Intertexto

 

A Ascenso Ferreira

 

Por três vezes, as andorinhas

Revoaram…

Por três vezes, as folhas

Renovaram…

E por te esperar ao sol da primavera,

Tostei.

(2002)

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Escrevi esse poema para Ascenso Ferreira (1895 – 1965), poeta da minha terra natal, Palmares – PE.  Segue  “Adeus, eu voltarei ao sol da primavera”, poema de sua fase parnasiana.

ADEUS! EU VOLTAREI AO SOL DA PRIMAVERA     

 

Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!

E a tua boca em flor à minha boca unindo

Murmuraste baixinho: “O amor que em nós impera.

Nos permite encarar esta ausência sorrindo…

 

Adeus. Eu voltarei logo que seja findo

O inverno… Ficará meu coração! Espera…

E estendendo-me a mão formosa em gesto lindo,

“Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!

 

Três vezes pelo azul as andorinhas voaram!

Três vezes do arvoredo as folhas renovaram

Como nos corações se renova a quimera…

 

E, embora não cumprida a jura que fizeste,

Inda escuto no ouvido a frase que disseste:

“Adeus! Eu voltarei ao sol da Primavera!

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Tão e ainda

Queria dizer-lhe que continuo a mesma.

 

Ainda sonho ser bailarina, só estou adiando para os 60.

Ainda me jogo no chão, esperneando, quando não me dão o que eu quero.

Ainda fico pelos cantos da casa, sozinha, de cabelo assanhado.

Ainda não aprendi a me vestir bem nem tenciono aprender a pentear o cabelo.

Ainda tento me esconder quando vão me apresentar a novas pessoas.

Ainda prefiro comer besteiras à comida de panela.

E ainda me pego coçando o olho, sem lavar as mãos, depois de alisar o gato.

Ainda prefiro ganhar livros a roupas, embora eu já tenha me acostumado a e-books.

Ainda me pergunto sobre o destino das formigas, mesmo não havendo formigueiro no quintal.

Ainda imagino que os postes de alta tensão são robôs gigantes adormecidos à margem da estrada.

Ainda me tremo, pensando que a casa vai desmoronar, quando a chuva vem mais forte.

Ainda não passo pano na casa e jogo as roupas de qualquer jeito no armário.

Ainda prefiro a companhia masculina, porque eu gosto mesmo é de ser mimada.

 

Eu só queria dizer-lhe, na verdade, que não mais desenho  garranchos.

Já há algum tempo, ao invés, eu os escrevo.

Mas ainda me convenço, erroneamente, de que eles tenham algum sentido.

 

Por eu ser ainda tão a mesma

É que me dói quando ele me olha

E parece não me reconhecer.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Palavras de outrem I

Bons poemas sempre me calam. Uma quase vontade de não mais escrever. Receio de ser medíocre? Talvez. Desejo incontido e insaciável de ser a última palavra? Quem dera! Mas bons poemas não têm dono, apesar de os direitos autorais dizerem o contrário. Bons poemas passam a ser seus quando você os recita em voz alta, em meio à chuva que se intensifica, quando todos abrem os guarda-chuvas e você entrega o seu a uma jovem mãe com criança de colo.

Todo poema traz em si uma raiva incontida por ser apenas palavra. Raiva boba, poema! Injustificada. Todos nós somos apenas palavras: umas palavras-criança, outras palavras-medo e até palavras-ousadia. Mas ainda são apenas discurso, imagem do paradoxo: eternas e efêmeras.

Essa seção é dedica aos meus poemas não escritos por mim. Um duplo do “eu e do outro”. Na estreia dessa seção, o poeta Vilmar Carvalho.

 

Incorpóreo Sorriso (Poema IV) – Vilmar Carvalho

 

Um sorriso não tem lábio, é sorriso incorpóreo!
A nuvem da mensagem rasgada pelo barco
que singrou e sangrou o diário
deixado ali às margens do oceano do rosto…

Umas letras desse diário são de fogo e gelo,
queimam e congelam as pontas dos dedos…
Sob as palavras deixadas em metáforas,
não há nada que não seja sensual e confuso:

Dela, o sorriso não tem lábio, é poço escuro!

Mas, desfigurada pela melancolia feminina,
e carregado, pelo hipertexto, seu rastro,
transformava o desejo a lâmpada do poema
que acendia o palor de joelhos e braços…

Como se um arco de contas de cristal caísse,
numa volúpia de afastar o arremate dos olhos…
O sorriso ganhava um poço, um mergulho,
um beijo e umas lástimas que sempre
falavam de abandono!

…….
In: Ocidente Tardio (2012), Vilmar Antônio Carvalho

Marcha das Vadias – Recife

Quando refiz o blog, eu disse que não falaria apenas em (forma de) literatura. Parece que finalmente chegou o momento. Ontem, 25 de maio, acompanhei a Marchas das Vadias – Recife pela vez primeira, e me deu vontade de falar um monte sobre o assunto. São tantos pontos que poderiam ser abordados, mas vou me deter em três. E prometo ser breve. Juro.

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1. Nome da Marcha

Antes eu pensava que não compreender a escolha do termo “vadia” para a marcha era apenas questão de má vontade. Mas não. É terrível como a informação ainda não circula em alguns meios e pessoas inteligentes e legais se pegam reproduzindo discursos machistas, pelo simples fato de desconhecer.

Há quem diga, mesmo compreendendo a escolha e/ou dentro do movimento feminista, que é uma má escolha, pela história da palavra, ligada à “moralidade” dúbia. É como se fosse um duplo trabalho de “esvaziar” e “ressignificar” ideologicamente a palavra. Perde-se, dizem, muito tempo explicando a escolha, quando poderíamos escolher outro nome e discutir algo mais frutífero.

Eu gosto da ironia do nome.

Não acho perca de tempo explicar o termo. Talvez, por ser professora das Letras, vejo, nessa discussão, uma maneira contextualizada de explicar o próprio funcionamento social da língua. Signo, ora, é uma arena de lutas de classes, já dizia Bakhtin. Não há signo neutro nem que contenha apenas um significado social. E “vadia” bem ou mal, chama uma atenção enorme. Monte de gente querendo saber os por quês. Gente de má vontade taxando logo como algo ruim; mas iriam taxar de qualquer forma, ou vocês acham que grupos como “Católicas pelo direito de decidir” não são apedrejadas, mesmo com esse nome politicamente correto?

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Vadia é um xingamento que nós, mulheres, ouvimos sempre. Seja lá por qual motivo for: se você quer sexo é vadia; se não quer, também é. Se você é uma adolescente e seus pais são tradicionais, você já ouviu que “a filha da vizinha é uma vadia” ou que você mesma era uma, por ter tido as primeiras experiências sexuais. Quem nunca teve um amigo mais próximo e a namorada/  esposa/ amante não chamou de “vadia”, simplesmente por achar que você estava “dando” em cima do “homem dela” (como se esses termos de posse já não rendessem uma boa discussão)? Sim, parece que fomos educadas para nos xingarmos e sermos rivais. E, mesmo sem conotação sexual, somos vadias: no trânsito; nos empregos, na família… Certamente muitas mulheres que apanham dos maridos, pais, irmãos devem ouvir isso. Se ser vadia é não se encaixar nesses parâmetros comportamentais tão estreitos e negar o que se é, somos todas vadias.

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Um homem

“As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir.” – Mia Couto

 

Ele é um homem.

Não estou dizendo aqui

Que haja maneira engessada de ser homem.

Ou que seja melhor ser homem.

Mas ele não é um menino.

Tampouco garoto.

É um homem feito,

De barba nem sempre feita.

 

Ele é um homem.

E homem, aqui, não é generalização de humanidade.

Além de humano, ele é homem,

Com seus pelos no peito

E suas mãos curiosas de homem,

Cuidadosas de homem.

Mãos de homem que sabem despir

E, acima de tudo, vestir.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Estrelas

A Paloma Santos, porque tem saudades que são boas de sentir.

Era assim: duas estrelas no céu. Uma parecia fixa, bem no meio do céu; a outra parecia repousar, no que meus olhos chamam de horizonte. Eu, imersa na estrada, esquecia um pouco de mim, traçando uma linha imaginária entre as duas. E, numa curva, a imagem poética se fez. De onde eu estava, vi se formar uma imagem de um compasso.

As estrelas e o ônibus, alinhados, desenhando o círculo perfeito.

Quando o momento passou e o ângulo preciso se desfez, desejei que você estivesse lá. Na poltrona ao lado. Eu teria te mostrado a perfeição do instante… Depois lembro que não. Se estivéssemos juntas, estaríamos conversando sobre letras ou barbas, e perderíamos o instante das estrelas.

A distância também tem suas belezas.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Metades

A Kirlian, a parte invariável em mim.

 

Só escrevendo

Percebo de quantos mundos somos feitos.

 

Por exemplo:

Há uma parte de mim que é sempre estrada.

Parte-palavra,

Que é sempre mais muro que ponte;

Que é sempre mais esconderijo que libertação.

Talvez seja por isso que os olhos

Ligeiros do mundo me digam tanto.

 

A outra parte, no entanto,

É, de pousadas,  feita.

E, nessas horas,

Apenas teus ombros se sobressaem.

 

Virgínia Celeste Carvalho