Afasia

Eu poderia ser mais clara, mas se teus olhos não veem é porque o tempo das pontes se fora: somos ilhas imersas em nevoeiro. E, sem mãos, sequer podemos remar até a outra margem. Somos corpos náufragos, sem algum fôlego, entretanto ainda lúcidos e com vida.

Poderia ser mais claro, se eu desenhasse. Até ergo meu braço e crio formas na espessa névoa. Formas de um lábio, um tanto decaído: um lábio de adeus. O mistério está em eu partir antes mesmo do aceno de encontro. Como se, de avistar a terra firme, eu apenas vivesse.

Mais claro seria se este céu se vestisse com meu nome e nele respingássemos nuvens pálidas nas formas do teu. Embora eu procure no infinito o manto azul desejado, o tecido se despetala e só nos resta aquela cortina negra e mofada de cinema antigo.

Mais claro não será porque não existe a fôrma exata em que eu possa definir os teus sentidos em mim.

 

Virgínia Celeste Carvalho

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