Retalhos

Um amigo meu, Bernardo Cortizo, sempre twittava coisas legais. Eu pegava e transformava em contos.

Os trechos em negrito foram escritos por ele. 

Porque algumas pessoas têm o dom de tornar o mundo mais confuso, mesmo que não queiram. Era, justamente, o que eu tentava, sem sucesso, explicitar, quando encontrei mais ou menos isto confidencialmente perdido em uma rede social. Claro que minha veia de escritora não me deixaria apresentar a frase como se fosse minha, mas também não seria justo recitá-la assim, como se exprimir o que eu sentia nas exatas palavras não fosse mérito meu.

Engraçado que eu, até ontem, transcendia, em poesia, o que era segredo. Uma forma de revelar-me em palavras que se fingiam endereçadas a todos que as lessem, quando, na verdade, havia um só destinatário. Eu escolhia os códigos e me esquecia em questionamentos se você os compreenderia. Eu ria sozinha, imaginando situações prováveis, quando você perceberia, numa palavra-espelho, o seu rosto. Mas pra que pressa? Eu despedaçava o espelho em metáforas mil, para que seu trabalho de juntar os cacos se tornasse mais infértil e você desistisse. Afinal eu queria um mundo simples.

E sempre havia um quê de voz na minha apreensão, quando conversávamos. E essa frase também não é minha, porque o que me resta dizer, se o segredo já não há? A poesia sempre me foi dizer o que era preciso ser deixado no quase esquecimento. Quase. Quase porque uma lembrança, com um resquício de vida, ainda brinca por aqui.

O mais importante era que eu sou uma casa de cômodos repetidos. O poeta da rede social, de quem roubei os versos, que me desculpe, mas tudo que eu fizera, tudo que eu dissera, só havia significado uma coisa e uma coisa apenas. E eu não tenho como dizer isto melhor.

Virgínia Celeste Carvalho

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Trilha sonora da Casa – Legião Urbana

Fiquei pensando que música seria a “da semana” por aqui. Queria uma em português e que significasse algo que pudéssemos, sei lá, discutir sobre. Músicas de Chico Buarque me imploraram para ser uma delas; outras de Caetano ficaram sussurrando ao meu ouvido… Ficarão para outro dia…
Porque eu me lembrei da minha música preferida de Legião Urbana. Porque a letra é foda. Como eu já disse aqui, meu pai esteve ligado a sindicatos rurais à época da ditadura militar e esse tema certamente sempre me rondou.
E nesse ano o mundo tá tão complicado. O Brasil está complicado. Não que ele não tenha sido complicado desde sempre, mas algumas feridas estavam com uma casca grossa, impedindo que boa parte de pus aparecesse. Daí muita gente não sentia dor e tinha aquela certeza de que havíamos encontrado remédios para alguns sintomas de nossa doença social. Que nada!
O terror sempre esteve por aí, você – que julgava estar tudo bem – que saía pouco. Que não olhava para o lado. Que não olhava para si. O terror estava engravatado, e ainda está – embora sempre vejamos o terror fardado aqui ou acolá em notícias –, e boa parte achou que a elegância dos ternos seria sinônimo de liberdade. Que nada!
Seria alarmista achar que o terror quer se enfardar novamente? Para mim, ele sempre veste a farda nas esquinas por aí. Só prestar atenção em algumas notícias.
Mas essa semana o terror está vestindo jaleco e cheirando à mertiolate. Não quero, neste post, adentrar no tema do “Mais Médicos”, no sentido político ou de eficiência. Não quero saber quem é contra, a favor, ou por quê. Mas sério? Que discurso de ódio é esse que tem surgido em meio a essa discussão, hein? Que imagem de preconceito social e étnico é essa que se forma? É só pôr em xeque o privilégio de algumas pessoas e… pronto. Preto e pobre não é gente. É empregado doméstico de dondocas. O pus do preconceito esguichou em nossa cara. Estou enojada.
E essa classe média idiota, hein? Que jura que está mais próxima aos ricos do que aos das classes mais baixas… Vamos ouvir música que é melhor!

La Maison Dieu – Legião Urbana

Se dez batalhões viessem à minha rua
E 20 mil soldados batessem à minha porta à sua procura
Eu não diria nada, porque lhe dei minha palavra.
Teu corpo branco já pegando pelo
Me lembra o tempo em que você era pequeno,
Não pretendo me aproveitar:
E de qualquer forma quem volta sozinho pra casa sou eu.

Sexo compra dinheiro e companhia,
Mas nunca amor e amizade, eu acho.
E depois de um dia difícil pensei ter visto
Você entrar pela minha janela e dizer:

— Eu sou a tua morte,
Vim conversar contigo,
Vim te pedir abrigo,
Preciso do teu calor.

Eu sou
Eu sou
Eu sou
A pátria que lhe esqueceu,
O carrasco que lhe torturou,
O general que lhe arrancou os olhos,
O sangue inocente de todos os desaparecidos,
Os choque elétrico e os gritos:
— Parem, por favor, isto dói!

Eu sou
Eu sou
Eu sou a tua morte
E vim lhe visitar como amigo.

Devemos flertar com o perigo,
Seguir nossos instintos primitivos,
Quem sabe não serão estes nossos últimos momentos divertidos?

Eu sou a lembrança do terror
De uma revolução de merda
De generais e de um exército de merda.
Não, nunca poderemos esquecer,
Nem devemos perdoar:
Eu não anistiei ninguém.

Abra os olhos e o coração
Estejamos alerta,
Porque o terror continua
Só mudou de cheiro e de uniforme.

Eu sou a tua morte
E lhe quero bem
Esqueça o mundo, vim lhe explicar o que virá
Porque eu sou
Eu sou
Eu sou.

Sobre a Morte

O assunto “morte” me instiga há tempos. Os interditos da morte e como eles moldam a vida. comprei, recentemente, o livro “Vivo até a Morte”, de Paul Ricoeur. E estava lendo empolgada, pensando sobre fazer post para o Casa Inabitada a partir do texto. Bem, então aconteceu que Hel,  uma gatinha de rua, a qual tomei nos braços e trouxe para casa, e que se tornou uma das minhas filhas, morreu. E a morte me calou.

Mas a vida precisa falar e escolhi este vídeo da filósofa Scarlett Marton para recomeçar a pensar sobre o grande momento da vida.

No Túnel: Maconha, Cerveja, X-tudo e Bupropiona, mas não nessa ordem (e talvez no plural) e não nesse texto.

Texto muito bom, sobre “O Túnel”, de Ernesto Sábato.

Xohq

Li (,reli e reli de novo) recentemente o “O Túnel” de Ernesto Sábato.

Comprei meses atrás para compor minha estante motivado pela empolgação de uma querida amiga. Na verdade, a empolgação era tanta que me levantou suspeita na mesma medida do interesse. Por via das dúvidas, adicionei o título a biblioteca do Apocalipse Zumbi. Publicado para venda em bancas de jornal, creio que pela segunda vez, não tive dó em gastar os trocados: é barato pelo que promete.

vol1

Fica o lembrete de que eu não ligo para “spoiller”, e, portanto, não cuidarei de evita-los. Se você quer descobrir sozinho quem foi o mordomo que matou, não continue lendo.

De uns tempos para cá entrei na onda de ler os livros da minha estante. Embora isso pareça uma coisa boba, para mim é estranho. Quer dizer, há muito eu apenas acumulo livros sobre livros e leio um ou outro.Numa maré de…

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Trilha Sonora da Casa – Joni Mitchell

Dessa vez, senti a vontade de fazer uma tradução (sem maiores pretensões, não me considero nem medíocre, quem dirá boa em traduções).

A última vez que vi Richard

A última vez que vi Richard foi em Detroit, em 1968.
E ele me disse que todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia:
Alguém cínico e bêbado e entediante
Em algum obscuro café.

“Você ri”, ele diz, “você se considera imune,
Mas veja seus olhos:
Eles transbordam de luar…
Você gosta de rosas e de beijos e de homens maravilhosos para dizer a você
Todas aquelas maravilhosas mentiras.
Quando você perceberá que se trata apenas de maravilhosas mentiras?
Apenas maravilhosas mentiras…”.

Ele colocou uma moeda em uma jukebox e apertou
Três botões e a coisa começou a tocar
E uma garçonete veio de meia-arrastão e gravata borboleta
E ela disse: “terminem o drink, já é hora de fechar”.
“Richard, você não muda mesmo”, eu disse,
“É só que você está romantizando alguma dor em sua cabeça.
Você traz lápides em seus olhos, mas as canções
Que você escolheu são sonhos,
Escute: elas falam de um amor tão doce…
Quando você voltará a se reerguer?
E o amor pode ser tão doce, tão doce…”

Richard se casou com uma patinadora artística
E ele a presentou com uma máquina de lavar prato e uma cafeteira
E agora ele bebe em casa, à noite, com a tevê ligada
E todas as luzes acesas.
(Enquanto) eu estou apagando essa maldita vela
Eu não quero que ninguém venha à minha mesa
Eu não tenho nada para falar com ninguém
Todos os bons sonhadores abandonam isso algum dia,
Se escondendo atrás de garrafas em  obscuros cafés.

Apenas essa escuridão à frente
Eu pego minhas gloriosas asas
E voo longe
Apenas uma fase, esse dias de obscuros cafés.

(eu preferi “obscuro” à “escuro” – ou a qualquer possível tradução para “dark” – porque acho que supre mais a imagem de um lugar escuro, meio underground, meio melancólico, frequentado por românticos incuráveis)