Tão e ainda

Queria dizer-lhe que continuo a mesma.

 

Ainda sonho ser bailarina, só estou adiando para os 60.

Ainda me jogo no chão, esperneando, quando não me dão o que eu quero.

Ainda fico pelos cantos da casa, sozinha, de cabelo assanhado.

Ainda não aprendi a me vestir bem nem tenciono aprender a pentear o cabelo.

Ainda tento me esconder quando vão me apresentar a novas pessoas.

Ainda prefiro comer besteiras à comida de panela.

E ainda me pego coçando o olho, sem lavar as mãos, depois de alisar o gato.

Ainda prefiro ganhar livros a roupas, embora eu já tenha me acostumado a e-books.

Ainda me pergunto sobre o destino das formigas, mesmo não havendo formigueiro no quintal.

Ainda imagino que os postes de alta tensão são robôs gigantes adormecidos à margem da estrada.

Ainda me tremo, pensando que a casa vai desmoronar, quando a chuva vem mais forte.

Ainda não passo pano na casa e jogo as roupas de qualquer jeito no armário.

Ainda prefiro a companhia masculina, porque eu gosto mesmo é de ser mimada.

 

Eu só queria dizer-lhe, na verdade, que não mais desenho  garranchos.

Já há algum tempo, ao invés, eu os escrevo.

Mas ainda me convenço, erroneamente, de que eles tenham algum sentido.

 

Por eu ser ainda tão a mesma

É que me dói quando ele me olha

E parece não me reconhecer.

 

Virgínia Celeste Carvalho

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8 pensamentos sobre “Tão e ainda

  1. Me perguntou uma amiga porque disseram que ela era a mais louca do mundo, e eu só consegui pensar em pequenas coisas aqui e ali, que a fazem ser como é… Vou mandar teu texto pra ela, rs

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