Fachadas

Perguntaram por aí se eu era Sapatão.

Fiquei tão preocupada… não comigo, mas com quem perguntou. Deve ser uma pessoa com uma vida muito tediosa para preocupar-se com quem transo. Até me lembrou aquela música do Caetano “Todo mundo quer saber com quem você se deita, nada pode prosperar”.

Também fiquei preocupada com a reação da pessoa a quem foi perguntada: “defendeu” minha heterossexualidade, como se fosse um problema ser “confundida”; como se existisse, de fato, uma separação entre mulheres com orientação sexual diversas. “Não, ela é casada. Muito bem casada com um homem”. Mais uma vez a sexualidade feminina definida pela presença de um homem. Sinceramente essa defesa me deixa mais irritada que a acusação.

O que eu digo é: depois de um tempo de estudo e de reflexão sobre o amor, cheguei à conclusão que devemos amar PESSOAS e não órgãos genitais.

Não é um homem, ou, ao menos, não deveria ser uma figura masculina que organiza, define, estrutura a vida de uma mulher. Que sejamos nosso próprio cerne, nossa própria força. Que nossas escolhas sejam realmente nossas e que não nos limitem. Que esse sentimento de “irremediável” que nos persegue se amedronte diante de nossa determinação.

Além disso, fiquei preocupada com outra coisa: será que esse pensamento se deu por eu falar tanto em feminismo? será que esta mulher que perguntou isso está tão sufocada pelo machismo que chegou à conclusão que apenas “sapatões” se interessam por liberdade e por direitos? o dever de ter um homem supre as necessidades femininas agora?

Só quero lembrar que não existe diferença moral entre mulheres gays e hétero; nem entre mulheres cis e trans.

Agora existe um abismo moral entre nós, que desconstruímos o preconceito, e gente preconceituosa.

Estou pensando aqui no que fazer… por mim, nada. Mas depois pensei: eu tenho força, tenho voz, tenho suporte de muitas pessoas… agora e se esse tipo de situação ocorre a uma pessoa fragilizada? acontece a uma mulher que está em uma situação em que “quem ela é” não está sendo respeitado?

E como nada é apenas “sim” ou “não”, vem o lado dessa mulher que fez a pergunta: ela também é vítima do machismo; está numa posição de opressão tão grande, que sequer consegue vislumbrar que seu comportamento também limita a ela! A parte mais difícil do feminismo ainda continua sendo a sororidade…

E é isso que preciso aprender.

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6 pensamentos sobre “Fachadas

  1. Maravilha de reflexão! O dia em que as pessoas não se incomodarem mais com quem você transa, acho que a humanidade terá dado um salto incrível rumo a sua evolução. Enquanto isso não acontece… A gente vai tendo de se equilibrar diante da ignorância alheia.

  2. Relaxa mulher, isso é algo típico dos coitados que precisam de um rótulo pra se comunicarem com o outro. Adoro o que vc escreve isso vc tem a preferância sexual do bom senso.

    • estive lendo suas últimas postagens também! Sim, somos humanos e a diferença é nossa primeira característica, embora queiram nos dizer que a semelhança o é. Saudades também, abraço!

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