Olhos meninos

 

Estes são dias de olhos cerrados. E me lembro. Eu saía correndo louca sob a chuva. Eu, pastora dos ventos, e te assanhava o cabelo. E te arranhava a pele. E te fazia luas. E eras menino. Olhos bem abertos de menino, talvez tolo, talvez ágil, sempre curioso, sempre eu.

Estes são dias de desencontro, mesmo que o encontro nunca tenha sido bem definido. Porque somos cegos. Porque, talvez, não queremos ver. Porque sou outra, sendo a mesma; mas essa outra é sempre inexata e inacabada. Insone. Não preparada, finjo que me calo, que me enterro, que me esqueço. Mas não esqueço. Eu desenho estrelas no chão, até que elas brilham e entregam meu esconderijo. Não fujo. Sou eu.

São dias de medir palavras e isso me consome. Primeiro, os lábios não se acasalam em palavras, murchos, estáticos; sem estalos; sem músculos. Depois, as mãos que não sabem palavras, certamente analfabetas de ti, enrijecidas talvez. Só me resta, então, reabrir os olhos como quem canta; olhos como quem poetiza. Eu apenas olho como quem quer.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s