Confessionário

Essa é uma casa seu deus.

Sem pedestais.

Essa é uma casa horizontal: quisera sótão, quisera porão, mas tudo se mistura no carpete mofado da sala.

É uma casa de cacos de espelhos distorcidos, de graus confusos.

É uma casa de tempo, que passa majestoso. Uma casa de morte, nos lembrando do tempo vivido.

Ainda sim, é uma casa sem fé.

 

Alguns fatos recentes me levaram a escrever esse post. É uma confissão. Mas não estou ajoelhada nem espero ser absolvida de nenhum pecado. Também não espero ser compreendida por quem ler. Talvez eu nem queira ser lida, embora sinta a vontade de por em palavras algumas ideias.

Dia desses, um colega de trabalho me disse que sou a “ateia mais cristã” que ele conhece. Eu, na verdade, acho que seja a única ateia que ele conhece. Mas tudo bem, isso não vem ao caso agora. Depois alunos vieram me questionar sobre o mesmo assunto. Afinal eles me admiram em certa medida e deve ser estranho admirar alguém que “diz” não crer em Deus. Ou em deuses. Por que quem crê acha que, lá no fundo, cremos de alguma maneira. De forma curiosa. De forma não religiosa, mas creríamos, por fim, em algo que nos levaria a fazer o “bem”. Um deles falou algo como “as diferenças religiosas não interferiram no convívio e na amizade”. O outro desejava entender como eu “me descobri” ou “me tornei” ateísta. E que, embora não seguisse dogmas religiosos, ele acreditava em Deus. E me amava do mesmo jeito, mesmo eu não acreditando.

Não estou aqui para falar dessas pessoas. Eu as estimo muito. Estou aqui para falar de alguns pontos que me incomodaram nesses discursos e, quem sabe, definir o que é ser ateu para mim. Não é um post de caráter sociológico, filosófico e qualquer coisa do gênero. É um desabafo.

Primeiro: como eu não seria uma ateia cristã? Quero dizer que nasci num lar cristão. Estudei num colégio cristão. E valores não são feito cheiro de suor: banhos não resolvem. Para se construir uma casa é preciso demolir a anterior e nem sempre esse processo é rápido, fácil ou indolor. O que me deixa feliz é meu pai e minha mãe participarem de um lado de igreja católica que, pelo menos, se preocupa com o pobre: a pastoral da terra e a pastoral da criança. Ver minha mãe ir a uma casa de prostituição visitar crianças para saber se elas tinham leite e se estavam matriculadas na escola me fez ver que quem ajuda não pode se sentir acima do outro, nunca. Ver meu pai acompanhar os trabalhadores rurais, não virando as costas a quem foi na juventude, mesmo tendo condições melhor de vida, fez-me perceber que não existe essa coisa de “mérito”: as pessoas não têm o que elas lutaram para ter ou o que Deus deu – elas têm o que o capitalismo as deixa ter. Simples e cruel. Não, eu não estou dizendo que ter bondade de ir ao encontro do outro e ajudá-lo, que esse sentimento de que todos são merecedores de respeito e que muitos são vítimas de um sistema econômico sejam ações e sentimentos apenas de quem tem Cristo no coração. Estou dizendo que este valor me veio pela minha família, que é cristã.

Segundo: Mas meu ateísmo também veio pela mesma participação na igreja somada àquilo que eu conhecia por fora. Fatos históricos horrendos e a distância entre o que se pregava e o que se fazia foram os primeiros motivos para eu me questionar por que eu estava na igreja. Para mim, era inadmissível a igreja guardar tantos bens quando o Cristo dizia para doar tudo. E tudo foi ficando cada vez mais inadmissível até eu concluir que não era uma distância entre o que se pregava e o que se fazia: era um problema de cerne mesmo, de estrutura. É uma igreja mais capitalista que cristã. E eu não queria fazer parte daquilo.

Só que, apesar de não mais frequentar a igreja, ainda existia o mistério. Os fenômenos. Afinal ser “bom” era divino, eles me disseram. Havia forças divinas que controlam a tudo! Ou que, pelo menos, deram início a tudo isso que conhecemos! E eu precisava entender isso. Creio que nessa fase, comecei a ler sobre outras religiões e filosofias. Fiz até regressão. E havia aí uma coisa que eu não consigo explicar. Mas não seria pretensão achar que posso explicar tudo? Não seria humilhar-se dar uma explicação de um ser superior a algo só por que não consigo explicar? Nesse ponto eu só lembro as reflexões de Agostinho sobre o tempo: ele o explica tão maravilhosamente, mas chega um ponto que ele não consegue mais. Então o tempo se torna Deus. E eu não me sinto bem dentro dessa lógica. Tantos mistérios divinos não são mais mistérios divinos. Pessoas com convulsão não são mais açoitadas por espíritos de porcos: são crises epiléticas ou algum outro motivo ligado às atividades elétricas do corpo. Enfim. Então por que achar que minha impossibilidade de não entender o fenômeno faz com que outro ser, divino, o defina?

Não é querendo aqui sobrepor o discurso científico ao religioso. Conheço gente da ciência que possui um lado religioso muito forte. Há uma admissão dos limites da ciência. E eu acredito nisso. Mas não pelos mesmos motivos: não é que esse limite seja rígido ou exista um lugar divino depois dele. Apenas penso que nossa ciência está ligada a nossos sistemas de representação. Tudo que foge a eles, nos é apresentado como mistério. Ser mistério é uma questão de percepção e não característica do “objeto”. Foi quando eu vi que eu não precisava do Mistério (sim, maiúsculo, divino) que me disse “sou ateia”.

Entretanto se dizer ateu não significa, como eu dizia no início, que você se livrou dos valores cristãos. Antes eu me pegava dizendo: “sou a favor de a mulher poder escolher continuar ou não uma gravidez, mas eu não faria. E não aconselharia a fazer”. Hoje é uma frase que eu abomino totalmente, não pelo significado dela em si. Mas porque era uma frase sem questionamento. Frase pronta. Frase de dizer: estou acima desses problemas alheios e me sinto no direito de aconselhar o que a outra como agir. Era uma frase de valores que eu não quero para mim: a vida não é um ato divino para mim. Nem o corpo é um templo. Então é preciso se questionar o que é coerente com o que (des)acreditamos. A resposta que a medicina traz sobre o funcionamento cerebral me parece coerente com o resto do meu discurso. Então o aborto não seria um crime à vida, porque não existe vida sem funcionamento cerebral. Não quero me aprofundar nesse assunto da descriminalização do aborto porque não é o post para isso, só chamei esse assunto para dizer: tudo que pensamos sobre o mundo está relacionado à criação religiosa que tivemos – ou a que não tivemos –, ser ateu, então, significa repensar tudo. É um exercício de reflexão.

Terceiro: no início do texto eu citei o que uma pessoa me disse “que me amava, apesar de eu não acreditar em Deus”. A desconstrução ou, pelo menos, questionamento desses dias foi o conceito de tolerância. Somada a essa frase a que ouvi, li um texto muito interessante sobre o conceito de tolerância em Zizek e Paul Ricoeur. Sobre o primeiro não me debrucei tanto ainda para fazer uma leitura aprofundada. O segundo é um dos meus escritores de cabeceira. Mas esse texto não é sobre eles em si, e sim como o texto que os comparava me chamou a atenção para o meu entendimento da palavra “tolerância”. Tenho visto a palavra como uma armadilha. Tolerar algo é porque algo incomoda, mas devemos ser “boas pessoas” e deixar existir. A autora, que é cristã, não deixou claro em seu texto que Ricoeur fala em tolerância justamente por ser cristão. Não estou dizendo que devamos ser intolerantes: longe disso! Longe mesmo! Estou dizendo que precisamos entender por que determinados grupos incomodam? Estou dizendo que devo me questionar por que crer tanto em meus valores e convicções e “tolerar” que as pessoas convivam com as delas… Homossexuais, mulheres e outras minorias precisam de emancipação e direitos garantidos e não de ser “tolerados”.

Ser ateia, então, tem sido repensar todos esses valores que as religiões não querem que eu repense. E não precisar do Mistério e de recompensas divinas. Fazer o que acho “bem” e me distanciar do que acho “mal” sem precisar de Um Olho que Tudo Vê, e que vai me julgar por isso. 

 

Virgínia Celeste Carvalho

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8 pensamentos sobre “Confessionário

  1. Oi, Virgínia. Primeiramente queria, antes que este momento se esvaia, dizer como estou me sentindo após ler teu texto: humano! Fui lendo devagarinho, me sentindo bem, singelo. Realmente gostei. Há alguns dias aconteceu uma situação semelhante comigo então, acima de tudo, me senti contemplado. Parabéns!

  2. Pois oie, como diz diz onde mesmo? A vista aqui do meu ponto sempre me aconselha a ser uma pessoa laica. Quer dizer que procuro não misturar Igreja Católica com Jesus Cristo, Ciência com verdade absoluta, nem verdade absoluta com Deus. Gosto de perceber Mistérios (assim, com M maiúsculo) no movimento surpreendente das coisas no universo. E torço para que os astrofísicos, os quânticos e -porque não?- os românticos se entendam em algum momento. Teu texto é gostoso de ler como todos os teus textos, este me intrigou um tanto. Então, aqui estava eu na minha sexta terrena quando lá veio você com o tema. Vou te contar o que me soou: mais me pareceu uma busca um tantinho ansiosa por respostas, justo a tua marca, o jeito de caminhar procurando a lógica de tudo. Enquanto você vai belamente tateando em busca das verdades que te sejam razoáveis, vou lendo tuas coisas. Quer saber? O que importa mesmo se Deus existe ou não? Na minha pequena opinião, importa mais se o que acreditamos como força reflete o mundo divino que parece ser o sonho de ateus e não ateus.

    • As buscas das respostas acabam sendo mais importantes que as respostas, Mariel! Sempre gosto das suas visitas e seus comentários. Acho que eu estava precisando meio que afirmar o ponto onde estou hoje. Talvez para responder a dúvidas alheias sobre mim. Valeu!

  3. Sempre bom encontrar alguém que não tem aquele pensamento focado de que somente crentes podem ensinar e saber sobre o bem e que também estão livre daquele ateísmo que quer respeito mas desrespeita as outras opiniões. 🙂

  4. Pingback: Confessionário | Livre Opinião - Ideias em Debate

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