Mãos d´Alma

 Escrevi esse texto em 2002, poucos meses depois de conhecer meu companheiro. Eu sempre o achei muito “doce”. Mas fiquei surpresa ao perguntar-lhe qual dos meus textos ele mais gostava; e foi deste que ele lembrou. Talvez seja uma doce verdade.

Ela na rede.

Entrei tentando desviar o olhar, enquanto vinham-me à boca apenas cantadas baratas, dessas de esquinas. Mas ela não era garota de esquinas: não me esperava com a face temerosa – seu acaso eu não viesse, ela continuaria calma, sabia de seu poder, de meu frenesi. A sala vazia pesava como seus olhos vazios pesaram no dia em que nos conhecemos. Vazio: a fonte do mistério, como meu violão que, vazio, faz ecoar em mim o que sou, o que tenho – deveria cantar-lhe uma canção triste e bela, como seu sorriso. Ela não era de esquinas: curvas moldavam a rede, seu peso deveria ser de plumas… ela, a pluma.

Conheci-a na noite. Pluma Negra de sangre vermelho, de vinho entornado na calçada, de pernas lisas e brancas à mostra. Ela, o vento curvo, o tempo curvo fazendo-me curvar sobre minha carapaça. Eu, a mão noctâmbula, inerte, água de represa. Suas ancas bailavam, plumas hipnotizantes; o corte de seu vestido deixando ver suas formas suaves e tensas, tesas. Epifania.  A reconheci de imediato: o amor nunca trafegado saltara a meus olhos; o destino nunca crido fizera ondulações, mostrava-se ali num canto de olho borrado… O suor, nossas maquilagens cederam, seus olhos negros, mais negros pelo lápis que os retocava, os excedia.

Um toque no ombro. Sua amiga acordara-me das lembranças. Voltei à sala vazia, de onde até então apenas vislumbrava aquelas formas, aquela pele proposta a ser minha transcendência. Minha mão ao tocá-la, ao tecê-la, ao senti-la, tornaram-se almas fugidias, de cor sem reflexo, de textura sem peso. O afago guarda horizontes inapreensíveis aos que o veem.  Quem o sente, entretanto, desiste da morbidez sem nexo. O véu do tédio cobria-nos decerto, contudo nossas mãos minuciosas, precisas, mãos de anjos descobriam nossos corpos à meia luz. E olha que não era raro mãos cederem a nossas entregas sem jeito, sem grado, sem balança: por vezes o afago é gratuito, desatento, corpóreo num tom extremo, tão externo, sem gosto de algodão-doce que nossa alma tem. Isso! Era preciso ir a seu ouvido e dizer isso. Ela, na rede, dormia. A varanda, o vento intenso, a respiração compassada daquele ser tão fragilmente revelado, entregue ao mundo. Eram minhas mãos necessárias à sua proteção, era preciso pô-la entre meus dedos, aconchegando suas formas exatas, aquecendo seu tecido vivo! Sim, ela nua entre minhas mãos.

Por enquanto era, na rede, coberta, que velava. Aproximei-me e não pude conter minhas mãos que se embrearam entre seus cabelos de seda feitos, cada cacho sendo um complexo de raízes profundas numa nuca-mundo. Acordaram seus olhos, duas rosas despertas, nascendo para mim naquele sorriso incerto, imergindo em mim. É preciso mesmo protegê-la? Dela, nada me protege. Eu aberto, recebendo aquele olhar triste e belo, aquele sorriso triste e belo. O peso de sua vida acomodando-se em meu ombro, eu recebendo a pluma. Nossas mãos entrelaçaram-se, nossas bocas se acasalaram febrilmente. O sábado passado estava prolongado, predestinado a um eterno afago. Nós, não mais homem e mulher; nós, não mais nós como antes. Nós, o agora. Nós, o momento despido de sua efemeridade.

Ela, da rede, enquanto escrevo, me sorri tristemente.

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