Erro, Correção, Consciência Linguística

Uma das minhas alunas postou hoje em meu facebook:

Professora, você sabe que eu sou a favor dos linguistas, que não se detêm a regras gramaticais e cuja importância é transmissão da mensagem, preocupando-se basicamente com o receptor da mensagem (ou não). Mas vamos combinar que nos deparamos com tantos “erros” (não me crucifique, não me crucifique, não me crucifique) que fica até difícil se apegar à Linguística.

(Nathália Alves)

Eu poderia dizer que concordo com ela, discordando. Quero dizer: eu a entendo. Não é fácil passar anos na escola, imersas em conteúdos de gramática normativa (fingindo-se “Estudos de Língua Portuguesa”), e depois não nos vermos aturdidas com fenômenos e teorias da linguagem que falam o contrário do que apreendemos. Afinal ganhávamos elogios por nossa grafia impecável; por nossa letra legível (ok, aqui estou mentindo: minha letra nas séries iniciais era péssima – astigmatismo era algo humilhante para mim, afinal como assim pulou a linha do caderno? Como não copiou direito do quadro?); por termos identificado a moral da história; por contar aquela história com outras palavras; por saber que substantivo é a palavra que designa seres em geral. Também não é fácil lidar com a mudança de ponto de vista: a ciência ensinada em colégios, geralmente, ainda é muito positivista; ainda ensina a perceber o mundo em binarismos: ou isto ou aquilo. Ou é errado ou não é. Ou é certo ou não é. Então fomos/ somos educadas (felizmente algumas escolas estão saindo dessa realidade, entretanto como professora de faculdade, vejo que o processo para sair totalmente dela é lento) a não relativizar e, pior, nossa aprendizagem se deu por meio da “consciência do erro”. Então chegamos à faculdade de Letras e nos deparamos com um monte de textos que nos dizem: no mundo da linguística, não é bem assim que as coisas são – erros, sem sua maioria, são fenômenos linguísticos; a língua muda no tempo e no espaço; a gramática normativa engessa o desenvolvimento natural das línguas; não existe Português melhor falado; e mais: não é assim ou é gramática ou é linguística… E agora?

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Há mulheres que…

Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas.

No resto, quero que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como se eu mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Mia Couto

em O Fio das Missangas.

Estou hoje divi…

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

(Álvaro de Campos)

Eu não poderia dizer melhor

Trilha sonora da Casa – Blind Pilot

Perdi as contas de quantos textos escrevi ao som de Blind Pilot; de quantos textos li; de quantas viagens fiz.

Conheci a banda em 2010, aqui.

“And maybe some things are better left unsaid
But if you wanted to test that, I will, yeah, I guess, I could’ve said”

Isso resume tantos textos meus…

Revirando o baú

Chegar a ser quase cavalos.

Chegar a ser quase Pégaso.

Mas ser apenas mãos desnudas

Que agora descansam

E os ventos que entre elas rodopiam

Expressam

A nostalgia de um poema:

A eternidade de um momento

Condenado a um papel.

 

 

Virgínia Celeste Carvalho

Palmares, 2000.

Tempo e poesia

São dez anos, não é?

Ou foram dez anos? Quanto mais estudo linguagem, mais me perco nas representações temporais. Talvez por senti-los apenas como evento único, seria mais correto dizer: é dez anos, a despeito do que a dona Norma diga.

Eu odeio dona Norma, na verdade. Por ela, eu deveria ter chorado, perdido o controle, ter ido à missa, ter refletido como devemos amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Mas eu não consigo ser assim. Pena. Não para mim, claro.

É dez anos sabendo da continuidade de sua existência apenas no que sou, por isso o presente verbal. O espelho me mostra seus olhos; o espelho me mostra seus traços que com a idade eu venho adquirindo. Eu sou tão ela, até mesmo no que ela queria que eu não lhe fosse.

Prefiro que pensem que esqueci. Prefiro que pensem que não sinto. Prefiro sempre ser aquele verso do Pessoa: “Quem quer dizer o que sente/ não sabe o que há de dizer:/ Fala, parece que mente/ Cala, parece esquecer”. Se é para ser, que seja poesia.

Dez anos com minha mãe em mim. E nos rouxinóis que vejo por aí.