Sobrevivência

Finalmente escrevo algumas reflexões que fiz em Oito de março.

Sobrevivemos a Oito de março.

Sim, porque a violência contra nós, apenas por sermos mulheres, foi, é, e continuará sendo por um tempo (espero que em um “tempo a mais” acabe!), infelizmente, tão forte que é uma vitória sobreviver. Sim, estou sobrevivendo porque procuro não andar sozinha, porque tive uma mãe que me educou a pular fora ao primeiro sinal de machismo, porque tive acesso muito cedo a livros (a grande maioria escritos por homens e para homens!) e não à ideia de que mulheres e tarefas domésticas são sinônimas, porque ganhei na loteria um companheiro “feminist friendly”.

Mas não vou comemorar por esses acasos do destino e pelos privilégios. Porque a purulência da cultura, do “normal”, do comum está aí. E quando uma mulher é morta pelo machismo, nós, feministas, devemos sentir na carne isso e não esquecer e, ainda mais, até sermos chatas mesmo, radicais mesmo, e lembramos que uma vida se foi… E o idiota ali, dizendo que “radicalismos de ambas as partes é errado”. Errado é confundir a nossa reação a esta sociedade (que nos mata, estupra, aprisiona, diminui) com a forma que ela nos trata. Se for pra falar senso comum, filho, melhor calar a boca.

Aí vem o Oito de março e as distorções everywhere.

Se sobreviver é difícil, conviver é quase impossível.

Primeiro vêm o marketing e as lojas, fazendo promoções de 8% em cima de produtos fúteis. Sim, porque a definição de mulher para o capitalismo é futilidade. Não vi livros feministas ou de assuntos diversos com esses descontos. Não vi carros com esses descontos. Não vi computadores nem jogos. Nem mesmo ventiladores ou sofás. Agora panelas… Não vi nada que me causasse o mínimo de interesse. Por quê? Não sou mulher? Já lingeries e make-ups para ficarmos lindas para nossos homens (sim, para o capitalismo toda mulher é hétero) têm de sobra. Roupas? Ah, compre a nova coleção… Sapatos? Seja mais uma centopeia e esqueça que quanto mais você tem, mais você polui o mundo e promove a desigualdade social. Não acredito em feminismo que não pense em outros problemas sociais. Não mesmo.

Ainda dentro dessa lógica do Capital, aparecem textinhos fofuxos sobre a “supermulher”… sim, porque nós somos multifuncionais!!! Nós acordamos cedo, com um super-humor para nos embelezarmos, cuidarmos do maridão e da pirralhada, sermos uma profissional nota 10, tudo isso em um salto 10 cm, trocado por um tênis na hora da academia. Mas lembre-se: não ande com a calça que usou na academia por aí… A consciência moral de alguns homens é frágil em demasia e eles se tornam tarados loucões quando veem o corpo de uma mulher delineado. Vai entender a mediocridade de alguns machos, né?

Daí a questão que me faço é: a quem serve essa história de supermulher? A um monte de gente, menos a nós! O que vejo são mulheres sem tempo para conhecer a elas mesmas; conhecer o mundo; conhecer livros; conhecer jogos e outras formas de diversão; conhecer outras mulheres, sim, porque juntas nos apoiamos; trocamos ideias; aprendemos que o modelo atual de casamento e de maternidade é uma prisão; e é possível amar o companheiro ou a companheira e filhos e filhas de outra maneira; vamos reinventar a maternidade e o casamento, é possível! aprendemos que aquela forma de suportar o chefe é errada – que aquilo que ele faz é assédio e não deve ser aturado!… Crescemos juntas. Mas nos querem na cozinha, submissas ao chefe ou com o direito de gastarmos nosso dinheiro para entrarmos em padrões estéticos. Isso é tão ridículo que enoja. E é tão na cara que dá preguiça de escrever sobre, mas vamos lá, por que, né? Tá difícil entender.

Aí nos vêm os lindos machistinhas, uns fofos, com flores e chocolates. Nos desejando um feliz dia. Oh, que meigo! Pergunto-me se eles têm a noção de que essa data remete a lutas por direito ao trabalho e ao voto? Machistinhas, peguem suas flores, seus chocolates, seus desejos de um feliz dia e… bem. Porque nós, mulheres, “nunca poderemos esquecer, nem devemos perdoar”, afinal mortes e opressão nos perseguem até 2014.

Se não concorda, ora, basta ficar do lado de lá. É melhor.

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3 pensamentos sobre “Sobrevivência

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