Perguntas

Aproximei-me.

Ela estava sentada em um canto estratégico da sala: se alguém por ali circulasse, não a veriam, mas, entre os braços da poltrona, dava para ver o desenho animado na tela. Observei por poucos instantes e decidi ir embora, pois não havia nada mais ali para mim. Dei de costas e foi quando ela me surpreendeu:

— Por que você não é bailarina?

Questionou-me de modo inocente. Me enraiveci. Tornei em sua direção, querendo explodir em gritos. Me contive um pouco e respondi com outra pergunta:

— E por que você não sai desse canto?

Ela se assustou e desatou a chorar. Me senti mal por isso, pois eu sabia toda a história. Agachei-me à sua altura e lhe estendi a mão.

— Vamos passear.

Fomos até o quintal. Dolores, nosso gato com nome de gata, corria e subia no coqueiro, depois desaparecia entre as plantas. Ficamos em silêncio, até que ela quis saber:

— A gente vai fazer tudo certo?

— Não. — eu disse rindo — Até porque fazer tudo certo é chato. Como acordar cedo.

Ela odiava acordar cedo.

— Desculpa por você não ser bailarina. — Ela conseguiu se expressar.

— Não se culpe. Culpa é um sentimento desnecessário e cristão. Não somos cristãs. — me pus de joelhos, para ficar com meus olhos na altura dos dela. — Nós devemos nos sentir responsáveis, mas nunca culpadas.

Eu ainda ia falar mais, quando nossa mãe chamou da cozinha.

— Aproveite-a — eu disse, mesmo sabendo que ela o faria mesmo sem conselhos.

— Ela vai ficar com a gente, não é?

— É. Para sempre.

Virgínia Celeste Carvalho

(Alice, do blog Forgotten and Fables Untold me indicou para participar de um destes posts coletivos. Eu, insociavel por natureza, não poderia participar da maneira convencional. Porém duas das perguntas que ela propôs “1. Se a criança que você era te visse/conhecesse hoje, o que ela provavelmente te perguntaria? 2. Se você encontrasse com a criança que você já foi, que pergunta faria a ela?” me chamaram a atenção e eu as respondi, da única maneira possível de responder: em forma de ficção)

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6 pensamentos sobre “Perguntas

  1. Culpa não rende bons escritos, não é mesmo?
    E esse ficou delicioso… quando criança eu queria inventar coisas a partir de outras coisas. Ser engenheira… me tornei escritora/editora, então posso dizer que seria um encontro feliz e satisfeito. rs

    bacio

    • vou deixar o ballet para a aposentadoria.
      sim, ser escritora é ser engenheira, de certo modo.
      e a culpa, bem, a culpa não move nada, não muda nada. nos sentirmos responsáveis pelas nossas ações, sim.

      =)

  2. Pingback: Tag: Descobrindo novos blogs. |

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