Balanço do que deveria ser uma manifestação, mas acabou sendo festa do coxinha.

Esses dias foram um caminho de entusiasmo, esperança, questionamento, tristeza e medo. Sim, necessariamente nessa ordem. Para quem segue meu blog, viu que no dia 17 passado, eu postei um texto esperançoso, e um poema do Brecht. Mal sabia eu que minha esperança tornar-se-ia um incômodo.

Quando querem transformar dignidade em doença

Quando querem transformar inteligência em traição

Quando querem transformar estupidez em recompensa

Quando querem transformar esperança em maldição.

(Legião Urbana)

Quem segue meu perfil pessoal no facebook pôde ver esse caminho por meio dos meus posts. Um amigo até veio me dizer que estava confuso sobre meu posicionamento. Claro, isso só refletia a minha inicial confusão. Os primeiros posts, motivados pelas manifestações do MPL (dia 15/06), e, depois, pelos primeiros levantes aparentemente contra a aumento das passagens, truculência policial e mobilidade urbana (16 e 17), eram imagens de São Paulo, Belo Horizonte e do Distrito Federal, lindas.

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Fiquei emocionada mesmo. Confirmei minha participação na manifestação que ocorreria no dia 20, aqui no Recife; chamei pessoas para irem comigo; estava pensando em alguém que eu pudesse pedir para aplicar prova no meu lugar…

Mas alegria de pobre dura pouco.

Já na terça, 18, pela manhã, o horizonte parecia outro. Estava eu apreensiva com o Deputado Marcos Feliciano e sua preocupação exacerbada com a sexualidade alheia, aproveitando-se do momento sem holofotes para votar o projeto da “cura gay”. E, ao entrar na página da manifestação no Recife, eram muitos comentários dispersos. Comentários de origem duvidosa. Comentários que se diziam “neutros”, mas convenhamos que, qualquer pessoa que pense um pouco sobre a linguagem, sabe que não existe neutralidade. De ondem vinham aqueles discursos?

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Não demorou muito para que se percebesse que grupos, não ligados à manifestação original, estavam manipulando, digamos assim, inquietações – até legítimas – de uma massa que nunca estudou História (tanto por dormir na sala de aula, quanto porque as instituições de ensino não ensinam muito sobre lutas do povo) ou nunca parou para questionar os sistemas econômico e político brasileiros. Quando percebi isso, deixei clara minha posição de que não participaria mais das manifestações e comecei a explicar os meus porquês.

Daí em diante só fez piorar. Porque, aos meus olhos, naquele momento, percebi que não era apenas a massa carente de informação que estava indo nessa onda de “acorda Brasil”. Eram meus amigos e minhas amigas. Pessoas próximas a quem gosto mesmo. E era por inocência (ou quero acreditar que seja, afinal se for por acreditar em “fascismos”, bem, perderá minha amizade). E senti isso de todos os lados, mesmo das/os amigas/os de esquerda.

Primeiro apareceram amigos (só no ‘masculino’ porque foram homens mesmo, para quem ainda não percebeu que tento não escrever masculinos como generalização) “neutros”, questionando o uso das bandeiras de partidos. Ora, de início tentei explicar didaticamente, até porque tenho alunos e alunas no facebook e sempre tento deixar bem claro o local de onde estou falando. Fiquei perplexa como algo que, para mim, era tão claro, parecia não fazer sentido para eles: a ligação das retiradas das bandeiras com a questão do “esquecimento” histórico”. Quem acordou, ora? Não é meter o dedo na cara de ninguém, pedindo para que voltem para seus sofás. Não é chamar ninguém de patricinha ou mauricinho. É pedir para estudar História. A do seu país. É pedir para contextualizar as coisas. É pedir para, ao invés de arrotar conceitos e nomes de teóricos em mesa bar, analisar os acontecimentos sob a percepção desse estudo. Porque é dessa ignorância que grupos propagam os ideais do fascismo. Daí você fica gritando coisas que nem sabe a dimensão. Fica fazendo apologia a regimes autoritários sem querer. Estou dizendo que não é legítima a insatisfação da população com os partidos políticos? Não. Também não estou querendo dizer que sempre estive a favor das pautas de partidos como PSTU às ruas, mas eles sempre estiveram lá. As manifestações eram deles, dos sindicalistas, das feministas, dos sem-terra, dos sem-teto, de tanta gente já! Pedir para eles/ elas saírem é tão ridículo! É se achar o centro do universo. “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”, já dizia o Paulo Freire. Com toda razão.

Depois vieram os amigos e as amigas de esquerda. (Você não tem amigos de direita, Virgínia? Bem, acho que eles me tiraram de suas vidas e me bloquearam no facebook faz algum tempo, ou não me avisaram que são). As questões foram outras: “que é isso, companheira? Estás deixando a manifestação para os reaça?” (tá, ok, eles não falaram assim, estou poetizando). Enfim, o fato é que fui questionada “por que não estava fazendo meu papel” (como se ir para a rua fosse o único e obrigatório caminho). Eu deveria ir, no dia 20 de junho passado, disseram, para as ruas recifenses. Estavam empolgadas/os com a possibilidade de as pessoas “discutirem” política pela primeira vez… Alguns – que não tinham idade para participar à época – lembravam os “caras-pintadas”. Oi? Aqui eu comecei a ser chata. Detesto quando eu começo a ser venenosa, mas chega uma hora, né? Cara-pintadas, sério? Cês acham mesmo que aquela massa se “politizou”? Gente, a “geração Coca-Cola” é mãe da “geração Playstation”. Pessoas insatisfeitas, mas que não sabem – ou não querem – discutir as relações de poder. Ah, Virgínia, vai dizer agora que o “Fora Collor” não foi importante? Claro que foi! Mas dizer que pessoas são, ou, pelo menos, começaram a ser, politizadas porque foram às ruas é de uma ingenuidade.

Depois a utópica, por querer que todas/os trabalhadoras/es tenham dignidade em seus respectivos trabalhos, sou eu.

“Diz que leu Foucault, mas não consegue ver os discursos institucionais por trás das manifestações”/ “Diz que leu Le Goff, mas não consegue relacionar às retiradas das bandeiras a questão do esquecimento” / “Diz que leu Marx, mas não percebe que comprar máscara de V de Vingança faz parte da lógica capitalista”/ “Diz que leu Nietzsche, mas consegue ver essas manifestações com otimismo.”

Essas foram minhas frases que, agora, me soam tão arrogantes. Mas, no momento, eu só sentia nojo de tanta gente que arrota pra todo lado o nome desses autores e cadê tanta teoria na hora de analisar os fatos? Desculpem, mas eu sou os textos que li – uns que concordo, outros que discordo, porém todos me formam de alguma forma e eu não me dispo deles.

Então dia 20 chegou e eu decidi mesmo viajar para Palmares e aplicar prova para as/os alunas/os. Saí até de casa bem mais cedo, para evitar problemas com o trânsito. Só cheguei em casa perto da meia-noite, como sempre. Descobri que meus receios de “os coxinhas” tomarem conta da passeata (sim, se é “pacífica” não é manifestação, né?) se tornaram realidade. Machismo everywhere. Preconceito social everywhere. Homofobia everywhere.

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é… bem… você acordou? só se foi pra fazer xixi, né? vê se, pelo menos, não esquece de lavar as mãos

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Pobre votar? quem inventou isso?

Especificamente no Recife, quem foi, e se questionou, viu o fiasco. Tudo bonito para sair na TV. Tudo roteirizado para todo mundo amar o governador e o prefeito. Polícia recebendo manifestante com faixas. Uma policial chorando de emoção (não estou julgando-a, ela realmente devia estar emocionada. O que me deixa ainda mais com raiva da manipulação das emoções das pessoas, nesses casos). “Fora a corrupção”, mas cadê a reclamação pela mobilidade mesmo? Não estou dizendo que não houve pessoas gritando por isso, mas foram abafadas pelos pedidos genéricos e sem futuro. E os casos de violência, como o da moradora de rua espancada por manifestantes, desapareceram nos números de pessoas que gritavam pela… paz.

E não era só isso. Tantas peças se juntavam que muita gente tremeu nas bases: um novo golpe? O medo tomou conta. A gastrite. Sim, sou dessas garotas apaixonadas e com um ciúme doentio por essa tal liberdade (sim, eu sei que liberdade não existe; que estamos presos a sistemas de representação; eu estava falando de liberdade nos limites da democracia que vivemos) e, a qualquer sinal de que ela possa me deixar, ui. Lá vem insônia. Não quero entrar na “paranoia semioticista da conspiração” e achar em toda notícia um sinal para um golpe. Mas né, o argumento otimista de alguns amigos que “são muito poucos para tanto”, sei não. A História está aí para mostrar que poucos sempre manejaram os muitos. Uma bancada evangélica sendo apoiada por militares numa marcha pela família? Só eu tenho medo de ser torturada, sério?

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Eu acho que é tempo de mostrar a cara. De ir de cara limpa, seja para onde você for.

Em resumo, lutas que não são para a melhoria de problemas de quem necessita urgentemente de coisas básicas não são minhas. Não, não vou discutir a fila de espera para cirurgias eletivas quando tem gente morrendo de “lombriga” nos interiores desse Brasil. Pessoas que gritam que “vinte centavos não é nada” não são boa companhia para mim. Tanta gente ainda precisa disso. Não, não caminho com pessoas que querem silenciar partidos; não dou força ao coro “fora Dilma”; muito menos ao grito por uma ditadura. Não, enquanto a luta não for para acabar com essas relações de poder  doentias, a coisa não anda. Sim, estou conversando com pessoas de esquerda e atenta, na esperança de que consigamos nos reorganizar e caminharmos unidas/os.

Para quem esqueceu ou não sabe o que é ser de esquerda. (sim, eu sei q ele está falando do contexto Europa e antes de alguns governos de esquerda acontecerem, mas vale a reflexão)

Pelo menos teve Marcha das Vadias, linda, em Brasília, com um texto super lúcido. As feministas sempre estiveram acordadas.

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Como não amar?

Virgínia Celeste Carvalho

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8 pensamentos sobre “Balanço do que deveria ser uma manifestação, mas acabou sendo festa do coxinha.

  1. Olá achei muito interessante o seu texto, concordo com grande parte, apenas discordo(não totalmente) desta parte “não caminho com pessoas que querem silenciar partidos”, acho que não devemos expulsar os membros de partidos, apenas não devemos deixar que eles tomem a frente do movimento e usem ele para se promover(tem pessoas que acreditariam neles), e acho que o Brasil deveria lutar por dois objetivos que poderiam resolver grande parte dos problemas, a reforma política junto com a criação de uma nova constituição(podemos aproveitar grande parte da atual, mas existem muitas coisas que devem ser retiradas, por isso não penso que deva apenas ser feita uma revisão da atual), e essa nova constituição deveria ser constituída e ser posta a aprovação popular, caso não condiga com o que o ‘Brasil’ espera deve sofrer as devidas alterações antes de se tornar a constituição vigente.

    Obrigado e gostaria de ver o que pensa a respeito.

    • Olá, Max. Primeiro obrigada pela visita, participação.

      Se você não quer expulsar os partidos, então fico feliz. Porque realmente entendo a insatisfação das pessoas com os partidos como hoje eles são. Mas creio que isso se dá muito mais por um afastamento deles (deixamos nosso poder em mãos de poucos) e a fortalecimento de partidos seria uma solução melhor do que o enfraquecimento destes. Posso ser ingênua, mas por enquanto essa é minha posição, vamos ver como vai ficar. Quanto a eu não querer “caminhar com pessoas que querem silenciar partidos”, me refiro a pessoas fascistas mesmo, que querem dissolvê-los, porque isso me parece totalitarismo. Não quero estar numa passeata, envolta de vermelho, e levar porrada de skinheads, né? Isso aconteceu em SP, aqui no Recife, no RS. Enfim, triste. A questão de “as pessoas acreditariam neles”, bem, as “pessoas” (nós!) sempre acreditam em algo, né? Por isso mesmo, quanto mais bandeiras melhor, mais escolhas, mais visões de mundo, mais pautas para minorias se sentirem representadas. Não me sinto representada por partidos homofóbicos (PSC), por exemplo. Se isso se dispersa no “neutro”, como fica? O discurso contra corrupção, contra miséria, a favor de uma educação melhor pode ser feito por uma multidão homogênea, mas quando esse discurso se torna lei, essas leis ganham perfis políticos, atendem melhor a uns grupos, outros não… como fica então minha discussão depois? minha representação? por isso, mais uma vez, acho que a aproximação das pessoas aos partidos ajudaria mais que o apartidarismo. A nossa Constituição é arcaica, escrita num linguajar excludente (até para mim formada em letras é difícil seguir o raciocínio), como foi emendada e remendada (:P) está uma bagunça e deve sim ter um monte de coisas para serem tiradas. Mas não sou especialista em Direito para falar mais que isso. Eu só acho que antes disso, é preciso fazer uma reforma econômica antes. Marxista que sou, creio que a economia que move as outras relações sociais.

      🙂

  2. Virgínia,

    Eu imaginei que aquela ideia de texto emotivo viria em versos e gostei muito da sua análise. Acho que você sabe que andei tendo umas discussões ácidas (se é que se pode chamar aquilo de discussão) com pessoas que defendem ideias fascistas mas negam isso até o fim e aglutinam seguidores que não se poupam em direcionar discursos cheios de ódio contra tudo o que não seja de direita. Sei bem o que isso significa. Em minha cidade, vi as pessoas preocupadas em fazer “manifestação pacífica”, pintar a cara de verde e amarelo e até criar estratégias para avisar a polícia de possíveis baderneiros. Tudo pra aparecer bonito na mídia e apareceu mesmo. As manifestações trouxeram à superfície, ou melhor, às ruas, um conjunto de ressentimentos. Eu já imaginava que essa “direitização” de alguns manifestos pudesse aumentar porque é o que tem acontecido nas redes sociais.

    A questão da história é tão importante porque uma parte da imprensa tem insistido no discurso do “mensalão como o maior esquema de corrupção da história”. Não que eu defenda o mensalão, mas os interesses políticos por trás dessas falas são claros. Creio que o PT cometeu alguns erros que agora estão se voltando contra ele. Mesmo que se diga que as manifestações são apartidárias, a polarização esquerda e direita sempre vai aparecer nos protestos e isso se manifesta no silenciamento de quem leva bandeiras de partidos, em geral os de esquerda. Me pergunto por que algumas pessoas se sentem tão ameaçadas com essas bandeiras? Por que, em manifestações que pretendem ser democráticas, suprimir os direitos de outros grupos? E aí entram conflitantes teorias de conspiração.

    Preciso aprender com você esse português correto, limpo, agradável de ler.

    • Obrigada por aparecer para ler 🙂 imagino as discussões que você anda tendo… Sim o PT cometeu erros. Meu desejo era só que as pessoas tivesse, honestidade intelectual para dizer de onde falam, sem se fingir de neutros. Mas parece que é esperar muito. Sad. 😦

  3. Muito bom teu texto, Virgínia! Serviu para me elucidar mais ainda! Eu realmente concordo contigo em alguns pontos já em outros como não possuo conhecimento suficiente não posso dizer se concordo ou discordo. Mas, em todo caso, a tua colocação sobre esses manifestos é muito válida.

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