Vamos Foucault? – Parte 1

Escrevi esse texto com fins didáticos, para auxiliar alunos e alunas a lerem pela vez primeira “A Ordem do Discurso”, de Michel Foucault.

Tentemos visualizar: um orador entra em um recinto, onde fará uma palestra. É uma instituição acadêmica com tradição, logo pensamos em uma sala mais ou menos assim: em um canto, como uma espécie de púlpito, poucas cadeiras estão dispostas de frente a muitas outras. Numa dessas poucas, o orador se sentará, ladeado por seus pares. A plateia acomoda-se quando representante da instituição tenciona apresentar o orador. O silêncio se faz. O direito da palavra passa deste representante para o orador. Este começa e, curiosamente, ele vai questionar justamente esse rito de enunciação e as significações sociais desta. Ele é o psicanalista Michel Foucault.

Em “Ordem do discurso” Foucault vai nos falar como as relações de poder estão ligadas às formas discursivas – tanto no que diz respeito à enunciação quanto ao enunciado: não apenas as palavras escolhidas mostram um significado social, mas a própria ordem dos acontecimentos da enunciação – a própria atmosfera que acolhe os enunciados – é permeada por significados. Ele inicia questionando sobre sua própria fala: ele é o orador e representa ali o discurso de uma instituição. Um silêncio, antes que ele começasse a produzir sons, se fez. A solenidade do silêncio já indica o poder dos sons que virão logo após – é como se ele fosse dizer algo, no mínimo, antes nunca dito; ou irrefutável; ou se, refutável, pelo menos digno de atenção. É esse poder a ele mesmo confiado pela instituição – no caso particular, uma instituição de ensino – que ele se propõe questionar.

Neste presente texto, tentarei colocar alguns pontos que julgo importante. Por lembrar, enquanto relia “A Ordem do Discurso”, do poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), resolvi intercalar alguns versos, para explicitar o que me vinha à mente ao ler Foucault.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

(Álvaro de Campos)

Primeiro vamos entender o que Foucault tem por “instituição”. Eu poderia dizer aqui que ela é aquilo que rotula o mundo; que o nomeia; que o define. É aquilo que estabelece os começos discursivos; é de onde a “verdade” parte. Ela é para Foucault o que a tabacaria é para o poeta: real por fora. Pois, para o psicanalista, é-lhe nítida a sensação de que é impossível começar em algum ponto: para Foucault a questão da autoria é muito mais complexa do que a definição de plágio nos diz: antes de nós, aquilo que falamos já era falado. Não só as palavras, mas também as formas dos enunciados já pertenciam a pessoas anteriores a nós. Da mesma forma, as situações enunciativas também já aconteceram antes, em outros momentos. Foucault é ciente disso e, ao desejar que um “outro” aparecesse e iniciasse o discurso, não significa que esse “outro” não exista – significa que “ele” é apagado nas formas dos discursos institucionais.

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

(Álvaro de Campos)

Talvez a instituição viva na figura do gênio. Do inquestionado. Da primeira e última palavra a ser dita sobre determinado tópico. E não apenas a instituição acadêmica, mas as econômicas, políticas e religiosas. E a quem serve esse “começo” do discurso? Quem se beneficia da solenidade que anuncia a “verdade” que será dita? E, como Foucault coloca, “onde está o perigo” de que os discursos se multipliquem? Sim, porque se as instituições impõem uma seleção, organização e até mesmo um controle na distribuição dos discursos é porque o “poder” e a “ordem” social estão em jogo. A ordem discursiva organiza a ordem social – e nós tanta vezes perdemos tempo com aulas de língua apenas restritas ao cumprimento das regras gramaticais. Penso: será que nos preocuparmos mais com as regras gramaticais da língua do que com os efeitos sociais dela não seria “exorcizar-lhe os poderes e perigos”? Não seria perpetuar as relações de poder?

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

(Álvaro de Campos)

Foucault se propõe a discutir a ordem, mas, ao chegar à palestra, é com a ordem que ele se depara. No trecho a seguir, fica clara a noção de que este lugar – o mesmo que honra o enunciador – é o lugar que o deixa impotente diante ao discurso institucional:

E a instituição responde: “Tu não deves ter receio em começar; estamos aqui para te fazer ver que o discurso está na ordem das leis; que sempre vigiámos o seu aparecimento; que lhe concedemos um lugar, que o honra, mas que o desarma; e se ele tem algum poder, é de nós, e de nós apenas, que o recebe.” (FOUCAULT, 1970)

Nesse ponto da discussão, Foucault coloca dois pontos bastante pertinentes: o interdito e a exclusão na ordem do discurso. Compreendê-los é a única maneira de continuarmos a leitura do texto. No primeiro caso, nós temos um conhecimento – ou uma prática – de que não podemos falar o que nós desejamos a qualquer momento e em qualquer lugar. O autor divide essa prática de “não falar sobreem três tipos: Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala. Não que eles funcionem separadamente, ao contrário: eles convivem e se reforçam. Ora, vamos ao exemplo?

Tomei a liberdade de escolher um exemplo fora do texto de Foucault, mas como está em pauta essa semana, achei interessante: o Aborto. É um tabu social – afinal boa parte das vezes que o assunto é levantado, as pessoas em volta retorcem suas faces, em desaprovação, dizem algo rápido como “a vida é dom de Deus” e mudam de assunto. Por quê? Porque é um crime não parece ser, pois assassinatos são crimes e, quando tocamos no assunto, a conversa pode durar por horas, com as pessoas falando de casos e mais casos; muitas vezes até descrevendo detalhes que gostaríamos de não saber. Porque é ligado à sexualidade é uma resposta melhor, mas ainda sim precária: as pessoas não parecem tão chocadas com assuntos acerca da sexualidade masculina heterossexual (vide que nos deparamos com frases de orgulho por parte dos pais em relação aos filhos ou mesmo com as revistas masculinas em qualquer banca de jornal a qualquer hora). Chegamos então à sexualidade e ao corpo da mulher e a pergunta que vem é: quando o corpo da mulher é tabu? Vamos aos rituais das circunstâncias, pois me parece que para a publicidade de cerveja ou nas revistas masculinas ou nos editorias de moda ou arte o corpo feminino é livre.

Mas não é livre no dia a dia; nas roupas em que vestimos para trabalhar ou mesmo andar na praça. Não é livre na escolha de continuar uma gravidez. Nem mesmo para amamentar seus filhos e suas filhas o corpo feminino é livre: sempre nos deparamos com mulheres convidadas a se retirarem de locais “públicos” (?) quando expõe o seio para amamentar. Até mesmo entre mulheres o seu corpo é tabu – poucas mães conversam com as filhas sobre menstruação, vagina, útero, sexo e demais assuntos relacionados a nosso corpo. Nesse momento nos deparamos com o outro tipo de interdito – quem possui o direito de falar e decidir sobre nosso corpo? A igreja fala sobre nosso corpo. A medicina fala sobre nosso corpo. A arte fala sobre o nosso corpo. E nós?

Guardemos essa questão “e nós?” para exemplificar o outro conceito que Foucault nos colocará no texto: a exclusão. Para ele, além do interdito, há outros dois processos de exclusão: a partilha da loucura e a vontade de verdade. O exemplo tratado por Foucault é a figura do louco que, por não seguir a ordem estabelecida, é excluído, não tem importância civil, jurídica ou não partilhava – na Idade Média – da “comunhão” na Igreja. Mesmo antes de existirem asilos onde eram confinados, os loucos eram excluídos do convívio social e seu discurso não tinha valor para as comunidades. Quando alguém lhe ouvia era misticamente, como se ele detivesse o poder de prever “verdades” divinas. Mas não era o louco que controlada essa “verdade” enquanto verdades sociais. E nada que o louco diz se estabelecia na ordem do poder ou do direito. A partilha da loucura não era retida enquanto discurso (afinal não gerava outros):

Era por intermédio das suas palavras que se reconhecia a loucura do louco; essas palavras eram o lugar onde se exercia a partilha; mas nunca eram retidas ou escutadas. A nunca um médico ocorrera, antes do final do século XVIII, saber o que era dito (como era dito, por que é que era dito isso que era dito) nessa palavra que, não obstante, marcava a diferença. (FOUCAULT, 1970)

***

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

(Álvaro de Campos)

E engana-se, continua Foucault, quem acreditar que hoje (anos 70, data do texto) o discurso do louco tenha a alguma validez, mesmo já sendo ouvida por profissionais (médicos, psicanalistas). Afinal seu discurso passa por vários discursos fora dele que lhe atribuem valor:

Mas uma tamanha atenção não prova que a antiga partilha não se exerça ainda; basta pensar em toda a armadura de saber por intermédio da qual nós deciframos essas palavras; basta pensar na rede de instituições que permite a qualquer um — médico, psicanalista — escutar essa palavra, e que permite simultaneamente ao paciente trazer, ou desesperadamente reter, as suas próprias palavras; basta pensar em tudo isso para suspeitar que a partilha, longe de se ter apagado, se exerce de outra maneira, através de linhas diferentes, por intermédio de novas instituições e com efeitos que não são já os mesmos. (FOUCAULT, 1970)

O terceiro ponto que o psicanalista nos trará é “a vontade da verdade”. Ele começa falando sobre o “verdadeiro” e “falso” e de que como esses conceitos não aparentam, a priori, para quem está inserido no discurso, como uma forma de exclusão. É como se quem está inserido no discurso institucional não verificasse sua arbitrariedade ou violência. O texto explicita, por meio de episódios históricos, como a “vontade de verdade” foi criando exclusões discursivas. Os poetas gregos, no Século VI, segundo o autor, criam na verdade do discurso – é como se ela existisse acima e além dos homens. A enunciação – o ato de produzir discursos – era maior que o próprio enunciado – o que se dizia. Mas não passou muito tempo para que isso se modificasse e, aquilo ao que o discurso se refere se tornou mais importante que o rito em que o discurso era pronunciado.

Dando um pulo para o começo da industrialização (Inglaterra, fim do século XVI, início do XVII), ele demonstra como a “vontade de verdade” estava ligada ao maquinário, à produção. Era uma vontade de saber que

concebia planos de objetos possíveis, observáveis, mensuráveis, classificáveis; uma vontade de saber que impunha ao sujeito que conhece (e de algum modo antes de toda a experiência) uma certa posição, um certo olhar e uma certa função (ver em vez de ler, verificar em vez de comentar); uma vontade de saber que prescrevia (e de um modo mais geral do que qualquer instrumento determinado) o nível técnico onde os conhecimentos deveriam investir-se para serem verificáveis e úteis. (FOUCAULT, 1970)

Fica explícito como a instituição escolhe a verdade a ser discutida. As práticas pedagógicas, os livros, as bibliotecas, os laboratórios reforçam essa “vontade da verdade”. E, como se não fosse o bastante, o modo como os “saberes” são distribuídos e repartidos socialmente reafirma a exclusão.

Podemos ver a exclusão como um processo que “retira” da “ordem do discurso” determinados grupos sociais, como se o “discursos” desses não tivessem relevância social, cultural, histórica, política, econômica e/ou religiosa. Esses grupos não participam desse processo institucional de controle, seleção, organização e distribuição dos discursos. Voltamos à questão que ficou em aberto “e nós?”.

Se nosso corpo é um tabu, por que mulheres não lutaram contra isso? Essa é a questão que nos ficaria se olhássemos apenas para esses livros didáticos ou para os discursos do Direito, da Política ou da Religião. Isso porque o “silêncio” que se faz sobre as lutas que alguns grupos de mulheres tomaram (denominados grosso modo “feminismo”, apesar de alguns lutarem por pontos até contraditórios ao longo do tempo) faz parecer que os diretos que temos são “naturais”. Como a escola não fala dos momentos históricos quando mulheres lutaram por direitos à propriedade, ao voto, ao estudo, ao trabalho fora do lar, à pílula anticoncepcional, a programas políticos voltados à saúde da mulher, até mesmo ao direito a falar no púlpito das igrejas, a impressão que fica é que sempre foi assim. É que é um direito natural, o que não é. Feminismo ainda é palavrão em alguns lugares, mesmo sendo ele quem lutou por direitos sociais femininos. Por que essas informações não são massificadas? Voltamos à questão de Foucault: “qual o perigo dos discursos se multiplicarem indefinidamente?”.

Continua. Para quem quiser o pdf de A Ordem do discuso é só clicar aqui.

Virgínia Celeste Carvalho

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2 pensamentos sobre “Vamos Foucault? – Parte 1

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