Palavras de Outrem II

Só pela metáfora conhecemos. Só por ela unimos a profundeza de nossa experiência às experiências das palavras. Sim, palavras  não são ocas; cada uma possui uma história. Não são vazias, porque experiências de outros lhe preenchem. No entanto, o poeta ou poetisa  as toma para libertá-las de tudo isso e, no mesmo movimento, prendê-las em imagens precisas. Um ângulo ainda não visto.

Nunca poderei dizer sobre a angústia de forma mais bela. Os dias de agulhas perdidas são meus, embora os versos sejam de Paul Éluard (1895-1953).

SEUS OLHOS SEMPRE PUROS – Paul Éluard

Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte
[ dos mares,
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.

Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.

Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, vi-os.

Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu voo a sacudir minha miséria.
Seu voo de estrela e luz,
Seu voo de terra, seu voo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.

Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.

LEURS YEUX TOUJOURS PURS

Jours de lenteur, jours de pluie,
Jours de miroirs brisés e d’aiguilles perdues,
Jours de paupières closes a l’horizon des mers,
D’heures toutes semblables, jours de captivité,

Mon esprit qui brillait encore sur les feuilles
E les fleurs, mon esprit est nu comme l’amour,
L’aurore qu’il oublie lui fait baisser la tête
Et contempler son corps obéissant et vain.

Pourtant, j’ai vu les plus beux yeaux du monde,
Dieux d’argent qui tenaient des saphirs dans
[ leurs mains,
De véritables dieux, des oiseaux dans la terre
E dans l’eau, je les ai vus.

Leus ailes sont les miennes, rien n’existe
Que leur vol qui secoue ma misère,
Leur vol d’étoile e de lumière
Leur vol de terre, leur vol de pierre
Sur les flots de leurs ailes,

Ma pensée soutenue par la vie e la mort.

Tradução: José Paulo Paes

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