Dia da consciência negra, por quê?

Vejo uma enxurrada de compartilhamentos, neste dia, sobre a não necessidade de um dia de consciência negra… mas sim de “consciência humana”. Vejo alunas e alunos falando isso e me sinto obrigada a responder.

Bem, vamos lá, usar nosso espaço para tratar disso.

Vou contar uma história baseada em fatos que presenciei.

Não vou citar o nome de quem a viveu, porque não sou dona da experiência e não sei se ele se sentiria confortável em compartilhar. Certamente vou ficcionalizar um pouco. Daí a história se torna minha também.

.. consciência não tem cor, mas qual consciência temos da cor?

Ele nasceu numa dessas famílias brasileiras. Não, não as da propaganda, nas quais todo mundo é branco e cabelo liso, não. Nasceu numa dessas famílias que remontam à nossa formação: um tio de pele negra, outro de pele branca, uma tia com contornos do rosto bem indígena. A mãe, aquela pessoa a quem a sociedade chama de “morena”, casou com este homem, cuja a família traz a pele branca, mas nos traços do rosto e do corpo características inúmeras.

Ele nasceu e o chamaram de moreno. Não, não era negro como o tio, “graças a Deus”.

Na escolinha particular do bairro e depois na escola pública, havia vários morenos que nem ele, mas poucos negros como o tio.

Ele cresceu. Foi para uma escola técnica e fez amigos. Amigos brancos. Na sala, havia negros sim: dois. Ele ainda era o moreno, embora seu cabelo “acusasse” o contrário e ele precisasse cortar bem curto – mesmo desejando um cabelo grande para fazer headbanging.

Quando o conheci, ele trazia o peso de uma questão: por que algumas coisas são mais fáceis para alguns amigos meus? Conversamos muito sobre isso, estávamos inaugurando a vida adulta. Ele viu que, na verdade, eram mais fáceis para amigos de um poder aquisitivo maior que o dele. Amigos que eram brancos, nota. Mas, ao mesmo tempo, ele percebeu quantos outros tinham ficado para trás: os de situação financeira igual ou menor que a dele. Curiosamente, a maioria, “morenos” ou negros.

Anos depois, trabalhando numa área elitista, ele foi a um evento. Foi muito bem recebido, por sinal. Estava ali como igual. Como pessoa merecedora de estar ali. Ótimo. Ficamos felizes.

O evento passou na televisão. E, ao se ver na televisão, foi quando ele notou o quanto era diferente. Ele era o único… NEGRO… que estava ali. Os outros pareciam saídos de uma máquina de produção em série: brancos, cabelo liso ou ondulado – cortados ou grandes não importa aqui —, com roupas do mesmo estilo e com pensamentos sobre “a vida, o universo e tudo mais” bem parecidos. Foi o momento da consciência. Não da cor da pele, mas do lugar social. De como a História do Brasil formou esses espaços que negros e negras frequentam ou não.

Ah, não havia mulher também neste evento, mas isto fica para outro post.

Epílogo

— … porque nós, que somos negros… — ele ia continuar, mas a mãe cortou bruscamente:

— Que negro! Você é moreninho, meu filho.

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3 pensamentos sobre “Dia da consciência negra, por quê?

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