“Tried so hard to keep myself from falling
Back into my bad old ways,
And it chars my heart to always hear you calling
Calling for the good old days.
Because there were no good old days:
These are the good old days.”

The Good Old Days – The Libertines

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Eu menti pra você

 

O que eu quero é minha boca em teu sexo

é rasgar tuas mentiras na minha voz

é ser teu homem, tua mulher

desfeita de cabelos, pelos e peitos

 

te procurar no mar de bares e bebidas

nos corpos dos teus homens

e no gosto de tuas mulheres

 

vem, que a casa é tua

 

Gê de Farias*

——

Porque tenho alunas e alunos formidáveis

Poesia de Outrem – Caio Vitor Lima

FARSA

Sou de tantos!
Entretanto
Não me vejo

Entre os risos
Os aplausos
Onde estou?

Em que boca se perdeu
O meu segredo?

Entre rostos conhecidos
Quem eu sou?

Sou de tantos!
No entanto
Eu me perco

Nos acordes
Que canção
Me traduziu?

Em que verso inacabado
Me padeço?

Que destino arbitrário
Me despiu?

Sou de tantos!
E entre tantos
Desconheço

Este rosto
Que o tempo
Esculpiu…

Caio Vitor Lima*

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*meu aluno, a quem ensinei quase nada.

Trilha Sonora da Casa – Postmodern Jukebox

Há um tempo, alguém postou um vídeo desses no facebook; me apaixonei pelas versões vintage das músicas pop que, muitas vezes, são tão rasteiras, né?

Mas ao adicionar arranjos de jazz e vocais bem trabalhados, a música ganha uma outra dimensão.

Para quem não conhecia, espero que gostem.

Link do site, para quem quiser conhecer melhor o projeto: http://www.postmodernjukebox.com/

Burn – Vintage ’60s Girl Group Ellie Goulding Cover with Flame-O-Phone 
Robyn Adele Anderson – vocal (centro)
Cristina Gatti – vocal (esquerda)
Ashley Stroud – vocal (direita)
Stefan Zeniuk – Saxofone “em chamas”
Adam Kubota – baixo
Allan Mednard – bateria
Scott Bradlee – piano

Aprendizagem

In Memorian Dona Lea, que me ensinou a ser gente

e dedicado a Seu Mané, que me ensinou o que é política

“Ter bondade é ter coragem”

Era uma manhã qualquer, com aquele calor usual da cidade dos Palmares. Um homem chegou a nosso portão, sujo e com uma cara que a sociedade nos ensina a temer. Minha mãe o atendeu. Eu lembro do olhar cabisbaixo dele; do boné de aba carcomida; dos dentes faltando. “Eu podia mentir”, ele disse, “mas vô dizer a verdade: sai da cadeia e tem dias que ando por aí e não como”. Estávamos sozinhas em casa, embora minha mãe acreditasse que aquele crucifixo cristão dizia que Cristo estava conosco também. O fato é que ela deu-lhe uma cadeira para sentar, fora de casa. Preparou-lhe comida e, enquanto ele comia, ela separou umas roupas que meu irmão não mais usava. Ele comeu, aceitou as roupas e se foi.

O que separa pessoas é o preconceito, não a moral

Criaram um grupo da Pastoral da Criança na igreja que frequentávamos. Minha mãe, claro, foi participar. Não deu muito tempo, arrumou briga: as “senhoras de família” queriam fazer festinha da criança, queriam arrecadar cestas básicas e dar para as crianças pobres que já frequentavam a igreja. Dona Lea se irritou. Mandou que elas criassem vergonha. Eu estava na barra da saia de minha mãe e a conhecia suficientemente para saber: ela estava irritadíssima. Ela, que nunca levantava a voz, tinha levantado o dedo e o apontado para o nariz das demais. “Cristo não andaria com a gente. Ele quando veio andou com mulheres excluídas da sociedade. E sábado a gente vai nos puteiros (palavrão, mamãe?) ver se as crianças estão matriculadas nas escolas; se estão vacinadas; se as mães sabem como evitar mais filho!”. No sábado, ela saiu pela manhã e foi a umas casas de prostituição sozinha, como era o esperado.

Mesmo estando ao lado de certas pessoas, você DEVE estar próxima a outras

Era Natal. A igreja estava repleta de luzes e se comemorava o primeiro natal na igreja “pronta”, visto que passaram anos arrecadando dinheiro para que a capelinha se tornasse um local mais “apropriado”. Bem, o fato é que as “senhoras de família” fizeram uma Árvore de Natal (que nada tem a ver com Cristo, nota) de papel e coloram na parede, com aquelas bolinhas que enfeitam – cujo nome nem lembro. Em cada bolinha, havia o nome das famílias que pagavam dízimo e tinham ajudado na construção do prédio da Igreja. O nome dos meus pais estava lá. Mas não deu outra: meu pai teve um acesso de fúria. Sabe aquele trecho bíblico em que Jesus entra no templo dando voadora e expulsando comerciantes? Pois bem, foi o mesmo que Seu Mané fez. Arrancou, sem piedade alguma, os adereços, lembrando àquelas mulheres que muita gente não pagava o dízimo porque não tinha como pagar; que tinha gente ali que passava fome! E que a igreja deveria ser um lugar de acolhida e não de segregação. É claro que meu pai ficou com fama de louco, da qual se orgulha.

Quer mudar o sistema? Comece por você

Eu não lembro se já comentei esse fato; é bem capaz, pois me marcou em demasia. Uma marcha Sem Terra passou numa rua perto da nossa casa. Para quem não sabe, meu pai era sindicalista rural no fim dos anos 60… Enfim, o fato é que ele foi acompanhar e daqui a pouco chega em casa com uma mulher, que carregava uma criança no colo e outra estava segurando em sua saia. Meu pai pede que eu vá fazer uma mamadeira de leite, o que eu fiz sem pestanejar. E fui entregar toda feliz, porque estava sendo caridosa, né? A inocência é tão afável, é um mundo tão bom: você é caridosa e pronto. Resolveu. Que nada! Quando a criança de colo chegou à metade, a mãe retirou a mamadeira dele e deu para o outro. Eu fiquei em choque. Ser caridosa resolvia um problema RASO de consciência, nada mais. Meu pai, vendo meu espanto, segredou: “eles não têm leite porque nós temos duas latas em casa”.

O sistema começa na gente pontofinal.

Fachadas

Perguntaram por aí se eu era Sapatão.

Fiquei tão preocupada… não comigo, mas com quem perguntou. Deve ser uma pessoa com uma vida muito tediosa para preocupar-se com quem transo. Até me lembrou aquela música do Caetano “Todo mundo quer saber com quem você se deita, nada pode prosperar”.

Também fiquei preocupada com a reação da pessoa a quem foi perguntada: “defendeu” minha heterossexualidade, como se fosse um problema ser “confundida”; como se existisse, de fato, uma separação entre mulheres com orientação sexual diversas. “Não, ela é casada. Muito bem casada com um homem”. Mais uma vez a sexualidade feminina definida pela presença de um homem. Sinceramente essa defesa me deixa mais irritada que a acusação.

O que eu digo é: depois de um tempo de estudo e de reflexão sobre o amor, cheguei à conclusão que devemos amar PESSOAS e não órgãos genitais.

Não é um homem, ou, ao menos, não deveria ser uma figura masculina que organiza, define, estrutura a vida de uma mulher. Que sejamos nosso próprio cerne, nossa própria força. Que nossas escolhas sejam realmente nossas e que não nos limitem. Que esse sentimento de “irremediável” que nos persegue se amedronte diante de nossa determinação.

Além disso, fiquei preocupada com outra coisa: será que esse pensamento se deu por eu falar tanto em feminismo? será que esta mulher que perguntou isso está tão sufocada pelo machismo que chegou à conclusão que apenas “sapatões” se interessam por liberdade e por direitos? o dever de ter um homem supre as necessidades femininas agora?

Só quero lembrar que não existe diferença moral entre mulheres gays e hétero; nem entre mulheres cis e trans.

Agora existe um abismo moral entre nós, que desconstruímos o preconceito, e gente preconceituosa.

Estou pensando aqui no que fazer… por mim, nada. Mas depois pensei: eu tenho força, tenho voz, tenho suporte de muitas pessoas… agora e se esse tipo de situação ocorre a uma pessoa fragilizada? acontece a uma mulher que está em uma situação em que “quem ela é” não está sendo respeitado?

E como nada é apenas “sim” ou “não”, vem o lado dessa mulher que fez a pergunta: ela também é vítima do machismo; está numa posição de opressão tão grande, que sequer consegue vislumbrar que seu comportamento também limita a ela! A parte mais difícil do feminismo ainda continua sendo a sororidade…

E é isso que preciso aprender.