.

 

Dia da consciência negra, por quê?

Vejo uma enxurrada de compartilhamentos, neste dia, sobre a não necessidade de um dia de consciência negra… mas sim de “consciência humana”. Vejo alunas e alunos falando isso e me sinto obrigada a responder.

Bem, vamos lá, usar nosso espaço para tratar disso.

Vou contar uma história baseada em fatos que presenciei.

Não vou citar o nome de quem a viveu, porque não sou dona da experiência e não sei se ele se sentiria confortável em compartilhar. Certamente vou ficcionalizar um pouco. Daí a história se torna minha também.

.. consciência não tem cor, mas qual consciência temos da cor?

Ele nasceu numa dessas famílias brasileiras. Não, não as da propaganda, nas quais todo mundo é branco e cabelo liso, não. Nasceu numa dessas famílias que remontam à nossa formação: um tio de pele negra, outro de pele branca, uma tia com contornos do rosto bem indígena. A mãe, aquela pessoa a quem a sociedade chama de “morena”, casou com este homem, cuja a família traz a pele branca, mas nos traços do rosto e do corpo características inúmeras.

Ele nasceu e o chamaram de moreno. Não, não era negro como o tio, “graças a Deus”.

Na escolinha particular do bairro e depois na escola pública, havia vários morenos que nem ele, mas poucos negros como o tio.

Ele cresceu. Foi para uma escola técnica e fez amigos. Amigos brancos. Na sala, havia negros sim: dois. Ele ainda era o moreno, embora seu cabelo “acusasse” o contrário e ele precisasse cortar bem curto – mesmo desejando um cabelo grande para fazer headbanging.

Quando o conheci, ele trazia o peso de uma questão: por que algumas coisas são mais fáceis para alguns amigos meus? Conversamos muito sobre isso, estávamos inaugurando a vida adulta. Ele viu que, na verdade, eram mais fáceis para amigos de um poder aquisitivo maior que o dele. Amigos que eram brancos, nota. Mas, ao mesmo tempo, ele percebeu quantos outros tinham ficado para trás: os de situação financeira igual ou menor que a dele. Curiosamente, a maioria, “morenos” ou negros.

Anos depois, trabalhando numa área elitista, ele foi a um evento. Foi muito bem recebido, por sinal. Estava ali como igual. Como pessoa merecedora de estar ali. Ótimo. Ficamos felizes.

O evento passou na televisão. E, ao se ver na televisão, foi quando ele notou o quanto era diferente. Ele era o único… NEGRO… que estava ali. Os outros pareciam saídos de uma máquina de produção em série: brancos, cabelo liso ou ondulado – cortados ou grandes não importa aqui —, com roupas do mesmo estilo e com pensamentos sobre “a vida, o universo e tudo mais” bem parecidos. Foi o momento da consciência. Não da cor da pele, mas do lugar social. De como a História do Brasil formou esses espaços que negros e negras frequentam ou não.

Ah, não havia mulher também neste evento, mas isto fica para outro post.

Epílogo

— … porque nós, que somos negros… — ele ia continuar, mas a mãe cortou bruscamente:

— Que negro! Você é moreninho, meu filho.

A Tal da Persistência

Como não existiria violência contra a mulher se, ao queremos discutir este assunto, tu taxas logo de “polêmico”? Polêmicas deveriam ser as mortes e não pessoas que procuram um modo de acabar com elas.

Como esta violência não se perpetuaria se tu, quando te mostro números alarmantes, vens comparar a um caso de uma mulher que bateu no marido? Comparar mais de 300.000 denúncias com uma denúncia parece injusto, não?

Como tens coragem de me dizer que mulheres não são silenciadas se, a única professora que traz este tema é a chata feminista, mas, ao cair no ENEM, tu dizes que “este assunto não é feminista”?

Como não existiria violência contra a mulher se, ao me tomares por uma “mulher independente”, pensas logo que não sou casada? Ao achar isso, é porque me comparas ao imaginário de mulher casada – submissa, dependente, servil.

Como não existiria esta violência se, uma menina que foi assediada é convidada a sair de um programa de televisão e seus assediadores estão por aí, soltos, livres, prontos a assediar a mim e a ti também?

Como, ainda, não existiria tal violência se tomas o que eu falo por ideológico (e é!), mas tomas tudo que é “comum” como se não fosse ideológico também? Na verdade, o comum é tão ideológico que sequer consegues ver os discursos que te formam. O que eu, sinceramente, sinto muito.

Como e por que insistem em clamar pela tal “Gramática” quando queremos ter nossa especificidade de gênero nas formas do plural, senão em persistir com o apagamento linguístico? Como se a “Gramática” não fosse uma construção de relações sociais postas em sons e traços. Como se aquelas regras fossem escritas numa tábua de salvação, e quem as quebrassem fosse queimar no quinto dos…

Como, vá me diga como, não persistiria a violência se, ao sermos vítimas – sim, porque não há um dia que eu não receba cantadas idiotas, que alguém menospreze minha fala, que eu escute uma piada sexista, que eu saiba de um caso de estupro, espancamento e morte – tu dizes que sou vitimista?

Como não persistiria esta violência se tu chamas esse homem que bate em mulher de vizinho, amigo, professor, médico, colega, tio, irmão, pai, padrasto, marido e, mesmo que não aches correto o que ele faz, nunca o chamas pelo título de criminoso?

Digo mais: a “facilidade” encontrada por muitos no tema da redação do Enem 2015 nos mostra o quanto ainda temos de estrada nesta discussão. Porque em nada é fácil, este tema.

Aprendizagem

In Memorian Dona Lea, que me ensinou a ser gente

e dedicado a Seu Mané, que me ensinou o que é política

“Ter bondade é ter coragem”

Era uma manhã qualquer, com aquele calor usual da cidade dos Palmares. Um homem chegou a nosso portão, sujo e com uma cara que a sociedade nos ensina a temer. Minha mãe o atendeu. Eu lembro do olhar cabisbaixo dele; do boné de aba carcomida; dos dentes faltando. “Eu podia mentir”, ele disse, “mas vô dizer a verdade: sai da cadeia e tem dias que ando por aí e não como”. Estávamos sozinhas em casa, embora minha mãe acreditasse que aquele crucifixo cristão dizia que Cristo estava conosco também. O fato é que ela deu-lhe uma cadeira para sentar, fora de casa. Preparou-lhe comida e, enquanto ele comia, ela separou umas roupas que meu irmão não mais usava. Ele comeu, aceitou as roupas e se foi.

O que separa pessoas é o preconceito, não a moral

Criaram um grupo da Pastoral da Criança na igreja que frequentávamos. Minha mãe, claro, foi participar. Não deu muito tempo, arrumou briga: as “senhoras de família” queriam fazer festinha da criança, queriam arrecadar cestas básicas e dar para as crianças pobres que já frequentavam a igreja. Dona Lea se irritou. Mandou que elas criassem vergonha. Eu estava na barra da saia de minha mãe e a conhecia suficientemente para saber: ela estava irritadíssima. Ela, que nunca levantava a voz, tinha levantado o dedo e o apontado para o nariz das demais. “Cristo não andaria com a gente. Ele quando veio andou com mulheres excluídas da sociedade. E sábado a gente vai nos puteiros (palavrão, mamãe?) ver se as crianças estão matriculadas nas escolas; se estão vacinadas; se as mães sabem como evitar mais filho!”. No sábado, ela saiu pela manhã e foi a umas casas de prostituição sozinha, como era o esperado.

Mesmo estando ao lado de certas pessoas, você DEVE estar próxima a outras

Era Natal. A igreja estava repleta de luzes e se comemorava o primeiro natal na igreja “pronta”, visto que passaram anos arrecadando dinheiro para que a capelinha se tornasse um local mais “apropriado”. Bem, o fato é que as “senhoras de família” fizeram uma Árvore de Natal (que nada tem a ver com Cristo, nota) de papel e coloram na parede, com aquelas bolinhas que enfeitam – cujo nome nem lembro. Em cada bolinha, havia o nome das famílias que pagavam dízimo e tinham ajudado na construção do prédio da Igreja. O nome dos meus pais estava lá. Mas não deu outra: meu pai teve um acesso de fúria. Sabe aquele trecho bíblico em que Jesus entra no templo dando voadora e expulsando comerciantes? Pois bem, foi o mesmo que Seu Mané fez. Arrancou, sem piedade alguma, os adereços, lembrando àquelas mulheres que muita gente não pagava o dízimo porque não tinha como pagar; que tinha gente ali que passava fome! E que a igreja deveria ser um lugar de acolhida e não de segregação. É claro que meu pai ficou com fama de louco, da qual se orgulha.

Quer mudar o sistema? Comece por você

Eu não lembro se já comentei esse fato; é bem capaz, pois me marcou em demasia. Uma marcha Sem Terra passou numa rua perto da nossa casa. Para quem não sabe, meu pai era sindicalista rural no fim dos anos 60… Enfim, o fato é que ele foi acompanhar e daqui a pouco chega em casa com uma mulher, que carregava uma criança no colo e outra estava segurando em sua saia. Meu pai pede que eu vá fazer uma mamadeira de leite, o que eu fiz sem pestanejar. E fui entregar toda feliz, porque estava sendo caridosa, né? A inocência é tão afável, é um mundo tão bom: você é caridosa e pronto. Resolveu. Que nada! Quando a criança de colo chegou à metade, a mãe retirou a mamadeira dele e deu para o outro. Eu fiquei em choque. Ser caridosa resolvia um problema RASO de consciência, nada mais. Meu pai, vendo meu espanto, segredou: “eles não têm leite porque nós temos duas latas em casa”.

O sistema começa na gente pontofinal.