A Tal da Persistência

Como não existiria violência contra a mulher se, ao queremos discutir este assunto, tu taxas logo de “polêmico”? Polêmicas deveriam ser as mortes e não pessoas que procuram um modo de acabar com elas.

Como esta violência não se perpetuaria se tu, quando te mostro números alarmantes, vens comparar a um caso de uma mulher que bateu no marido? Comparar mais de 300.000 denúncias com uma denúncia parece injusto, não?

Como tens coragem de me dizer que mulheres não são silenciadas se, a única professora que traz este tema é a chata feminista, mas, ao cair no ENEM, tu dizes que “este assunto não é feminista”?

Como não existiria violência contra a mulher se, ao me tomares por uma “mulher independente”, pensas logo que não sou casada? Ao achar isso, é porque me comparas ao imaginário de mulher casada – submissa, dependente, servil.

Como não existiria esta violência se, uma menina que foi assediada é convidada a sair de um programa de televisão e seus assediadores estão por aí, soltos, livres, prontos a assediar a mim e a ti também?

Como, ainda, não existiria tal violência se tomas o que eu falo por ideológico (e é!), mas tomas tudo que é “comum” como se não fosse ideológico também? Na verdade, o comum é tão ideológico que sequer consegues ver os discursos que te formam. O que eu, sinceramente, sinto muito.

Como e por que insistem em clamar pela tal “Gramática” quando queremos ter nossa especificidade de gênero nas formas do plural, senão em persistir com o apagamento linguístico? Como se a “Gramática” não fosse uma construção de relações sociais postas em sons e traços. Como se aquelas regras fossem escritas numa tábua de salvação, e quem as quebrassem fosse queimar no quinto dos…

Como, vá me diga como, não persistiria a violência se, ao sermos vítimas – sim, porque não há um dia que eu não receba cantadas idiotas, que alguém menospreze minha fala, que eu escute uma piada sexista, que eu saiba de um caso de estupro, espancamento e morte – tu dizes que sou vitimista?

Como não persistiria esta violência se tu chamas esse homem que bate em mulher de vizinho, amigo, professor, médico, colega, tio, irmão, pai, padrasto, marido e, mesmo que não aches correto o que ele faz, nunca o chamas pelo título de criminoso?

Digo mais: a “facilidade” encontrada por muitos no tema da redação do Enem 2015 nos mostra o quanto ainda temos de estrada nesta discussão. Porque em nada é fácil, este tema.

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Um pensamento sobre “A Tal da Persistência

  1. Toda violência é um atraso na vida, seja uma ou 300 mil. Mas a mulher, especialmente, têm sido vitima disso desde a sua eterna culpa por ter comido a maçã. Chega a ser impressionante como amamos e odiamos as mulheres que passam pela existência humana

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