amores nerds (episódio I)

A Paloma Santos

— Você deveria tentar esse.

Eu me virei. A livraria, incrivelmente, estava lotada. Era noite de autógrafos de uma escritorazinha vendida pela imprensa como “a nova face das letras”. Muitas tiazonas e alguns manés, que nunca iam a uma livraria, estavam ali para pegar um autógrafo, só porque da entrevista que saíra no jornal da manhã. Algumas crianças, alegres pela oportunidade de sentarem no chão e comerem livros enquanto as mães suavam na fila, estavam aos meus pés. Tive que me virar com cuidado, para não pisar em alguma.

— Esse eu já li. Queria achar o segundo volume já esgotado.

Eu estava segurando uma HQ de horror psicológico. Ele, entre um sorriso meio abobado, meio espertinho, oferecia-me o quinto volume de outra série em quadrinhos, de um autor rival. Lembro a capa: um emaranhado de rostos que formavam um novo rosto. O rosto estava sério. Não havia esperanças.

— Não há esperanças. — eu deixei escapar.

— Como?

— Não há esperanças de conseguir o segundo volume.

— Ah, relaxa, eu conheço alguns sites de troca. Se você quiser te coloco na lista H-BR.

— Mas eu estou nessa lista. Meu nick é R2-D2! E o seu?

— Caraca! Sempre pensei que o R2-D2 fosse um homem! E era você o tempo todo!

Machista, pensei. Respirei e me repeti que era apenas questão de não demonstrar nenhuma alteração de humor, inventar uma desculpa e sair da livraria. Nunca mais eu o veria. Mas, por outro lado, ele agora sabia meu nick. Isso, sim, era um problema.

— Sim, era eu. Algum problema?

— Nada. É só estranho achar uma garota mais nerd que eu. Eu sou o Mattman.

Mattman. Tem 22 anos. Melhor filme The Lord of the Rings. Joga RPG e seu programa preferido às quintas à noite é jogar Halo. Vive se gabando do supercomputador que roda todos os jogos e das conquistas do X-box. Não joga Wii porque não é jogo para nerd. Estuda teoria de jogos e já escreveu uns contos fantasiosos que, inclusive, eu detestei.

— Mattman? Você deve participar bem pouco, não é? Eu não lembro.

Ele recuou, moralmente, um pouco. Meio que disfarçou um olhar desapontado, mas riu depois. Hoje eu sei que era o sorriso mais lindo que eu veria, mas no momento apenas fiquei feliz por desarmá-lo. Ninguém acha que mulheres só podem ser semi-nerds e sai impune. Não mesmo.

— Oa, eu já tô indo. Boa procura pela segunda edição. Eu passo o endereço do site de troca e vendas de HQ´s antigas pela lista.

— Ah, cara, valeu!

Ele se foi. Eu continuei a ler, imersa entre crianças que sujavam as páginas dos livros com meleca do nariz.

(continua, ou não)

Virgínia Celeste Carvalho

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6 pensamentos sobre “amores nerds (episódio I)

    • sabe que eu acho os diálogos a parte mais difícil de escrever num texto? eu reescrevi tanto esse texto… apesar de ter a ideia da continuação, talvez demore por isso…

      obrigada e vou escrever os outros sim 🙂

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