2014

Não quero nos desejar um ano melhor. Quero que sejamos melhores para esse novo ano.

Eu nem tenho essa necessidade de finais/ começos de coisas: fui à minha formatura obrigada, não fui assinar papeis de casamento, não gosto de festas de despedidas e não faço questão de réveillons: não entendo a vida em ciclos. Vejo nossos passos como um emaranhado de linhas e a morte, bem, ela é o arremate final.

2013 foi um ano bom: se eu ainda tinha alguma dúvida de que nasci para ensinar, essa se desfez. Adoro alunos e alunas me procurando nos corredores; pessoas desesperadas te procurando no facebook para ter orientação sobre algum assunto; pessoas que acreditam que o que você fala é verdade – quando você sequer acredita que a verdade exista. E eu digo isso a eles: o quanto vemos através de espelhos essa realidade que nos escapa!

Ser professora alimenta meu ego.

Também muita coisa fez sentido palpável: em junho, em nossas manifestações roubadas por Coxinhas (vade retro!), parei para pensar no que entendo sobre justiça social. Em meio àqueles gritos dispersos de protestos sem noção política alguma, lembrava muito de meu pai e de quando este me dizia que, se faltava leite para uma família era porque tínhamos sobrando em casa. O resto é mimimi. E esse mimimi de classe média já deu!

Daí hoje vieram me desejar mais dinheiro e mais tantas-coisas-que-eu-já-tenho-que-não-podia-ter-mais. Fora a saúde, estou dispensando o resto, por mais bem intencionado que os outros desejos sejam, eu estou passando a frente.

A gente sempre se convence de que precisa mais do que já tem, já dizia mais ou menos Renato Russo na música Índios. Por isso, não me desejem dinheiro: o que eu tenho dá para ter casa, comida, cuidar dos meus animais, pagar uma boa internet e ainda me dá luxos de comprar coisinhas nerds de vez em quando. Isso já é mais do que muita gente tem. Não quero mais. Obrigada.

Felicidade? Gente, desejem felicidade para quem não tem teto, para quem não tem trabalho, para quem não tem chance, para quem não tem comida. Eu serei bem mais feliz quando passar e não ver gente na rua, no frio, ao relento.

Alguém me desejou mais livros para ler… Esses dois anos que passei longe da academia, me fizeram ver tantas coisas novas. Coisas que os livros não dizem. Coisas que os livros não suportam. Coisas que se assemelham apenas ao ato de sangrar: é preciso sentir, nenhuma mimese funciona.

Que em 2014 esta Casa continue em pé, mesmo com a morte a pôr umidade da parede e cabelos brancos nos homens, como diria Fernando Pessoa.

Trilha Sonora da Casa – Beto Guedes

Uma aluna perguntou dia desses porque só escuto música estrangeira. Não seria mentira se ela tivesse trocado o “só” pelo “mais”… O fato é que escuto muita música e a maioria sim, é inglês. Só que eu amo MPB e, sinceramente, acho que as letras mais fodas são em Português.

Só que eu acho triste a compreensão das Letras que as pessoas fazem: mostra a má qualidade do ensino na formação de leitores. Lembro do Renato Russo reclamando porque as pessoas faziam festa ao ouvir “Pais e Filhos”, que é uma música sobre suicídio e relações familiares difíceis, e todo mundo lá cantando, como se fosse, sei lá, música de autoajuda. Acho que é culpa do refrão chiclete. Também tem o lance egoísta de não gostar de ver uma música que amo sendo cantada por muita gente. Puro elitismo indie.

Enfim, segue essa música que eu amo. Uma letra foda e com uma mensagem extremamente política. Daí você vai procurar vídeos para postar, só encontra com imagens um tanto romantizadas. “Vamos precisar de todo mundo pra banir do mundo a opressão”, isso para mim é política.

bem, segue a letra… peço que leiam. é linda.

O Sal da Terra

Anda, quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão da nossa casa, vem que tá na hora de arrumar.
Tempo, quero viver mais duzentos anos
Quero não ferir meu semelhante, nem por isso quero me ferir.
Vamos precisar de todo mundo pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova, vamos precisar de muito amor
A felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver,

A paz na Terra, amor, o pé na terra
A paz na Terra, amor, o sal da…

Terra, és o mais bonito dos planetas
Tão te maltratando por dinheiro, tu que és a nave nossa irmã,
Canta, leva tua vida em harmonia
E nos alimenta com teus frutos, tu que és do homem a maçã,
Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças, é só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois

Deixa nascer o amor
Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor
Deixa viver o amor

O sal da Terra
Terra…

Left alone with…

Left alone with Marx and Engels for a while
She’s writing in the style
Of any riot girl.

Belle & Sebastian. Marx and Engels.

Me deixaram ler Marx aos 13. Agora me pedem para comparecer a troca-troca de presentes no natal? No way.

Hermandad

Soy hombre: duro poco

Y es enorme la noche.

Pero miro hacia arriba:

Las estrellas escriben.

Sin entender compreendo:

También soy escritura

Y en este mismo instante

Alguien me deletrea.

Octavio Paz, poemas reunidos.

Sobre Aniversário e Ensino

Ontem foi meu aniversário.

Sou dessas que não espero surpresas – marco logo com as pessoas mais próximas alguma coisa. Aniversariar na terça é um saco, porque não gosto de comemorar antecipadamente tampouco dá para esperar o próximo fim de semana, afinal fica muito distante. Então só um almoço com amigos e amigas e pronto.

Pronto? Meu presente maior estaria por vir.

Alguns devem pensar que é chato trabalhar no dia do aniversário, não é? Eu fui. Podia ter mandado as provas de 2ª chamada e pedido para o coordenador aplicar. Podia, mas não fiz. Isso porque também havia a defesa de TCC de três alunas e um aluno que são muito próximos a mim. Eu não estava na banca – e nem poderia, afinal sentei e discuti com eles alguns pontos dos trabalhos.

Os três trabalhos estavam ótimos, a meu ver. O primeiro sobre a relação entre a situação econômica do ensino e a valorização das variantes linguísticas do Nordeste foi o que mais me chamou a atenção em nível de tema, afinal tinha essa percepção marxista da infraestrutura econômica e como isso está numa relação dialética dos conteúdos e práticas do ensino de Língua Portuguesa. O segundo era um relato apaixonado de como trabalhar um gênero textual, por vezes visto como arcaico, a fábula, mudou, em um estudo de caso, a realidade do ensino de Língua Portuguesa em uma turma de escola pública. Ver duas alunas exporem com tanta paixão e tanta competência os assuntos estudados, putz, foi um presente e tanto. O terceiro trabalho, que foi apresentado em dupla por uma aluna e um aluno. Disseram que foi perfeito. Deram 10 ao trabalho escrito; deram 10 à apresentação. Tudo conforme a ABNT, tudo dentro das normas gramaticais, como um texto científico deve ser. Mas não é disso que eu quero falar. Também não é do tema: como utilizar o gênero História em Quadrinhos em sala de aula; nem da coerência entre teoria linguística dos gêneros e as novas concepções do ensino de Língua. Porque isso já era o esperado deles e das outras apresentações.

Também não quero falar dos agradecimentos que recebi. As 3 apresentações me agradeceram, porque eu oriento à meia noite pelo facebook; porque eu corrijo tudo; porque eu orientei a parte teórica sem que isso fosse meu papel. Ganhei HQ de poemas de Fernando Pessoa; ganhei uma caneca com a foto dos alunos (para eu não me esquecer deles! Uns abusados); abraços, fotos. Embora isso seja importante, afinal ter reconhecimento de alunos e alunas é o mais importante para uma professora.

Mas o que eu quero falar hoje é da cerne da educação. Do ensino. Do que é ensinar. Eu não acredito em prova; eu não acredito na sala de aula como é hoje. Eu acredito em a gente sentar, estar junto, conversar sobre, ampliar leituras e trocar pontos de vista; e abraçar também, não ficar enfiado em sala de professor, fugindo de aluno. E o mais curioso, quando cheguei em casa pensando nisso, um amigo tinha me deixado um recado sobre a gente tentar não estagnar. E isso tinha tudo a ver com o sentimento que se formou em mim quando a dupla se apresentou.

Eles citaram com muita propriedade o Professor Marcuschi, que foi meu professor de Linguística 3 há uns, sei lá, 9 anos, e que é um dos, ou o maior, linguista do Brasil. E naquele momento eu percebi que um bom professor não estagna, nunca. Como eu disse no facebook, sequer corre o risco. Porque eu sei que meu querido professor está em mim, não apenas nos conteúdos que aprendi, mas na minha prática. E isso é tão forte que ele estava ali também, no discurso dos meus alunos, sem que eles soubessem. Era a mim que eles agradeciam, mas, na verdade, os aplausos iam a toda uma geração de bons educadores que vêm nos formando.

Afinal, com quem aprendi corrigir até o mais ínfimo detalhe em um trabalho, senão com a Professora Maria Piedade Sá (in Memorian)? E quem sentava comigo para discutir detalhes minuciosos de meus textos, senão Professor Anco Márcio Tenório Vieira? Sem falar que este atendia telefone no domingo, emprestava $$… Quem me ensinou a chamar a atenção dos alunos recitando poemas no meio da aula, senão Lucila Nogueira? Quem me ensinou que é preciso ler textos teóricos difíceis, porque são eles que te levam ao conhecimento, senão Professora Sônia Ramalho, Professora Dóris Arruda e Professor Aldo de Lima?

E, por fim, quem sorria e parecia que todos os problemas iam se resolver? Quem dava mais importância ao processo de aprendizagem do que às notas apressadas? Quem te deixava apresentar os banners em cartolina porque você não tinha dinheiro para imprimir na gráfica? Não quero pensar nele como o maior linguista do Brasil, porque muita gente pensa assim. Quero pensar como o imenso professor que, junto aos demais, me formou. E que eu vi ali em meus alunos.

Amo todo meu oitavo período que se formou, mas pelo que vocês me fizeram sentir ontem, quero agradecer em especial a vocês, Edilayne, Ana Cláudia, Suégila e Diego. ❤

Se eu fosse…

Se eu fosse escritora…

Mas não,
Sou apenas um lápis e um papel vazio.
Uma boca com gosto de ressaca.

Talvez nem lembres,
Talvez puseste um quadro barato
No local em que deixei pichada
A tua parede.

Chegaste a notar?

É, parece que, em cada verbo
De amor investido, escreveste
No verso uma palavra de adeus.

E olha que nem és escritor.

poeminha perdido em um caderno qualquer.