Sobre Aniversário e Ensino

Ontem foi meu aniversário.

Sou dessas que não espero surpresas – marco logo com as pessoas mais próximas alguma coisa. Aniversariar na terça é um saco, porque não gosto de comemorar antecipadamente tampouco dá para esperar o próximo fim de semana, afinal fica muito distante. Então só um almoço com amigos e amigas e pronto.

Pronto? Meu presente maior estaria por vir.

Alguns devem pensar que é chato trabalhar no dia do aniversário, não é? Eu fui. Podia ter mandado as provas de 2ª chamada e pedido para o coordenador aplicar. Podia, mas não fiz. Isso porque também havia a defesa de TCC de três alunas e um aluno que são muito próximos a mim. Eu não estava na banca – e nem poderia, afinal sentei e discuti com eles alguns pontos dos trabalhos.

Os três trabalhos estavam ótimos, a meu ver. O primeiro sobre a relação entre a situação econômica do ensino e a valorização das variantes linguísticas do Nordeste foi o que mais me chamou a atenção em nível de tema, afinal tinha essa percepção marxista da infraestrutura econômica e como isso está numa relação dialética dos conteúdos e práticas do ensino de Língua Portuguesa. O segundo era um relato apaixonado de como trabalhar um gênero textual, por vezes visto como arcaico, a fábula, mudou, em um estudo de caso, a realidade do ensino de Língua Portuguesa em uma turma de escola pública. Ver duas alunas exporem com tanta paixão e tanta competência os assuntos estudados, putz, foi um presente e tanto. O terceiro trabalho, que foi apresentado em dupla por uma aluna e um aluno. Disseram que foi perfeito. Deram 10 ao trabalho escrito; deram 10 à apresentação. Tudo conforme a ABNT, tudo dentro das normas gramaticais, como um texto científico deve ser. Mas não é disso que eu quero falar. Também não é do tema: como utilizar o gênero História em Quadrinhos em sala de aula; nem da coerência entre teoria linguística dos gêneros e as novas concepções do ensino de Língua. Porque isso já era o esperado deles e das outras apresentações.

Também não quero falar dos agradecimentos que recebi. As 3 apresentações me agradeceram, porque eu oriento à meia noite pelo facebook; porque eu corrijo tudo; porque eu orientei a parte teórica sem que isso fosse meu papel. Ganhei HQ de poemas de Fernando Pessoa; ganhei uma caneca com a foto dos alunos (para eu não me esquecer deles! Uns abusados); abraços, fotos. Embora isso seja importante, afinal ter reconhecimento de alunos e alunas é o mais importante para uma professora.

Mas o que eu quero falar hoje é da cerne da educação. Do ensino. Do que é ensinar. Eu não acredito em prova; eu não acredito na sala de aula como é hoje. Eu acredito em a gente sentar, estar junto, conversar sobre, ampliar leituras e trocar pontos de vista; e abraçar também, não ficar enfiado em sala de professor, fugindo de aluno. E o mais curioso, quando cheguei em casa pensando nisso, um amigo tinha me deixado um recado sobre a gente tentar não estagnar. E isso tinha tudo a ver com o sentimento que se formou em mim quando a dupla se apresentou.

Eles citaram com muita propriedade o Professor Marcuschi, que foi meu professor de Linguística 3 há uns, sei lá, 9 anos, e que é um dos, ou o maior, linguista do Brasil. E naquele momento eu percebi que um bom professor não estagna, nunca. Como eu disse no facebook, sequer corre o risco. Porque eu sei que meu querido professor está em mim, não apenas nos conteúdos que aprendi, mas na minha prática. E isso é tão forte que ele estava ali também, no discurso dos meus alunos, sem que eles soubessem. Era a mim que eles agradeciam, mas, na verdade, os aplausos iam a toda uma geração de bons educadores que vêm nos formando.

Afinal, com quem aprendi corrigir até o mais ínfimo detalhe em um trabalho, senão com a Professora Maria Piedade Sá (in Memorian)? E quem sentava comigo para discutir detalhes minuciosos de meus textos, senão Professor Anco Márcio Tenório Vieira? Sem falar que este atendia telefone no domingo, emprestava $$… Quem me ensinou a chamar a atenção dos alunos recitando poemas no meio da aula, senão Lucila Nogueira? Quem me ensinou que é preciso ler textos teóricos difíceis, porque são eles que te levam ao conhecimento, senão Professora Sônia Ramalho, Professora Dóris Arruda e Professor Aldo de Lima?

E, por fim, quem sorria e parecia que todos os problemas iam se resolver? Quem dava mais importância ao processo de aprendizagem do que às notas apressadas? Quem te deixava apresentar os banners em cartolina porque você não tinha dinheiro para imprimir na gráfica? Não quero pensar nele como o maior linguista do Brasil, porque muita gente pensa assim. Quero pensar como o imenso professor que, junto aos demais, me formou. E que eu vi ali em meus alunos.

Amo todo meu oitavo período que se formou, mas pelo que vocês me fizeram sentir ontem, quero agradecer em especial a vocês, Edilayne, Ana Cláudia, Suégila e Diego. ❤

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4 pensamentos sobre “Sobre Aniversário e Ensino

  1. Nossa, teu texto me balançou, porque mesmo numa data digamos festiva e só tua, notei que as honras e méritos foram para os teus eternos professores e para os teus alunos recém-formados.
    Sábio é aquele que honra o futuro sem esquecer do seu passado e acredito que neste texto eu notei isso, em cada detalhe.
    Mesmo não te conhecendo, te desejo muitas felicidades e sucesso nos teus objetivos. Que eles nunca se estagnem.
    Felicidades!

    • obrigada. hoje nem vejo minha vida sem meus alunos.

      e conhecer o outro é algo tão relativo, não é? às vezes quem lê meus textos chegam a me conhecer mais do que convive… 🙂

      obrigada por ler!

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