Trecho de um texto esquecido

Eu dizia que não quero ser escritora. E há querer? Ao ato, ninguém pode fugir porque palavra e memória cercam como lobos atrozes e devoram, a partir de dentro, do útero, e sugam das veias, da medula. Não há como fugir da lembrança daquele morangozinho que estava nascendo e um fungo corroeu; nem meus olhos perdidos em lágrimas e meu pai explicando técnicas de como envolver o frutinho – logo que a flor cai – em uma pequena bolsa plástica, isso garantindo toda uma produção de morangos, resultando de um apelido a mim dado: moranguinho. Como enxotar esses fantasmas em vida, minha vida, senão os transformando em palavras que nada dizem, ou pouco dizem, ou dizem apenas  mim?

E por que ousar o que não quero? Advirto-me. Por que escrever algo a mais que estes pensamentos fugidios?

Para que sentir as dores do mundo, se as minhas já fazem meu corpo pender para o lado, uma corcunda de existência, tecida por laçadeiras invisíveis:, eu, todo um aglomerado de cânceres de mim mesma, com unhas crescidas e cabelos despenteados por todo o tempo?

Por que perseguir esse status de escritor? Esse privilégio de poucos para poucos, que sequer as pessoas entendem, sequer leem, apenas, algumas, amontoam  livros em suas estantes, na busca de um status, também tão vazio, de leitor…

Virgínia Celeste Carvalho

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6 pensamentos sobre “Trecho de um texto esquecido

  1. Escrevem, os de rara humanização, quando a vida tenta os deixar corcundas, quilates de dor profunda.
    Beijo!

  2. Ah, Virgínia, padeço deste mesmo mal, como uma febre intermitente: não posso deixar de escrever, não sei se quero que leiam, tenho medo de escrever por nada, medo de ser ridicularizada, medo do medo, medo de ter de ficar calada… e quando começo a preparar o texto, bem antes de me sentar em frente ao teclado, estremeço como se fosse a um encontro, como um garoto indo à casa da namorada!

    • é porque a gente se vê no que escreve, de uma maneira ou de outra: não que tudo seja sobre nossa vida ou baseado nela, mas há um pedaço de nós no que escrevemos… a ideia de vender, comercializar, ou ser ridicularizada, ou não ser bem aceita… enfim, mexe com esse pedaço de nós que deixamos nas palavras. Mas é a vida. É a escrita.

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