Trilha Sonora da Casa – Gonzaguinha

Essa semana foi de reencontro.

Minha infância foi intelectualmente lúdica. Explico: brincar com livros enquanto tropeçava em músicas, sempre me imaginando bailarina. O que sou é pouco esforço meu: ter uma biblioteca, pais politizados, irmãos já na época da faculdade…

Hoje a bailarina dança apenas no coração. Porque eu gosto mesmo de gente e de aprender: então ser professora era a opção mais fácil. E essa semana, porque de um aluno, eu reencontrei aquela criança em músicas do Gonzaguinha. Fazia um tempinho que não ouvia.

Que surpresa: nessa mulher ainda está aquela menina, se deslumbrando com o mundo.

Obrigada, Caio.

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Ode II

Não, não esperes em um outro corpo a resolução minúscula do mundo…
Perto, o cego se lamenta
Fustigando o chão com a bengala e chocalhando a caneca contra o céu,
Mas se ele amasse a treva como nós a amamos, nós que não a temos,
Nós que buscamos em outro, em um outro, que é sempre treva para nós,
A inapreensível luz da vida,
Então ccomo ele dançaria em pela rua, como um pião vertiginoso,
Golpeando com a vara todos os rostos que jamais terá o desgosto de ver.

… Mas ele sabe que treva é treva.

Alexei Bueno. A Via Estreita.

Despedida

Agora, confusa.

Você se foi há muito, me engano muda. E ainda sorrio, afinal quem precisa de verdades? A ficção é doce, que nem chá de maçã morno quando venta frio. Você se foi porque nunca veio como eu esperava. Eu queria, sim, ser salva, ser um desses romances açucarados: a própria bianca. A própria sabrina.

Que merda estou dizendo? penso depois.

Agora você se vai, alegando que vai porque quer. Mas você nunca veio, eu me repito; dessa vez em voz alta e você me repreende porque não posso pertubar teus silêncios. Minha voz te aflige. Então, por que esperavas um abraço de despedida?

Uma vez foi como na música: você me disse que havia encontrado uma garota com pensamentos profundos sobre o mundo e os seres em geral. E apenas eu sangrava. E ainda sangro. Só que este  corte nunca foi suficientemente profundo para você.

Agora, que a realidade se refaz num avião que decola, eu entendo o que é permanecer.

Virgínia Celeste Carvalho

Trilha Sonora da Casa – Coldplay

 

Hoje volto à sala de aula. Rever alunas e alunos, destribuir abraços, conhecer calouros. Sempre a mesma coisa: choram com os prazos, se chateam quando você reclama do barulho ou de quando você convida para sair da sala (sou dessas), ficam ansiosos com as avaliações… mas depois estão lá, reconhecendo seu trabalho, pedindo para que você seja a professora naquele semestre também. Eu os amo um bocado, eles sabem e se aproveitam.

Separando as músicas que trabalharei nas aulas de Inglês, lembrei de Speed of Sound. Se eu dissesse que sou fã do Coldplay estaria mentindo, afinal não conheço toda discografia e acho algumas canções mais ou menos. Mas esta música em específico, cara, sei não. Eu me sinto dopada, drogada; tenho vontade de abrir os braços – como o Chris Martin faz – e cantar.

Na verdade, minto: não sinto vontade, eu faço.

Mãos d´Alma

 Escrevi esse texto em 2002, poucos meses depois de conhecer meu companheiro. Eu sempre o achei muito “doce”. Mas fiquei surpresa ao perguntar-lhe qual dos meus textos ele mais gostava; e foi deste que ele lembrou. Talvez seja uma doce verdade.

Ela na rede.

Entrei tentando desviar o olhar, enquanto vinham-me à boca apenas cantadas baratas, dessas de esquinas. Mas ela não era garota de esquinas: não me esperava com a face temerosa – seu acaso eu não viesse, ela continuaria calma, sabia de seu poder, de meu frenesi. A sala vazia pesava como seus olhos vazios pesaram no dia em que nos conhecemos. Vazio: a fonte do mistério, como meu violão que, vazio, faz ecoar em mim o que sou, o que tenho – deveria cantar-lhe uma canção triste e bela, como seu sorriso. Ela não era de esquinas: curvas moldavam a rede, seu peso deveria ser de plumas… ela, a pluma.

Conheci-a na noite. Pluma Negra de sangre vermelho, de vinho entornado na calçada, de pernas lisas e brancas à mostra. Ela, o vento curvo, o tempo curvo fazendo-me curvar sobre minha carapaça. Eu, a mão noctâmbula, inerte, água de represa. Suas ancas bailavam, plumas hipnotizantes; o corte de seu vestido deixando ver suas formas suaves e tensas, tesas. Epifania.  A reconheci de imediato: o amor nunca trafegado saltara a meus olhos; o destino nunca crido fizera ondulações, mostrava-se ali num canto de olho borrado… O suor, nossas maquilagens cederam, seus olhos negros, mais negros pelo lápis que os retocava, os excedia.

Um toque no ombro. Sua amiga acordara-me das lembranças. Voltei à sala vazia, de onde até então apenas vislumbrava aquelas formas, aquela pele proposta a ser minha transcendência. Minha mão ao tocá-la, ao tecê-la, ao senti-la, tornaram-se almas fugidias, de cor sem reflexo, de textura sem peso. O afago guarda horizontes inapreensíveis aos que o veem.  Quem o sente, entretanto, desiste da morbidez sem nexo. O véu do tédio cobria-nos decerto, contudo nossas mãos minuciosas, precisas, mãos de anjos descobriam nossos corpos à meia luz. E olha que não era raro mãos cederem a nossas entregas sem jeito, sem grado, sem balança: por vezes o afago é gratuito, desatento, corpóreo num tom extremo, tão externo, sem gosto de algodão-doce que nossa alma tem. Isso! Era preciso ir a seu ouvido e dizer isso. Ela, na rede, dormia. A varanda, o vento intenso, a respiração compassada daquele ser tão fragilmente revelado, entregue ao mundo. Eram minhas mãos necessárias à sua proteção, era preciso pô-la entre meus dedos, aconchegando suas formas exatas, aquecendo seu tecido vivo! Sim, ela nua entre minhas mãos.

Por enquanto era, na rede, coberta, que velava. Aproximei-me e não pude conter minhas mãos que se embrearam entre seus cabelos de seda feitos, cada cacho sendo um complexo de raízes profundas numa nuca-mundo. Acordaram seus olhos, duas rosas despertas, nascendo para mim naquele sorriso incerto, imergindo em mim. É preciso mesmo protegê-la? Dela, nada me protege. Eu aberto, recebendo aquele olhar triste e belo, aquele sorriso triste e belo. O peso de sua vida acomodando-se em meu ombro, eu recebendo a pluma. Nossas mãos entrelaçaram-se, nossas bocas se acasalaram febrilmente. O sábado passado estava prolongado, predestinado a um eterno afago. Nós, não mais homem e mulher; nós, não mais nós como antes. Nós, o agora. Nós, o momento despido de sua efemeridade.

Ela, da rede, enquanto escrevo, me sorri tristemente.