A Primeira Televisão de Meu Pai

O texto a seguir não é meu. É de meu irmão mais velho, Historiador e Poeta, Vilmar Carvalho. Não esquecendo como era a realidade do poder aquisitivo na década de 70, talvez possamos fazer algo de melhor para o nosso presente.

A PRIMEIRA TELEVISÃO DE MEU PAI

A primeira televisão, ninguém esquecia. Especialmente, quando era época de Copa do Mundo. Hoje, comprá-las é corriqueiro, rompe as fronteiras do poder aquisitivo e das classes sociais. Todas as letras do alfabeto compram televisores: das classes “A” a “Z”, modelos para todos os preços e satisfação. São fininhas, ultrafininhas, ledizadas, elecedizadas, plasmáticas, slim – a quase sem tubo de imagem – e isso e aquilo, entre polegadas e dimensões que vão do celular às telonas de uma sala com ares de cinema particular, em casa, para a solidão e reclusão doméstica. A torcida “pós-moderna” de um, no máximo três telespectadores, condenando com retórica soberba as multidões que vão à insegurança dos estádios de futebol.

Voltando à primeira televisão, ela apareceu na minha vida aos sete anos. Exatamente em 1970. No começo daquele janeiro, meu Pai me levou – filho mais velho de uma reca de cinco pimpolhos – numa viagem inesquecível: sair da Cohab de Ribeirão para comprar um televisor em Palmares. Viagem feita de Rural 62, verde e branca, portas de lona escura, sem cinto de segurança, sem pressa, sem Polícia Rodoviária, sem sinais de trânsito, com parada em posto de gasolina para comprar cerveja e uma laranjada…

– Ei, moça, meu Pai vai comprar um televisor! Informei à garçonete…
Respondeu, a invejosa: – Me chama que vou querer assistir à Copa!

Meu Pai tinha sido vítima dessa inveja. No caso da Apolo 11, um ano antes, em 1969, havia uma só TV em todo o imenso quarteirão de casas da Cohab. Um afortunado funcionário federal possuía o primeiro aparelho daquele bairro. Aliás, foi ali que vi pela primeira vez a caixa que falava e mostrava gente e coisas como se fosse um cinema. Depois, exatamente ali, mil duzentos e trinta e cinco moleques das redondezas foram proibidos de encostar na janela do funcionário, para assistir Nacional Kid e suas peripécias.

Lembro que a compra em Palmares foi demorada. Assinar promissórias, demonstrar capacidade de pagar, reconhecer firma, palestrar e palestrar, pedir descontos, chamar o gerente, o dono da loja, as testemunhas e… finalmente embalar a encomenda: não tinha caixa de papelão, o ABC, a TV Canarinho, ícone bem amarelo contra a cor verniz de madeira e a tela escura ovalada; os botões de sintonia, volume e seletor em dorso branco, numerados como se pintados à mão, foi de saco de pano, mesmo! Um saco comprado ali na feira do mercado. Hoje, isso tudo seria ridículo. Mas, lembro, os olhos do meu Pai brilhavam de conquista e os meus de pura ansiedade.

Voltamos logo. Lembro que a antena espinha-de-peixe e fios foram amarrados à rural, na companhia de um pedaço de cano que lumiava ao sol de começo da tarde. Voltamos e, finalmente, entendi minha missão: ir para o banco de madeira da carroceria e segurar aquele tesouro. Segurar firme a cada curva e marcha reduzida do motor. Alma mecânica que parecia também ansiosa, numa rotação diferente, alternada entre velocidades e euforia.

Chegando em casa, foi festa. Minha mãe botou roupa de domingo. Minhas irmãs esqueceram as bonecas. Meu irmão, ainda amuado, sem a viagem a Palmares, convidara os mil duzentos e trinta e três moleques sem televisão em casa. Éramos educados no socialismo, não havia porque negar. Foi assim durante toda a Copa de 1970, até à grande final, os móveis fora da sala. Na janela, uma pequena multidão. Meu Pai realizado, defendendo que um dia todos teriam um televisor em casa.

Durante meses, meu Pai ficou sem tostões. Investiu muito na TV; mas, todos os meninos da rua, naquele ano, puderam ser Tostão, o inseparável amigo de Pelé e Rivelino.

Vilmar Carvalho

Ao ler o texto, lembrei dessa foto, onde Moradores de uma comunidade do Piauí, viram pela vez primeira uma transmissão de TV, em 1993.

Ao ler o texto, lembrei dessa foto, na qual moradores de uma comunidade do Piauí, viram pela vez primeira uma transmissão de TV, em 1993.

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4 pensamentos sobre “A Primeira Televisão de Meu Pai

  1. Bonito e bem escrito texto. Deu pra sentir o sentimento daquela criança nas bem escritas palavras, quando fala da “inveja” da garçonete e da satisfação e alegria das 1233 crianças felizes ao socializarem, junto com a família, uma tv para ver a Copa de 1970. Alegria verdadeira, que se socializa, que não se restringe. Importante capítulo de sua vida, que ele, numa bela crônica, compartilha conosco.

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