Chá Amargo

O mais legal da vida é conhecer pessoas legais. Esse conto vai para Lola, personagem criada por Priscilla Pinheiro. Ao som da Janis.

O chá amargo desce e recompõe. Então ela remexe a xícara, assanhando o restinho de pó, que já havia assentado.

Ela pensa no que viveu e pensa que ele não foi mais uma transa, em que ela acenderia um cigarro em meio ao abotoar da blusa e sairia rapidamente. Dizendo “te ligo” e sabendo que isso nunca viria a acontecer. Porque ele era assim, um caso à parte.

Caso a se pensar, sentir, saborear. Não apenas se entregar a uma convulsão de espermas e outros registros sexuais. E se ele não telefonar? Porque ele disse “eu te ligo”, e ela disse “não, não, eu ligo”, mas ele garantiu que telefonaria. E agora o aparelho está lá, em repouso, sem vibração de chamadas, sem toque de mp3, sem a tela piscando, piscando, piscando.

Como a tela não piscou, decidiu sair. Pegou um táxi e, dez minutos depois, espantou o motorista quando pediu parada. “Moça, não é melhor atravessar a ponte?”. Ela sorriu, pagou com uma nota de 20 e se mandou. Parou no meio da ponte. Parecia ser o único lugar de clima agradável naquela cidade infernal. A noite tomava o mar e o céu para si; mar, céu e rio pareciam um espaço único. Acendeu um cigarro e quis morar ali.

Mas a ponte já era habitada por figuras sem nome. Pensou um pouco no destino de cada um deles. Quais histórias desembocam no mendigar? Sentiu vontade de acordá-los e perguntar-lhes. Desistiu. Será que tinha a ver em não telefonar na hora certa? Perguntou para si e seguiu as luzes e sons que vinham do outro lado.

Era noite de chorinho. Sentou num bar e pediu um drink. E pediu outro. E outro. E se pôs a dançar e a lançar olhares pro moço sentado no meio fio; pro tio que tocava flauta; pro garçom que lhe trouxe mais um drink. Grátis até. Bebeu de vez, agradecida, e foi quando viu que havia um cara de covinha no queixo lhe dando sopa. Aquela blusa com o rosto da Janis estampado só poderia ser um convite…

“Não apaga a luz, senão quem apaga sou eu”. Foi o que ela disse antes de. Ela não gostava de sexo de luzes apagadas. Gostava de holofotes e espetáculos. Mas porque o cara ensaiou desligar a luz, metade do tesão se desfez. Para a outra metade não se esvair, decidiu fechar os olhos e abrir as pernas, porém, antes, ainda olhou para seu telefone estático, em cima da mesinha de cabeceira, uma última vez.

Já ia se levantando e abotoando a blusa e acendendo um cigarro, quando lembrou que o apartamento era dela. Agora restava colocar o sapo para fora. E fazer um chá.

Então ela remexe a xícara, assanhando o restinho de pó, que já havia assentado.

Virgínia Celeste Carvalho

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