Sobre teu romance. Ou a minha versão do fim.

Não considero esse texto original. Calma, também não é plágio. É um texto-homenagem que fiz para um dos romances que mais gostei ultimamente. Eu gostaria que o mundo tivesse a felicidade de lê-lo. Espero que  seja publicado, Alisson da Hora.

“À Liberdade!”, alguém exorta. “À Liberdade!”, o aglomerado de pessoas responde. Menos eu. Eu estou inexpressiva, como sempre. Encostada eu estava num resto de parede cinza. Encostada estou, com teu livro aberto repousado em minhas coxas, enquanto as pessoas se movem, todas estranhas para mim. Algumas até parecem cavalinhos de carrossel, movendo-se em círculos.

 Arabela é o nome do livro.

Não faz frio, embora vente muito e meu casaco esteja meio molhado. Mas eu aprecio o molhado. Hoje é apreciado qualquer ato de subversão. E fazia quanto tempo sem chover? Seis, oito meses? Nesta manhã, as poças que se formam é a subversão tomando contorno. Pelo menos é o que os oradores gritam agora. No momento, eu apenas não me importo em estar molhada, e me sinto viva por conseguir uma garrafa de uísque depois de tanto tempo.

Até um copo me conseguiram. Rodo o dedo no uísque, como se tivesse gelo nele, e até esqueço por que estávamos ali. Liberdade… penso. Os dias têm se passado em alvoroço desde que a República caíra e nos refugiamos em cacos de cidades bombardeadas. “Viva à República!”, alguém grita em esperança e eu acho antiquada a saudação. Já é a ressaca? Depois de meses sem beber álcool… Mas eu estou aqui, meio me perguntando por que droga aqui estou. “Normal”, tu dirias se estivesses aqui. Aqui, antes, havia árvores e, ao lado daqui, o prédio dos suicidas. “Normal”, tudo te era normal, meu irmão. “E onde mais você poderia estar?”. Acredite que posso ouvir tua voz me perguntando.

Os Exortadores da Liberdade, como se nomeiam, tentam reunir os sobreviventes, antes que não-sei-mais-o-quê aconteça. O que haveria de acontecer? Os aliens não chegaram, ninguém se tornou morto-vivo, as corporações não fizeram downloads de nossas memórias em outros corpos nem Arabela tinha razão: Recife não imergiu de vez e para sempre em água. Todos os nossos estudos sobre ficção deveriam ter se resumido a: ficcionalizamos o “futuro” porque a vida caminha chata e enfadonha, mesmo com toda guerra, com toda merda e com toda fome.

Os Exortadores tentam fazer com que voltemos a pensar como, algumas décadas antes, as pessoas pensavam. Não a dos nossos pais, que nos levou à queda da República e aos bombardeios e às pessoas mutiladas por todos os cantos e a toda essa poeira. Talvez antes mesmo de nossos avôs. Antes. Gerações anteriores deixaram de sonhar e agora estamos aqui, ou melhor, estão aqui, e acham que sonham. Porque eu estou aqui, mas atônita. “Não posso sonhar mais”, é o que penso. Só lembro que me uni ao grupo por um problema de comida, de roupas e de crases. Sim, de crases. “Viva a liberdade”, assim, descraseado, me parecia um panfleto mais sincero. E eis que me peguei depois sabendo que a intenção era craseada. Dane-se, pensei no momento. Afinal, eu precisava de comida. E, olha, cheguei até a ter uísque, não é mesmo?

Uma gota de água respinga em Arabela. Irônico.

Deixo-me levar por essa onda desde então. Lembro que, antes da Queda, eu tinha medo de morrer afogada e agora isso se torna simbólico porque a depressão não me deixa mais dar braçadas e meus músculos se enrijecem. “Vou afundar”, deixo escapar nesta manhã e o bêbado ao lado escuta meu desabafo e diz alguma coisa como “que é isso, companheiro?”. Olho-o. Conheço-o. Até ontem eu jurava que ele havia cometido suicídio. Fico o encarando meio incrédula e ainda chego a ensaiar um “fale comigo no feminino na próxima vez”. Mas ele começa a proclamar “A burguesia rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia…” e nem me digno a escutar toda a oração de palavras arcaicas. Me levanto quase derrubando Arabela no chão. O até então suicida-para-mim continua a recitar e a geral para o que está fazendo para escutar. Certamente decorou, ensaiando em frente a um caco de espelho. Ou em frente aos pares exortadores: todos espelhos. Apenas respondo-lhe jogando o resto do uísque já quente em seu rosto e ele ri. Todos riem. Afasto-me da parede e tento atravessar a pequena multidão que se formou em frente ao prédio, onde um dia funcionara a Escola de Arte. Hoje parece um molar cariado. E não me critiques: se tu pudesses, também estaria aqui.

Viva à Arte! Viva! E eu vomito.

De cabeça baixa, vejo que é um sapato já gasto e, agora, vomitado. Levanto para ver a quem pertencia. Quase desmaio. Mas ele me segura. Uma cara branca, já conhecida de algumas manifestações. Temos um amigo em comum. Ou tivemos. “Desculpa”, digo com a boca meio azeda. “Não desmaia!”. Ainda escuto, mas não consigo responder.

Acordo com o som de granada explodindo perto do jipe. Não estou bem certa, porém creio que escuto barulho de hélices ao longe. Isso nunca é um bom sinal. Enquanto desmaiada (ou dormindo de propósito?), sonhei que eu te questionava sobre os gatos em Arabela. O que acontecera a eles? Foram todos levados pela correnteza? Meus pensamentos são sacolejados porque o motorista enfiou o jipe num buraco. Abro os olhos e vejo que o céu está novamente azul, sem mancha alguma de nuvem. O sol já apagou os rastros de chuva no resto de asfalto. Para onde vamos? Pergunto. “Para minha casa”. O rapaz de cara branca responde. Com a cabeça no colo de uma mulher simpática, que também conheço da outra Era, eu estava deitada no jipe, de modo torto. Já doem minhas costas e ensaio levantar-me. Minha cabeça roda e decido ficar assim, torta. Chegamos num prédio. Vamos subir nisso? Acredito que os dois pensaram que fiz a pergunta ao vento, pois ninguém se dignou a me responder.

A sensação de medo me preenche. O prédio parece a Torre de Pizza, se é que ela ainda existe. Abraço Arabela contra o peito, como se te abraçasse. O rapaz de cara branca e a mulher simpática adentram pelo que deveria ser uma porta de vidro. Deveria porque só a armação resta, torta que nem minha coluna. Só agora noto que ambos estão armados. Ele com pinta de cowboy; ela de Tomb Raider. Endoidaram, penso. “Endoidamos”, a mulher com cara feliz fala, como se ouvisse meus pensamentos. Retenho meu passo por um segundo, mas, como eles também eram teus amigos, sigo. O som de hélices parece dar meia volta. O que há para temer?

Cada degrau me parece mais um obstáculo olímpico. O prédio parece ter implodido por dentro e só sua casca ficou em pé. Sorrio, porque lembro que certa vez tive uma amiga arquiteta. Ela pegava seu celular para saber a direção do Norte. E falaria onde a janela deveria estar. Ela acertaria o ângulo em que o sol nasceria no inverno, para esquentar a casa. E discursaria como a cidade deveria ser preenchida por gente e cores e rosas e árvores e não por carros e paredes brancas. A cidade-prisão, concluiria. “Nesse andar” — é o que o rapaz fala e retorno a mim, ao presente.

Mais explosões; e o resto do prédio treme. Devemos estar no que deveria ser o 8º piso e sempre penso que, após a Queda, adicionei acrofobia ao que sou. Me vem a certeza de que não é minha imaginação: helicópteros estão por perto e engulo seco. Escalo alguns escombros para sair escadaria e entro numa sala. Contra a luz do impiedoso sol recifense, alguém está sentado, com as pernas pendendo no vazio de uma janela. Tremo só de pensar. Dou mais uns passos e só agora me dou conta de que a pessoa é…

— Que merda é essa? — grito e avançando contra ti. Te viras e jogo Arabela no teu peito. — Você deveria estar morto!

Tu te levantas. Contenho meu passo, com medo de que caias e morras de vez. O rapaz e a mulher começam a se atracar sexualmente no canto direito da sala, sem muito interesse em meu grito.

— Toda a vida é um repeteco, minha cara. Como eu poderia morrer só?

E tu estendes a mão. E vejo um helicóptero se alinhando à nossa altura. E me pego dando passos em tua direção. Pego na tua mão e, no helicóptero, alguém pega uma arma de grande porte. Te escuto dizer “até a outra vida” antes do barulho do fim.

Virgínia Celeste Carvalho

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