Do que não consigo escrever

Olho para o cursor: ele tirita, lembrando-me de que um texto não aparecerá na tela se eu não dispuser meus dedos no teclado e os fizer trabalhar. Barney pula no meu colo; pelo menos meus gatos sabem que não suporto solidão.

Dou reload na página: a internet ainda não voltou. Não podia ser diferente, o dia passou como animação dos anos 30, como se estivéssemos desenhados em folhas e alguém as dedilhasse. Tanto faz: estamos separados ao final.

Ontem, ela me perguntou o que eu sentia. Ela sempre precisa etiquetar, enumerar, pesar, medir e, o que mais me atormenta, nomear. Em busca do que dizer, olho as pessoas ao redor: todas têm a mesma face. Depois julgo que as ver assim é egoísmo meu. Todas têm um cursor trêmulo à frente, à espera de que algo novo seja digitado; talvez só não o enxerguem. Ela chamou minha atenção e eu não tinha resposta. Talvez nunca tenha.

Acho que sinto fome, eu tentei dizer. Igual a do cursor: não me interessa quantas páginas já foram escritas, tremulo. E, tremendo, expando o que percebo. Curvo o mundo à minha palavra, me iludo. Egoísta é você, penso, como se ela me tivesse chamado de. Mas não falo, por lembrar que essa foi minha, e só minha, conclusão.

Você deveria ter as palavras certas; ela não me diz, mas certamente é o que pensa.

Eu nunca tenho palavras, na verdade.

São elas que me têm.

Virgínia Celeste Carvalho

Onze Anos

Primeiro um poema. E neste link, o poema cantado para quem quiser ouvir.

 

Amor de índio – Beto Guedes

 

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas com todo o cuidado, meu amor.

 

Enquanto a chama arder, todo dia te ver passar

Tudo, viver a teu lado

Com o arco da promessa

No azul pintado pra durar.

 

Abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou;

A estrela caiu do céu, o pedido que se pensou;

O destino que se cumpriu de sentir seu calor e ser todo,

Todo dia é de viver para ser o que for e ser tudo.

 

Sim, todo amor é sagrado

E o fruto do trabalho é mais que sagrado, meu amor.

A massa que faz o pão vale a luz do seu suor

Lembra que o sono é sagrado

E alimenta de horizontes

O tempo acordado de viver.

 

No inverno te proteger, no verão sair pra pescar

No outono te conhecer, primavera poder gostar.

No estio me derreter pra na chuva dançar e andar junto.

O destino que se cumpriu de sentir seu calor e ser todo.

 

Depois minhas palavras:

Nesse dia, quando comemoramos onze anos juntos, quero dizer que tanta coisa mudou. Mudou porque se move; porque somos humanos e, se pararmos, adoecemos. Estou feliz porque mudamos na mesma sintonia.

Não que seja fácil, mas também não é nada difícil. É que é uma dificuldade que me parece tão natural, sei lá, como dar os primeiros passos, como desabituar do seio materno, que eu não enxergo a escolha de permanecermos lado a lado como um obstáculo ou uma quest épica. “E era simples, ficamos fortes”, diz outra música que tanto gosto.

Acho que você me reconquistou diversas vezes. Algumas talvez sem nem perceber, como quando alguém falava que a “mulher teria sido feita da costela de Adão, não para estar abaixo ou atrás dele, mas ao lado” – como se essa frase fosse bonita – e você disse “e por que não sou eu ao estar ao lado dela?”. Lembro que pensei: mais dez anos de amor garantidos.

O que eu quero te dizer hoje é aquilo que te disse há 11 anos: “vamos ficar e a gente vê no que dá”. Porque eu quero ficar hoje, te amar hoje, rir contigo hoje; até mesmo chorar, se for inevitável. Acho que ter um casamento legal é isso: encontrar alguém com quem você possa rir da maioria das coisas e chorar só quando for impossível não o fazer.

Feliz onze anos, Kirlian Silvestre. Que venham mais outros tantos anos.

Trilha Sonora da Casa – Dream Theater

Às vezes eu acho curioso quando chego a primeira vez em uma turma. Alunos sempre te perguntam coisas que outras pessoas até queriam perguntar, mas não o fazem. “Professora, a senhora é roqueira?” é a pergunta mais usual. Como respondo “Não apenas” (porque não tenho resposta para isso), então lá vem outra pergunta sem resposta “Por que a senhora usa tanto preto?”.

O curioso disso é o quanto as pessoas precisam te definir. Te enquadrar. E quanto as pessoas conhecem apenas parte de você: tenho certeza de que alguns amigos nunca me viram como roqueira, visto que me conhecem ouvindo bandinhas indies, dançando britsh pop e cantarolando MPB.

O fato é que sou Virgínia e acordei ao meio dia deste primeiro dia de 2014 com vontade de ouvir Dream Theater. De início era vontade só de Panic Attack, mas fui remexendo em vídeos de youtube até encontrar esse show.

Perfeição existe.

Não é metal pra bater cabeça, pra ficar gritando histericamente ou nada do tipo: é pra ouvir e, principalmente, ver. As mãos de John Petrucci são qualquer coisa de… nem vou comentar porque essa é uma Casa de respeito!

Pena o Portnoy ter saído da banda; ele é o segundo melhor baterista em minha singela opinião (afinal Neil Peart tá vivo e lindo!).

Sei que eu não consegui escrever uma linha sequer do que planejava assistindo a esse show. Espero que gostem.