Amor

Esse texto difere dos que geralmente escrevo. Ele nasceu de uma cena meio “bela adormecida” em um jogo de RPG que narrei há algum tempo. Sim, minhas mesas de RPG sempre acabam em novela.

 

Uma lua minguava. Lembro-me das estrelas, ah, as estrelas perversas e brilhantes, com um riso sarcástico de quem esconde alguma verdade.  

Rochas. Sua pele sobre a rocha nua era tão fria quanto à noite. Uma pele sem vida. Eu quis retornar, dei um passo para trás. Foi quando vi que as estrelas dançavam ao meu redor, no ritmo de uma oração entoada numa língua a mim estranha. Não estávamos a sós.

A lua, as estrelas, as rochas. Além destas, uma velha corcunda havia, dobrada pelo peso de seios fartos e de uma idade já sem números. Era ela que orava, numa voz compassada e firme, num ritmo intermitente, vertiginoso e determinado.

Foi então que fechei os olhos e a vi. Nua. Não mais fria; não mais morta. Contorcia-se como um felino que pede carinho. E sorria. E o brilho dos seus olhos apagou toda e qualquer estrela.

Dei passos. Acariciei e beijei seus pés. Estavam quentes. Ela sorriu mais alto, mas logo parou meio encabulada. Talvez porque a velha nos via. Olhei para trás: apenas escuro. Nenhuma velha, nenhuma luz, nenhuma lua, nada. Apenas nossos corpos e uma longínqua voz que eu não compreendia.

Ela sentou-se. Brincava com meus cabelos, enquanto, dedo por dedo, eu a beijava. Lembrei-me de como ela apareceu em minha vida: brisa leve me arrepiando os pelos da nuca, do peito; depois ganhando força, forma e cheiro. Levando-me a arrepios mais intensos.

Levantei meu rosto, no intuito de olhar em seus olhos, mas eram seus seios que me fitavam. Ela estava de queixo erguido, talvez seus olhos buscassem alguma estrela no céu, ou talvez seus olhos estivessem cerrados, não sei, mas o que recebi foram seus seios em meu rosto, em meus olhos. Olhei-os. Pequenos, firmes, róseos. Beijei-os, de início, de forma leve, um medo me acometia sempre de machucá-los, de feri-los, de mordê-los. Mas ela, ah, ela forçava meu rosto, e numa mistura de gemido e riso e pedia para ser mais forte, ser mais homem, ser mais nela.

Alcancei-lhe o pescoço com a ajuda de suas mãos que me puxavam o cabelo. Ela sem abaixar a vista, talvez por um pouco de vergonha, talvez por sentir mais prazer assim, talvez para encobrir pensamentos vadios que nos escapam. Enquanto minha língua percorria-lhe o pescoço, a nuca, o queixo, enquanto mil fios de seus cabelos aloirados adentravam em minha boca, enquanto eu tentava forçar-lhe a abaixar o rosto para eu ganhar sua boca, minhas mãos percorriam terrenos mais aquosos e férteis. Não, não seria vergonha o que lhe fazia levantar o rosto, pois era do modo mais lascivo possível como ela permitia que suas pernas me mostrassem a passagem, como ela se forçava em meu corpo, como ela se doava.

Era num estado de frenesi em que eu me encontrava. Não me lembro de despir-me. Mas meu corpo estava entregue, nu, tão quente quanto o dela, tão ávido, tão vivo. Não foi difícil ela puxar-me e deitar-me na rocha, colocando seu corpo sobre o meu. Seus cabelos chicotearam meu rosto e eu pude ver seu rosto radiante. Pareceu-me ser primeira vez que eu sentia aquele cheiro, aquela pele, aquela força, e temi que fosse a última, abracei-lhe na tentativa vã de prometer-me eternidade.

Ela forçou então seu corpo sobre o meu e eu a invadi e me senti completo. Ninguém precisaria ali de estrelas, nem de luas. Eu não precisaria do sol. Apenas daquele suor, apenas daquele sal, daquelas águas, daquele sangue que lhe corria sob a pele e que escorria um pouco da minha pele quando ela fincou docemente suas unhas em meu dorso e eu nem senti. Eu sentia apenas o tremer daquele corpo e um mover-se num ritmo igual da oração longínqua que eu ainda ouvia.

Esvaziou-me. Ela foi parando devagar e, devagar, foi que eu a coloquei embaixo de mim. Foi com muito pesar que desvencilhamos nossos corpos. Eu tinha medo de abrir os olhos. Eu tinha medo de ver a luz. A oração longínqua cessou, mas eu sentia o pulsar ainda acelerado e o calor que daquele corpo emanava. Não havia rocha ali. Não havia corpo.

E naquele momento eu não soube se ela estava viva ou se quem havia morrido tinha sido eu.

 

Virgínia Celeste Carvalho

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2 pensamentos sobre “Amor

  1. Simplesmente perfeito professora. lindo!Entendi ser um misto de sonho e realidade q nos leva a viver os relatos da historia, muito bom!

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