Quando fechou a porta, o tempo sussurrou amém.

(ideia de um começo. mas, para quem apenas anseia pela estrada, resta a impossibilidade de poetizar um fim)

Anúncios

Nota de rodapé

De toda a imagem poética, a que menos te representa é a de nota de rodapé.

(Anotação para um depois. Uma conversa talvez. Um conto certamente).

És uma obra inacabada. No sentido Foucaultiano de obra. De um conjunto tão esparso que qualquer limite seria um mero recorte do discurso.

(Ideia para um artigo. Uma aula sobre metáforas. Quem sabe uma publicação).

A questão é que a essência é sempre a mudança. E a ironia aqui se mostra: só nos percebemos modificados porque existe uma essência outra, ainda que inabarcável.

(O silêncio de nossa filosofia para sempre nunca publicada).

meu sorriso da lua

A lua hoje se pintou para mim como um sorriso de palhaço: Sorria largamente para esconder um desassossego.

Sorri-lhe também. Mais por educação do que por simpatia.

A noite me era inquieta, como o corpo que se reconhece vida ainda no ventre. E quer rebentar. Quer fazer sangrar pra poder surgir.

Sangrei. Mas senti-me única de novo.

sobre regressos

havia sim teu rosto em minha gaveta: último papel impresso de uma pilha de papeis impressos – guardados para que ocasião? ele restava ali e poeira alguma havia desgastado a suavidade dos pelos que o moldavam. e reencontrá-lo é sempre como a vez primeira que o encontrei: um susto pequeno que a possibilidade sempre causa. essa náusea. esse tremor discreto e sem antecedente. é sempre novo. me é sempre por inteiro.

reencontro teu rosto em meio a post-its, bics que não riscam e corretivos que secaram. vai ver que é isto: teu rosto foi eternizado numa daquelas tarefas mimeografas que trouxemos para casa. e erramos. e se passarmos a borracha, mancha; e se tentarmos com mais força, rasga. e se passarmos o erroex já era: restará um grude criando relevos ainda mais quasímodos.

e perdura assim, em mim, o gosto pelo teu rosto que não risco, que não rasgo e que não nego.

2009 reencontrado numa pasta do PC

Desabafo

 

Ontem estive me sentindo sufocada; triste até. As coisas se avolumaram de tal forma que pensei que iam me tragar; eu me perdendo num emaranhado de aços tortos, cores fortes, energias fartas. Mas depois lembrei que eu sou Virgínia Celeste Carvalho, com todos os defeitos e qualidades que isso implicava, e, sinceramente, ego murcho não constava em nenhuma das listas.

Tentei lembrar fatos que vivi e, principalmente, porque eu os vivi. Pensar em todas as pessoas que fui e nas que deixei de ser. Nas que eu poderia ter sido também. E esse sentimento enlameado não estava nos planos de nenhuma delas. Tive medo.

Mas era noite, porta da madrugada já, e, nessas horas, as horas deixam de fazer algum sentido. Tudo fica muito instável e era eu quem estava em crise, não uma personagem. Não havia ficção alguma, eu me repetia.  Mas depois pensei que a ficção poderia ser  tamanha que eu nem percebera seus contornos. Duvidei de mim.

As faltas preenchiam. E algumas faltas sequer tinham nome, sequer formas, nem sentido. Era falta do que eu tinha, falta mesmo do que eu era. E fiquei assim pensando nessas coisas amorfas, inominadas, e, justamente por isso, tão intensas e inquietantes.

Daí lembrei que uma amiga me falou que precisamos definir as coisas. Não basta senti-las, vivê-las, jamais apenas passar por elas como passamos pela estrada imersa em canaviais. Precisamos envolvê-las em signos que as designem; que as façam significar algo fora de si. A linguagem e sua alienação primeira: delimitar, quando as coisas são, em si, esparsas.

E tudo que precisei foi nomear aquele momento para poder transcendê-lo.

a dançarina

Ela dançava. Se por felicidade ou desespero, nunca saberei

Convenço-me que pelos dois.

Ela dançava descalça; seus pés deviam ter 40 anos de passos desritmados. Mas os seus gestos, naquela praça, destoava dos nossos gestos de esperadores de ônibus e transeuntes anônimos.

A dança talvez fosse um modo de não ser invisível.

Enquanto dançava, afastava de si o cidadão de bem que lhe pensava como criminosa, por dar outro ritmo à praça; chamava para si a atenção da criança, que nunca vira aquilo.

Afinal fomos educados que a dança é pra festa. Ou pro pecado. E, normalmente, estas estão juntas.

Pego meus ônibus, inerte. E me pego pensando quantas vezes ela repetiria aquela coreografia.

Perguntas

Aproximei-me.

Ela estava sentada em um canto estratégico da sala: se alguém por ali circulasse, não a veriam, mas, entre os braços da poltrona, dava para ver o desenho animado na tela. Observei por poucos instantes e decidi ir embora, pois não havia nada mais ali para mim. Dei de costas e foi quando ela me surpreendeu:

— Por que você não é bailarina?

Questionou-me de modo inocente. Me enraiveci. Tornei em sua direção, querendo explodir em gritos. Me contive um pouco e respondi com outra pergunta:

— E por que você não sai desse canto?

Ela se assustou e desatou a chorar. Me senti mal por isso, pois eu sabia toda a história. Agachei-me à sua altura e lhe estendi a mão.

— Vamos passear.

Fomos até o quintal. Dolores, nosso gato com nome de gata, corria e subia no coqueiro, depois desaparecia entre as plantas. Ficamos em silêncio, até que ela quis saber:

— A gente vai fazer tudo certo?

— Não. — eu disse rindo — Até porque fazer tudo certo é chato. Como acordar cedo.

Ela odiava acordar cedo.

— Desculpa por você não ser bailarina. — Ela conseguiu se expressar.

— Não se culpe. Culpa é um sentimento desnecessário e cristão. Não somos cristãs. — me pus de joelhos, para ficar com meus olhos na altura dos dela. — Nós devemos nos sentir responsáveis, mas nunca culpadas.

Eu ainda ia falar mais, quando nossa mãe chamou da cozinha.

— Aproveite-a — eu disse, mesmo sabendo que ela o faria mesmo sem conselhos.

— Ela vai ficar com a gente, não é?

— É. Para sempre.

Virgínia Celeste Carvalho

(Alice, do blog Forgotten and Fables Untold me indicou para participar de um destes posts coletivos. Eu, insociavel por natureza, não poderia participar da maneira convencional. Porém duas das perguntas que ela propôs “1. Se a criança que você era te visse/conhecesse hoje, o que ela provavelmente te perguntaria? 2. Se você encontrasse com a criança que você já foi, que pergunta faria a ela?” me chamaram a atenção e eu as respondi, da única maneira possível de responder: em forma de ficção)