Marcha das Vadias – Recife

Quando refiz o blog, eu disse que não falaria apenas em (forma de) literatura. Parece que finalmente chegou o momento. Ontem, 25 de maio, acompanhei a Marchas das Vadias – Recife pela vez primeira, e me deu vontade de falar um monte sobre o assunto. São tantos pontos que poderiam ser abordados, mas vou me deter em três. E prometo ser breve. Juro.

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1. Nome da Marcha

Antes eu pensava que não compreender a escolha do termo “vadia” para a marcha era apenas questão de má vontade. Mas não. É terrível como a informação ainda não circula em alguns meios e pessoas inteligentes e legais se pegam reproduzindo discursos machistas, pelo simples fato de desconhecer.

Há quem diga, mesmo compreendendo a escolha e/ou dentro do movimento feminista, que é uma má escolha, pela história da palavra, ligada à “moralidade” dúbia. É como se fosse um duplo trabalho de “esvaziar” e “ressignificar” ideologicamente a palavra. Perde-se, dizem, muito tempo explicando a escolha, quando poderíamos escolher outro nome e discutir algo mais frutífero.

Eu gosto da ironia do nome.

Não acho perca de tempo explicar o termo. Talvez, por ser professora das Letras, vejo, nessa discussão, uma maneira contextualizada de explicar o próprio funcionamento social da língua. Signo, ora, é uma arena de lutas de classes, já dizia Bakhtin. Não há signo neutro nem que contenha apenas um significado social. E “vadia” bem ou mal, chama uma atenção enorme. Monte de gente querendo saber os por quês. Gente de má vontade taxando logo como algo ruim; mas iriam taxar de qualquer forma, ou vocês acham que grupos como “Católicas pelo direito de decidir” não são apedrejadas, mesmo com esse nome politicamente correto?

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Vadia é um xingamento que nós, mulheres, ouvimos sempre. Seja lá por qual motivo for: se você quer sexo é vadia; se não quer, também é. Se você é uma adolescente e seus pais são tradicionais, você já ouviu que “a filha da vizinha é uma vadia” ou que você mesma era uma, por ter tido as primeiras experiências sexuais. Quem nunca teve um amigo mais próximo e a namorada/  esposa/ amante não chamou de “vadia”, simplesmente por achar que você estava “dando” em cima do “homem dela” (como se esses termos de posse já não rendessem uma boa discussão)? Sim, parece que fomos educadas para nos xingarmos e sermos rivais. E, mesmo sem conotação sexual, somos vadias: no trânsito; nos empregos, na família… Certamente muitas mulheres que apanham dos maridos, pais, irmãos devem ouvir isso. Se ser vadia é não se encaixar nesses parâmetros comportamentais tão estreitos e negar o que se é, somos todas vadias.

 

2. Estupro

Um dos pontos que a Marcha coloca e que mais acho importante de se fazer ouvir é o estupro. Temos que ser didáticas, é o que penso. Só assim para falar nessa questão sem soltar um ou dois palavrões, nem mandar ninguém – que soltou um comentário fazendo apologia a ele – para um lugar bem feio. Sim, porque a primeira reação que dá ao ouvir alguém dizer “ela tava querendo” não é uma reação muito educada. Que tipo de pessoa confunde sexo e estupro?

Não tenho como falar disso sem exemplificar. Dia desses estava conversando com um homem, “branco”, professor de uma faculdade, deve ter seus 25 anos. E ele começou a contar um caso de um “pobre homem” que foi vítima de uma mulher fatal. Ela tinha 13 anos. O professor disse: ela é nova, mas tem corpo de “mulher” (perguntei-lhe se ela era culpada pelo corpo que tem; para uma pessoa razoável, acho que esse já era um argumento para ele pensar, né? mas não, continuou falando). Ela pulava o muro para transar com ele. O “pobre homem” não tinha escolhas, ora! Foi coagido pela mulher de 13 anos. Depois, ela, mostrando maturidade, foi à delegacia, dizer que “ela queria”. Apesar de tudo isso, o “coitado do homem” estava preso! Que lei é essa, que prende homens que são vítimas de mulheres de 13 anos? Não preciso dizer que meu estômago revirava, revirava. Eu queria vomitar em cima daquele homem, branco, professor. Lembrei que estava, digamos assim, num local de trabalho e tentei explicar didaticamente (mas acho que não consegui) para ele: 1) ela não é culpada pelo corpo; 2) crianças e adolescentes não podem ser culpabilizadas pelos seus atos porque não são ainda capazes de abstrair todas as implicações deles; 3) adultos devem ser responsabilizados pelos seus atos; 4) se muitas mulheres são coagidas a não prestarem queixas ou omitir/mentir em seus depoimentos por medo, por não terem opções de vida, por questões culturais de se sentirem culpadas pelo seu corpo, imagina o que acontece a uma adolescente? Enfim, eu tentei.

 É certo que esse tema tem sido um dos pontos de divisa entre amigos e “pessoas que, infelizmente, preciso conviver”. Não dá pra ser amiga de alguém que perpetua a cultura do estupro.

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E não fosse apenas essa imagem de “meu corpo é culpado”, que já seria motivo suficiente para lutarmos contra, a cultura do estupro é esconde feridas sociais bem purulentas. Primeiro porque a imagem que se tem comumente do estuprador é “maníaco psicopata que espera você em uma esquina escura”. E isso é bem problemático. Primeiro porque esconde o estupro que acontece nas casas, nas famílias: companheiros, pais, irmãos, padrastos, tios, em resumo, pessoas que a vítima confiava e/ou dependia. Nessas horas a dicotomia “marcha das vadias” x “marcha pela família” é tão feliz: que família é essa que você está saindo pra defender? A que não faz denúncias por medo ou para manter aparências? Ou ainda por falta de informação, por falta de condições sociais? A família que, ao invés de proteger, agride?

E essa coisa da “esquina escura”? É um mundo no qual você não pode andar por onde quiser (e às vezes precisa) em que você quer morar?  Esse mundo de muros e, logo, de esquinas e sombras? Você realmente está satisfeita com isso? Nós, que somos contra esse discurso, não. Não vou colocar aqui “cadê a segurança pública? Acorda, Brasil!”, falar isso seria como apagar a grande questão que é a divisão social da cidade e sua arquitetura. Porque nenhum preconceito vem sozinho, não é? Estávamos falando de preconceito com o corpo e veja aonde chegamos: quem habita as esquinas escuras? Pessoas marginalizadas. Ano passado trabalhei à noite, bem distante de casa e me peguei com muito medo de passar em determinados trechos. Gente, não podemos ter um discurso social que incite medo nas pessoas; que dividam ainda mais as pessoas em grupos sociais que não podem coabitar nos mesmos espaços da cidade. Estupro é um crime que acontece em ruas e dentro de casa. Na escuridão de uma praça mal iluminada e na luz de algumas igrejas. Pode ser cometido tanto por pessoas marginalizadas quanto por pessoas “de bem” (que nojo desse “de bem”).

3. E o que minha barriga tem a ver com isso?

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Nunca pensei que escolher algo para pintar na barriga fosse me trazer dúvidas. “Vadia livre”? “Meu corpo, minhas regras”? “Aborto legal”? Embora todas fossem opções válidas, eu queria algo mais eu. Explico o porquê. O feminismo não é um discurso uno – unicidade até fere, de certa forma, a ideia de liberdade. Claro que devemos buscar a coerência e nos aprofundarmos na ideia da liberdade e reconhecimento da mulher como ser que pensa e atua, apta a fazer suas escolhas.

Por exemplo, minha amiga Marina Maria está ligada a grupos feministas que lutam por direitos ao parto humanizado. Para que a mulher seja agente no trabalho do parto e não apenas “paciente”; que haja informação correta para que possa haver escolha. Informações, e não discursos médicos que, por vezes, estão mais preocupados com o plano de saúde do que com a mulher. Apesar de eu procurar escutá-la para aprender e repassar a informação adiante, esse discurso não faz parte da minha experiência.

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A própria Marina quem me deu a dica do que pintar na barriga: “no kids”. Ela, que é supermãezona, sabe que minha angústia é outra. Para mim foi muito angustiante decidir dividir minha vida com outra pessoa e logo ser bombardeada de questões como “quando os filhos vêm?”. Se antes era “esperem pelo casamento, viu?”, depois foi “o bebê está demorando, hein?”. É como se nós nunca nos libertássemos daquele olhar da família sobre a adolescente: medo de ela ficar grávida. Depois tem todo aquele discurso de: case, compre uma casa, um carro e tenha um filho.

Passei muitas situações bizarras e até constrangedoras, por parte de família e por parte de gente que nem conheço! Quando eu estava chegando aos 30 anos, minhas duas irmãs mais velhas – aquelas que nunca falaram comigo sobre sexo, sabe? – vieram com aquele papo de “gravidez nos 30 é perigosa, tenha logo!”. Por parte da família do meu companheiro é que lascou. Cobranças por todo lado. Cobranças. Dia desses fui a um mercadinho perto de casa e a mulher que estava no caixa me encheu de questões sobre filhos.

“No kids”, porque não quero ser cobrada pela família. “No kids”, porque meus alunos e alunas perguntam se tenho filhos e, quando digo que não, acham estranho, ou pior: que detesto crianças. “No Kids”, porque dia desses disseram “Tua mulher não é normal” (quando ‘anormal’ para mim é o uso da palavra ‘normal’). “No kids”, porque o útero é meu e ninguém deveria dar palpite – é chato ter que repetir o óbvio, não é?

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Tantos pontos que ficaram para serem explicitados… quem sabe outro dia? mas bem melhor do que eu falando sobre feminismo, é o blog da Lola Aronovich. Escreva Lola Escreva. Passa Lá!

Virgínia Celeste Carvalho

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14 pensamentos sobre “Marcha das Vadias – Recife

  1. Chocante, fiquei admirado com sua coragem e dessas mulheres que protestam por uma sociedade mais “sã”. Loucura julgar o estilo de vida de outra pessoa por ser diferente do seu no caso de ser casado sem filhos. Existe um script de familia-do bem-crista-feliz?
    E loucura tambem o estupro, e fazer da vitima culpada. Não devem mesmo se envergonharem sair as ruas, se reunirem e chamar a sanidade todo mundo. Vadias vocês perderam o juízo?
    Não… Quem perdeu o juízo fomos nos.
    Parabéns.

  2. Também não quero ter filhos, Vivi, e como homem também sofro disso, como se eu fosse menos “macho”, pois não casei, não comprei casa, nem carro – e sobretudo, não tive filhos. Como me olham atravessado por ter muito tempo livre e não sair desenfreadamente à procura de mulheres e se, por acaso, estiver namorando, ser monogâmico. “Mas tu és professor, não é possível que nenhuma aluna te dê bola”. Primeiro que sou professor de adolescentes, e mesmo que uma me desse bola, eu a mandaria procurar alguém da idade dela, é a base do respeito que tenho por elas antes de elas serem minhas alunas, poderiam ser minhas filhas, mas sobretudo pelo que elas são, simplesmente – adolescentes que têm de viver como tal. Já vi muitos jovens professores dizendo – em tom jocoso – que um dos motivos para terem entrado no magistério, pasmem, foi a possibilidade de pegar uma “novinha”.
    É claro que tenho gastrite.

    • afffff. o horror, o horror.
      já ouvi em um curso onde lecionei, um professor menosprezando uma aluna porque teria “dado em cima dele”. Ele falava com um “nojo” tão grande da sexualidade dela… gosto nem de lembrar.

  3. O mais fofis de tudo é ver vc abraçando a causa. Lembro de uma conversq que tivemos no restaurante do CAC qdo ainda estavamos na graduaçao. Naquele época eu ja estudava genero e coisas do tipo…vc dizia que era bobagem e q eu via o feminismo com olhos ingenuos. Hj vc viu que infelizmente a gente ainda precisa falar sobre as mesmas coisas de sempre.

    • miga, muita coisa mudou desde a graduação. mas a insatisfação com algumas colocações feitas por pessoas ligadas ao feminismo continua: muitos discursos sem uma ligação com um todo social. Mas esse post foi para celebrar. Depois farei um com críticas. rs.

  4. Muito bom o artigo da moça, especialmente sobre a questão do estupro. Uma ponderação, apenas, principalmente por ser ela professora de Letras e dar, corretamente, grande valor ao significado das palavras. “Vadia” não está incorporado ao nosso léxico no sentido atribuído no texto. Vadia/o é quem não trabalha. Claro que tem sentido pejorativo também. Mas não o que foi usado na marcha. Vadia, nessa acepção, é importação norte-americana (ou pelo menos das traduções dos filmes americanos). Aqui, se usa puta, quenga, mulher perdida, rapariga e por aí vai.Ressalto por um motivo mais abrangente: embora seja positivo se espelhar em movimentos similares no resto do mundo, certas “importações” de conceito são problemáticas.

    • Olá, Homero, primeiro obrigada pela visita. E pela contribuição.
      Sim, há esse diálogo com o termo “slut”, traduzido para o “vadia”… mas se escolheram essa palavra para tradução, é porque já havia nela um “sema” ligado à postura da sexualidade feminina. Pelo menos é assim que eu vejo. Como o Brasil é muito grande, creio que esse termo é apropriado… mas se a marcha fosse apenas pernambucana, ah, adoraria ver uma “marcha das quengas”. 🙂

  5. Você lida tão bem com a prosa como com a poesia. Penso que também muitas pessoas ficam chocadas com o nome “marcha das vadias” porque só aprenderam a respeitar a mulher que não é vadia. A “vadia” merece agressões, insultos, ser tratada como coisa porque escolheu uma forma de usufruir de seu corpo fora do casamento e da maternidade, os únicos ofícios que a cultura judaico-cristã outorgou à mulher para ser tratada com deferência. Então lhe adjetivaram negativamente. Formas políticas e econômicas mudam rapidamente, mas mentalidades são de longa duração. Parabéns pelo texto, Virgínia, muito legal.

    • obrigada, Bertone. Olhe, vindo de alguém que escreve artigos como você escreve, vou até acreditar. rs.
      Sim, infelizmente muita gente ainda se espanta, por falta de se questionar. Os que tem má-vontade, bem, sequer vão querer saber.

  6. “Vestido preto e boca fechada: faz toda mulher parecer – dotada.” (Nietzsche) “A mulher inteligente se defende com unhas e dentes contra qualquer forma de feminismo” (Nietzsche) Mas, não fazem mais Carlotas como antigamente… não é, meu amigo Geothe?

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