Para não dizer que não falei dos espinhos

Escrevi este texto motivada por um tweet e por um post no facebook.

O dia em que fui quase estuprada, eu estava na Universidade (UFPE).

Saí o Centro de Artes e Comunicação umas 17h30, como era costume. Eu morava a menos de 1 km do campus então, como de costume, fui pelo laguinho. Havia chovido um bocado, o que teria afugentado os casais que todas as tardes namoravam nos arredores.

Ainda perto do Centro de Educação, percebi um cara vindo atrás de mim. Eu, que sou desconfiada por natureza, mudei meu rumo, saindo do caminho entre as árvores e indo para a pista de carros. Ele veio atrás. Apertei o passo e ele também. Será que eu estava enganada? Ainda me perguntei. Preconceituosa? Será que ele apenas estava passando? Melhor testar: voltei meus passos em direção ao laguinho, afinal se ele estivesse apenas seguindo, não andaria que nem barata tonta.

Mas ele me seguiu. Disse que iria me… algo indicente que não cabe aqui. Foi então que corri. Corri até chegar ao prédio de Farmácia, onde, finalmente, havia gente. Bebi água, respirei e voltei para casa.

Eu não estava num baile funk. Eu nunca segurei uma arma. Estava saindo de uma aula, com meus livros de literatura.

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 Muitas vezes sofri assédio. Um que me marcou foi o ocorrido na Ponte Duarte Coelho.

Dessa vez, eu já era a professora. Já no início da ponte, ouvi um “linda”. É curioso como, às vezes, a gente demora para perceber um assédio, afinal podia ser um elogio dirigido a outra pessoa. Mas a continuidade me fez olhar para trás em tempo de ver aquele ser repugnante pegar nas bolas. Era fim de tarde. Numa ponte movimentadíssima. Mas parecia que eu estava ali sozinha com aquela pessoa com quem eu nunca ficaria sozinha. Apressei os passos e noto agora que a vida de uma mulher é uma narrativa repetitiva: pois sempre apressamos nossos passos.

O meu ponto de ônibus ainda era na Avenida Dantas Barreto, mas parei naquela em frente aos Correios. O criminoso parou no fiteiro do outro lado da rua (para me fitar?). Havia um policial na parada e eu falei o que tinha acontecido, apontando para o homem. O policial atravessou a rua para falar com o indivíduo e eu aproveitei para sumir na multidão.

Porque, nessas horas, por mais que a gente saiba que é necessário denunciar formalmente, a gente só quer sumir.

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Eu não sei se a expressão “o pior disto tudo” é a mais precisa aqui, mas irei utilizá-la porque é como sinto-me agora: o pior disto tudo é saber que não só existem os criminosos por aí, mas existem também a grande ignorância sobre sexualidade e gênero. Me deparo hoje com um comentário que confudia sexo e estupro e a gente se sente violentada também. Sente aquele frio de medo. Sente aquele sentimento de estarmos, ainda que discursivamente, sozinhas.

Porque, vamos combinar, se há um vídeo de pessoas assaltando uma loja, há quem lembre da situação social dos envolvidos; há quem minimize dizendo que “não morreu ninguém”; há quem minimize dizendo que o objeto roubado nem tinha tanto valor, mas, me parece e me corrijam se eu estiver enganada, ninguém fala “não foi um assalto”.

Com estupro é diferente: as pessoas veem aquilo, mas não enxergam o estupro. Estamos imersos no que nós, feministas, chamamos de Cultura do Estupro. E nela, ironicamente, a “moral e bons costumes” se encontram com a “pornografia” de forma tão explícita que chega a dar ânsia de vômito e clamar pelo “parem o mundo que eu quero descer”.

A “moral e os bons costumes” querem manter a mulher em cativeiros: se ela for recatada e do lar, não será estuprada. Ora, uma pesquisa rápida em notícias mostra que a práxis é muito diferente disso: mulheres – e crianças – são estupradas em casa, na escola, na igreja.

A pornografia Mainstream faz como que jovens não percebam a diferença entre sexo e estupro. Entre prazer e violência. Entre consentimento e violação.

E os “varões da pátria”, que seguram a bandeira dos bons costumes, não querem que trabalhemos sexualidade na escola. E os meninos e as meninas buscam informações apenas na pornografia de redtube.

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E falta empatia. Mas isso é assunto para outro post.

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Sob o signo de Aquário

Para Filipe Carvalho, meu menininho.

 

Eram olhos que não pediam permissão para serem redondos.

De cílios que pareciam recentemente alongados por um rímel vencido.

Eram olhos curiosos, de um animal sempre assustado por uma monstruosidade.

Aquela de sentir o humano crescer dentro de si.

E são meus olhos favoritos que, agora, só vejo enjaulados na tela;

Emoldurados na tela; sempre encurralados para mim.

 

Embora mais livre que nunca para eles mesmos.

Nota de rodapé

De toda a imagem poética, a que menos te representa é a de nota de rodapé.

(Anotação para um depois. Uma conversa talvez. Um conto certamente).

És uma obra inacabada. No sentido Foucaultiano de obra. De um conjunto tão esparso que qualquer limite seria um mero recorte do discurso.

(Ideia para um artigo. Uma aula sobre metáforas. Quem sabe uma publicação).

A questão é que a essência é sempre a mudança. E a ironia aqui se mostra: só nos percebemos modificados porque existe uma essência outra, ainda que inabarcável.

(O silêncio de nossa filosofia para sempre nunca publicada).