Poesia de Outrem III

Hoje eu quero contar uma história. Dizem por aí “O Brasil acordou”, em razão às últimas manifestações ocorridas. Eu fico feliz duas vezes: primeiro por ver pessoas saírem da inércia de seus sofás; segundo, e mais importante, por ter o pai que tenho. Um pai que nunca me deixou dormir: Seu Manoel. Ele foi sindicalista, nos anos 60. Não, não era intelectual formado: era um homem do campo. Mas até hoje pensa sobre o mundo melhor do que muitos que saem de uma universidade. E, antes mesmo de eu ler Marx, ele me ensinou o que era justiça social. Lembro como se fosse hoje. Eu tinha uns 14 anos. E passava, por perto da nossa casa, uma Marcha dos Sem-Terra. Ele entrou em casa com uma mamadeira nas mãos e me pediu para fazer um leite. Assim o fiz. O acompanhei de volta à marcha. Uma mãe deu aquela mamadeira a um dos seus filhos; antes que este acabasse, ela tirou dele e deu para o outro. Essa imagem me marcou, mas, mais ainda, me marcaram as palavras do meu pai: “eles não têm leite porque nós temos duas latas em casa”. Fica em mim o desejo e a esperança de que este “acordar” do Brasil traga uma reflexão de que há uma relação estrita entre valores sociais e pessoais. Uma relação de modificações mútuas. E, com vocês, um poema de Bertolt Brecht.

Aos que virão depois de nós – Bertolt Brecht

I

Eu vivo em tempos sombrios.

Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,

uma testa sem rugas é sinal de indiferença.

Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando

falar sobre flores é quase um crime.

Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranquilamente a rua

já está então inacessível aos amigos

que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.

Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço

Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Por acaso estou sendo poupado.

(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!

Fica feliz por teres o que tens!

Mas como é que posso comer e beber,

se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?

se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:

Manter-se afastado dos problemas do mundo

e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,

pagar o mal com o bem,

não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.

Sabedoria é isso!

Mas eu não consigo agir assim.

É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

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5 pensamentos sobre “Poesia de Outrem III

  1. Hahahaha… Claro né!!! GENTE DOS QUATRO CANTOS DA TERRA, eu, Sandrinho, uso isso “O.o” como ironia!!! O.o rsrsrsrs…

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