Aprendizagem

In Memorian Dona Lea, que me ensinou a ser gente

e dedicado a Seu Mané, que me ensinou o que é política

“Ter bondade é ter coragem”

Era uma manhã qualquer, com aquele calor usual da cidade dos Palmares. Um homem chegou a nosso portão, sujo e com uma cara que a sociedade nos ensina a temer. Minha mãe o atendeu. Eu lembro do olhar cabisbaixo dele; do boné de aba carcomida; dos dentes faltando. “Eu podia mentir”, ele disse, “mas vô dizer a verdade: sai da cadeia e tem dias que ando por aí e não como”. Estávamos sozinhas em casa, embora minha mãe acreditasse que aquele crucifixo cristão dizia que Cristo estava conosco também. O fato é que ela deu-lhe uma cadeira para sentar, fora de casa. Preparou-lhe comida e, enquanto ele comia, ela separou umas roupas que meu irmão não mais usava. Ele comeu, aceitou as roupas e se foi.

O que separa pessoas é o preconceito, não a moral

Criaram um grupo da Pastoral da Criança na igreja que frequentávamos. Minha mãe, claro, foi participar. Não deu muito tempo, arrumou briga: as “senhoras de família” queriam fazer festinha da criança, queriam arrecadar cestas básicas e dar para as crianças pobres que já frequentavam a igreja. Dona Lea se irritou. Mandou que elas criassem vergonha. Eu estava na barra da saia de minha mãe e a conhecia suficientemente para saber: ela estava irritadíssima. Ela, que nunca levantava a voz, tinha levantado o dedo e o apontado para o nariz das demais. “Cristo não andaria com a gente. Ele quando veio andou com mulheres excluídas da sociedade. E sábado a gente vai nos puteiros (palavrão, mamãe?) ver se as crianças estão matriculadas nas escolas; se estão vacinadas; se as mães sabem como evitar mais filho!”. No sábado, ela saiu pela manhã e foi a umas casas de prostituição sozinha, como era o esperado.

Mesmo estando ao lado de certas pessoas, você DEVE estar próxima a outras

Era Natal. A igreja estava repleta de luzes e se comemorava o primeiro natal na igreja “pronta”, visto que passaram anos arrecadando dinheiro para que a capelinha se tornasse um local mais “apropriado”. Bem, o fato é que as “senhoras de família” fizeram uma Árvore de Natal (que nada tem a ver com Cristo, nota) de papel e coloram na parede, com aquelas bolinhas que enfeitam – cujo nome nem lembro. Em cada bolinha, havia o nome das famílias que pagavam dízimo e tinham ajudado na construção do prédio da Igreja. O nome dos meus pais estava lá. Mas não deu outra: meu pai teve um acesso de fúria. Sabe aquele trecho bíblico em que Jesus entra no templo dando voadora e expulsando comerciantes? Pois bem, foi o mesmo que Seu Mané fez. Arrancou, sem piedade alguma, os adereços, lembrando àquelas mulheres que muita gente não pagava o dízimo porque não tinha como pagar; que tinha gente ali que passava fome! E que a igreja deveria ser um lugar de acolhida e não de segregação. É claro que meu pai ficou com fama de louco, da qual se orgulha.

Quer mudar o sistema? Comece por você

Eu não lembro se já comentei esse fato; é bem capaz, pois me marcou em demasia. Uma marcha Sem Terra passou numa rua perto da nossa casa. Para quem não sabe, meu pai era sindicalista rural no fim dos anos 60… Enfim, o fato é que ele foi acompanhar e daqui a pouco chega em casa com uma mulher, que carregava uma criança no colo e outra estava segurando em sua saia. Meu pai pede que eu vá fazer uma mamadeira de leite, o que eu fiz sem pestanejar. E fui entregar toda feliz, porque estava sendo caridosa, né? A inocência é tão afável, é um mundo tão bom: você é caridosa e pronto. Resolveu. Que nada! Quando a criança de colo chegou à metade, a mãe retirou a mamadeira dele e deu para o outro. Eu fiquei em choque. Ser caridosa resolvia um problema RASO de consciência, nada mais. Meu pai, vendo meu espanto, segredou: “eles não têm leite porque nós temos duas latas em casa”.

O sistema começa na gente pontofinal.

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2 pensamentos sobre “Aprendizagem

  1. Se eu falar que não chorei com esse texto, estaria mentindo. Mas não chorei por pena, ou por admiração aos personagens (é claro que isso soma muito a minha reação). Chorei por vezes me pegar pensando em quanto somos medíocres nos relacionamentos com o nosso próximo. Quantas pessoas se acham “boazinhas” porque falam da paz e do amor para o vizinho, e fecham os olhos para a necessidade dele. Ora, do que adianta só palavras se é de pão que se precisa? “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.” Tiago 2:17

    Tento imaginar esse mundão sem desigualdades, sem descriminação e injustiça. (apenas imagino)

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