Tempo e poesia

São dez anos, não é?

Ou foram dez anos? Quanto mais estudo linguagem, mais me perco nas representações temporais. Talvez por senti-los apenas como evento único, seria mais correto dizer: é dez anos, a despeito do que a dona Norma diga.

Eu odeio dona Norma, na verdade. Por ela, eu deveria ter chorado, perdido o controle, ter ido à missa, ter refletido como devemos amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Mas eu não consigo ser assim. Pena. Não para mim, claro.

É dez anos sabendo da continuidade de sua existência apenas no que sou, por isso o presente verbal. O espelho me mostra seus olhos; o espelho me mostra seus traços que com a idade eu venho adquirindo. Eu sou tão ela, até mesmo no que ela queria que eu não lhe fosse.

Prefiro que pensem que esqueci. Prefiro que pensem que não sinto. Prefiro sempre ser aquele verso do Pessoa: “Quem quer dizer o que sente/ não sabe o que há de dizer:/ Fala, parece que mente/ Cala, parece esquecer”. Se é para ser, que seja poesia.

Dez anos com minha mãe em mim. E nos rouxinóis que vejo por aí.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Tempo e poesia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s