Poesia de Outrem IV

A Primeira Elegia – Rilke

 

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia

dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse,

de repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua

existência mais forte. Pois o belo nada mais é

do que o começo do Terrível que ainda suportamos;

e o admiramos porque, sereno, desdenha

destruir-nos. Todo anjo é terrível.

E assim me contenho e retenho o apelo

do meu soluço sombrio. Ai, a quem podemos

dirigir-nos? Aos anjos não, nem aos homens;

e os animais astutos já notaram

que nós não somos confiáveis

neste mundo definido. Resta-nos, talvez,

uma árvore qualquer na encosta, que revemos

todos os dias; resta-nos a estrada de ontem

e a fidelidade mimada de algum hábito

que gostou de nós e conosco ficou e não se foi.

E a noite, a noite, quando o vento, pleno de espaço

do mundo, roça nossa face, não seria ela – a desejada,

levemente enganosa – desafio penoso para

o coração solitário? Será ela mais fácil para os amantes?

Ai, eles apenas escondem, um do outro, o seu destino.

Não o sabes ainda? Lança o vazio dos teus braços

aos espaços que respiramos; talvez os pássaros

sintam o ar mais amplo em seu voo mais íntimo.

Sim, as primaveras precisavam de ti. Algumas estrelas

queriam que as percebesses. Avolumou-se

uma onda, vinda do passado; ou então,

ao passares por uma janela aberta,

um violino se entregava. Tudo isto era missão.

Mas será que a cumpriste? Não estavas sempre

distraído pela espera, como se tudo

anunciasse uma amada? (Onde a abrigarias,

já que pensamentos amplos e estranhos te

povoam e muitas vezes ficam noite adentro.)

Se, porém, vier a angústia, canta as amantes; pois ainda

não foi suficientemente imortalizada a sua maravilhosa paixão.

Canta aquelas, que quase invejaste, as abandonadas, as que

achaste tão mais apaixonadas que as acalmadas. Retorna

sempre de novo o louvor inatingível;

considera; o herói se preserva; mesmo sua queda foi

apenas pretexto para existir; seu nascimento supremo.

Mas as amantes, estas a natureza exausta

recupera, como se não houvesse forças para criá-las

duas vezes. Pensaste o suficiente em Gaspara Stampa,

para que uma jovem qualquer,

abandonada pelo amante, se mire no seu exemplo maior,

e sinta: pudesse eu ser como ela!

Não deveríamos, afinal, fazer frutificar nossas dores

mais antigas? Não é tempo, que, amando,

nos livremos do amante e, tremendo, o superemos?

Como a flecha supera a corda, para, concentrada no

disparo, ser mais do que ela. Pois permanecer não há.

 

Vozes, vozes. Ouve coração meu, como só

ouviam os santos, quando um chamado intenso

os elevava do chão; eles, porém, permaneciam ajoelhados,

impossíveis criaturas, e nem prestavam atenção:

era assim que ouviam. Não que possas suportar a voz

de Deus, longe disto. Ouve, porém, a voz do vento,

a mensagem constante que se forma do silêncio.

Sentes agora o murmúrio daqueles jovens mortos.

Onde quer que entraste, nas igrejas de Roma

ou Nápoles, não te tocava, sereno, o seu destino?

Ou aquela inscrição, outro dia, na placa em Santa

Maria Formosa, não te impressionava ela, sublime?

O que queres de mim? Que eu remova, suavemente,

as aparências de injustiça, que perturbam, às vezes,

o movimento puro de suas almas.

Certamente é estranho não mais habitar

a terra, não mais praticar costumes apenas

apreendidos, não mais dar destino humano às

rosas e outras coisas promissoras; não mais ser

aquilo que se era, entre mãos infindamente angustiadas,

e esquecer, até, o próprio nome

e largá-lo, como um brinquedo quebrado.

Estranho, não mais desejar os desejos. Estranho

ver, flutuando no espaço, tudo que estava

relacionado. E o estar-morto é penoso

e pleno de tentativas para chegar a sentir, enfim,

um pouco de eternidade. – Mas os vivos cometem,

todos, o erro de distinguir em demasia.

Os anjos (dizem) muitas vezes não sabem se

andam entre vivos ou mortos. A torrente eterna

arrasta todas as idades pelos dois domínios,

para sempre e, nos dois, os sobrepuja.

 

Afinal não mais precisam de nós, os mortos precoces;

docemente se desacostumam do terrestre, como ternamente nós

nos desabituamos do seio materno. Mas, nós que precisamos

dos grandes mistérios; nós, que muitas vezes usamos a dor

para atingir o avanço abençoado -: poderíamos ser, sem eles?

Seria sem sentido a lenda que, outrora, no lamento por Linos,

surgiu a primeira e ousada música, penetrando árida rigidez;

que, no espaço assustado, abandonado – de súbito e para sempre –

por um jovem quase divino – o vazio, pela vez primeira,

entrou naquela vibração que agora nos arrebata, consola e ampara?

 

Rainer Maria Rilke

Tradução Karlos Rischbieter

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2 pensamentos sobre “Poesia de Outrem IV

  1. Humm.. esta é a casa inabitada mais confortável e aconchegante que já encontrei… Confortáveis e aconchegantes inquietações do pensar. Poesia, política e reflexões em doses bem administradas!!!
    Parabéns pelo blog!

    Emmanoel Jetro

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