Poesia de Outrem IV

A Primeira Elegia – Rilke

 

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia

dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse,

de repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua

existência mais forte. Pois o belo nada mais é

do que o começo do Terrível que ainda suportamos;

e o admiramos porque, sereno, desdenha

destruir-nos. Todo anjo é terrível.

E assim me contenho e retenho o apelo

do meu soluço sombrio. Ai, a quem podemos

dirigir-nos? Aos anjos não, nem aos homens;

e os animais astutos já notaram

que nós não somos confiáveis

neste mundo definido. Resta-nos, talvez,

uma árvore qualquer na encosta, que revemos

todos os dias; resta-nos a estrada de ontem

e a fidelidade mimada de algum hábito

que gostou de nós e conosco ficou e não se foi.

E a noite, a noite, quando o vento, pleno de espaço

do mundo, roça nossa face, não seria ela – a desejada,

levemente enganosa – desafio penoso para

o coração solitário? Será ela mais fácil para os amantes?

Ai, eles apenas escondem, um do outro, o seu destino.

Não o sabes ainda? Lança o vazio dos teus braços

aos espaços que respiramos; talvez os pássaros

sintam o ar mais amplo em seu voo mais íntimo.

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Mãos

São olhos que se pensam mãos

São olhos que exigem toques

E eu me sinto tímida

Ao mesmo tempo em que me divinizo.

 

E esses olhos que possuem

Dedos em suas pálpebras

Me despem

Me amam

 

E, por mim, passeiam

Como se não houvesse um depois.

Virgínia Celeste Carvalho

Balanço do que deveria ser uma manifestação, mas acabou sendo festa do coxinha.

Esses dias foram um caminho de entusiasmo, esperança, questionamento, tristeza e medo. Sim, necessariamente nessa ordem. Para quem segue meu blog, viu que no dia 17 passado, eu postei um texto esperançoso, e um poema do Brecht. Mal sabia eu que minha esperança tornar-se-ia um incômodo.

Quando querem transformar dignidade em doença

Quando querem transformar inteligência em traição

Quando querem transformar estupidez em recompensa

Quando querem transformar esperança em maldição.

(Legião Urbana)

Quem segue meu perfil pessoal no facebook pôde ver esse caminho por meio dos meus posts. Um amigo até veio me dizer que estava confuso sobre meu posicionamento. Claro, isso só refletia a minha inicial confusão. Os primeiros posts, motivados pelas manifestações do MPL (dia 15/06), e, depois, pelos primeiros levantes aparentemente contra a aumento das passagens, truculência policial e mobilidade urbana (16 e 17), eram imagens de São Paulo, Belo Horizonte e do Distrito Federal, lindas.

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Fiquei emocionada mesmo. Confirmei minha participação na manifestação que ocorreria no dia 20, aqui no Recife; chamei pessoas para irem comigo; estava pensando em alguém que eu pudesse pedir para aplicar prova no meu lugar…

Mas alegria de pobre dura pouco.

Já na terça, 18, pela manhã, o horizonte parecia outro. Estava eu apreensiva com o Deputado Marcos Feliciano e sua preocupação exacerbada com a sexualidade alheia, aproveitando-se do momento sem holofotes para votar o projeto da “cura gay”. E, ao entrar na página da manifestação no Recife, eram muitos comentários dispersos. Comentários de origem duvidosa. Comentários que se diziam “neutros”, mas convenhamos que, qualquer pessoa que pense um pouco sobre a linguagem, sabe que não existe neutralidade. De ondem vinham aqueles discursos?

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Não demorou muito para que se percebesse que grupos, não ligados à manifestação original, estavam manipulando, digamos assim, inquietações – até legítimas – de uma massa que nunca estudou História (tanto por dormir na sala de aula, quanto porque as instituições de ensino não ensinam muito sobre lutas do povo) ou nunca parou para questionar os sistemas econômico e político brasileiros. Quando percebi isso, deixei clara minha posição de que não participaria mais das manifestações e comecei a explicar os meus porquês.

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Poesia de Outrem III

Hoje eu quero contar uma história. Dizem por aí “O Brasil acordou”, em razão às últimas manifestações ocorridas. Eu fico feliz duas vezes: primeiro por ver pessoas saírem da inércia de seus sofás; segundo, e mais importante, por ter o pai que tenho. Um pai que nunca me deixou dormir: Seu Manoel. Ele foi sindicalista, nos anos 60. Não, não era intelectual formado: era um homem do campo. Mas até hoje pensa sobre o mundo melhor do que muitos que saem de uma universidade. E, antes mesmo de eu ler Marx, ele me ensinou o que era justiça social. Lembro como se fosse hoje. Eu tinha uns 14 anos. E passava, por perto da nossa casa, uma Marcha dos Sem-Terra. Ele entrou em casa com uma mamadeira nas mãos e me pediu para fazer um leite. Assim o fiz. O acompanhei de volta à marcha. Uma mãe deu aquela mamadeira a um dos seus filhos; antes que este acabasse, ela tirou dele e deu para o outro. Essa imagem me marcou, mas, mais ainda, me marcaram as palavras do meu pai: “eles não têm leite porque nós temos duas latas em casa”. Fica em mim o desejo e a esperança de que este “acordar” do Brasil traga uma reflexão de que há uma relação estrita entre valores sociais e pessoais. Uma relação de modificações mútuas. E, com vocês, um poema de Bertolt Brecht.

Aos que virão depois de nós – Bertolt Brecht

I

Eu vivo em tempos sombrios.

Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,

uma testa sem rugas é sinal de indiferença.

Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando

falar sobre flores é quase um crime.

Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranquilamente a rua

já está então inacessível aos amigos

que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.

Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço

Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Por acaso estou sendo poupado.

(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!

Fica feliz por teres o que tens!

Mas como é que posso comer e beber,

se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?

se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.

Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:

Manter-se afastado dos problemas do mundo

e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,

pagar o mal com o bem,

não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.

Sabedoria é isso!

Mas eu não consigo agir assim.

É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

Quereres

Ao som de Caetano.

Não queria que você me tivesse percebido por essa maneira de falar quando fico irritada: aponto meu dedo indicador na direção do nariz de quem quer que seja e aumento o tom voz. Horrível; ditatorial. Um péssimo hábito; meu tom de feminista cansada em explicar o óbvio.

Porque esse é o lado que, agora, eu exponho. É o que salta aos olhos.

Não que eu quisesse que você me percebesse pelo emaranhado de teorias nas quais me meti. Ou das quais me fiz. Mas você me viu em meio a tantas citações. E foi no susto dos seus olhos, quando as falei, que percebi que você havia me visto. E não era nelas que eu queria ser encontrada. Não queria que passasse os olhos num rol de títulos de livros, discos e filmes e me descobrisse.

Porque é esse lado que eu, agora, escondo.  Um lado que não me é mais.

Não queria que você pensasse em mim como a garota que usa coturno. Nem como a menina de cachos no cabelo. Nem como mulher de 30 que se passa fácil por uma de 18. Não queria que você me conhecesse pelo meu nariz empinado e por meu sorriso cheio de respostas para tudo.

Afinal esse é o lado que todo mundo vê.

Virgínia Celeste Carvalho

Vamos Foucault? – Parte 1

Escrevi esse texto com fins didáticos, para auxiliar alunos e alunas a lerem pela vez primeira “A Ordem do Discurso”, de Michel Foucault.

Tentemos visualizar: um orador entra em um recinto, onde fará uma palestra. É uma instituição acadêmica com tradição, logo pensamos em uma sala mais ou menos assim: em um canto, como uma espécie de púlpito, poucas cadeiras estão dispostas de frente a muitas outras. Numa dessas poucas, o orador se sentará, ladeado por seus pares. A plateia acomoda-se quando representante da instituição tenciona apresentar o orador. O silêncio se faz. O direito da palavra passa deste representante para o orador. Este começa e, curiosamente, ele vai questionar justamente esse rito de enunciação e as significações sociais desta. Ele é o psicanalista Michel Foucault.

Em “Ordem do discurso” Foucault vai nos falar como as relações de poder estão ligadas às formas discursivas – tanto no que diz respeito à enunciação quanto ao enunciado: não apenas as palavras escolhidas mostram um significado social, mas a própria ordem dos acontecimentos da enunciação – a própria atmosfera que acolhe os enunciados – é permeada por significados. Ele inicia questionando sobre sua própria fala: ele é o orador e representa ali o discurso de uma instituição. Um silêncio, antes que ele começasse a produzir sons, se fez. A solenidade do silêncio já indica o poder dos sons que virão logo após – é como se ele fosse dizer algo, no mínimo, antes nunca dito; ou irrefutável; ou se, refutável, pelo menos digno de atenção. É esse poder a ele mesmo confiado pela instituição – no caso particular, uma instituição de ensino – que ele se propõe questionar.

Neste presente texto, tentarei colocar alguns pontos que julgo importante. Por lembrar, enquanto relia “A Ordem do Discurso”, do poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), resolvi intercalar alguns versos, para explicitar o que me vinha à mente ao ler Foucault.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

(Álvaro de Campos)

Primeiro vamos entender o que Foucault tem por “instituição”. Eu poderia dizer aqui que ela é aquilo que rotula o mundo; que o nomeia; que o define. É aquilo que estabelece os começos discursivos; é de onde a “verdade” parte. Ela é para Foucault o que a tabacaria é para o poeta: real por fora. Pois, para o psicanalista, é-lhe nítida a sensação de que é impossível começar em algum ponto: para Foucault a questão da autoria é muito mais complexa do que a definição de plágio nos diz: antes de nós, aquilo que falamos já era falado. Não só as palavras, mas também as formas dos enunciados já pertenciam a pessoas anteriores a nós. Da mesma forma, as situações enunciativas também já aconteceram antes, em outros momentos. Foucault é ciente disso e, ao desejar que um “outro” aparecesse e iniciasse o discurso, não significa que esse “outro” não exista – significa que “ele” é apagado nas formas dos discursos institucionais.

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Palavras de Outrem II

Só pela metáfora conhecemos. Só por ela unimos a profundeza de nossa experiência às experiências das palavras. Sim, palavras  não são ocas; cada uma possui uma história. Não são vazias, porque experiências de outros lhe preenchem. No entanto, o poeta ou poetisa  as toma para libertá-las de tudo isso e, no mesmo movimento, prendê-las em imagens precisas. Um ângulo ainda não visto.

Nunca poderei dizer sobre a angústia de forma mais bela. Os dias de agulhas perdidas são meus, embora os versos sejam de Paul Éluard (1895-1953).

SEUS OLHOS SEMPRE PUROS – Paul Éluard

Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte
[ dos mares,
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.

Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.

Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, vi-os.

Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu voo a sacudir minha miséria.
Seu voo de estrela e luz,
Seu voo de terra, seu voo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.

Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.

LEURS YEUX TOUJOURS PURS

Jours de lenteur, jours de pluie,
Jours de miroirs brisés e d’aiguilles perdues,
Jours de paupières closes a l’horizon des mers,
D’heures toutes semblables, jours de captivité,

Mon esprit qui brillait encore sur les feuilles
E les fleurs, mon esprit est nu comme l’amour,
L’aurore qu’il oublie lui fait baisser la tête
Et contempler son corps obéissant et vain.

Pourtant, j’ai vu les plus beux yeaux du monde,
Dieux d’argent qui tenaient des saphirs dans
[ leurs mains,
De véritables dieux, des oiseaux dans la terre
E dans l’eau, je les ai vus.

Leus ailes sont les miennes, rien n’existe
Que leur vol qui secoue ma misère,
Leur vol d’étoile e de lumière
Leur vol de terre, leur vol de pierre
Sur les flots de leurs ailes,

Ma pensée soutenue par la vie e la mort.

Tradução: José Paulo Paes