Margem Intransitiva

A Rita Kramer.

Estava nua. Não de roupas, mas de verbos. Despiu-se das referências, peça por peça, e seguiu para o Outro, que estava sempre a centenas palavras de distância.  Não podia pisá-las, novamente. Então, fez para si asas, pois seu corpo, sem delimitações semânticas, poderia ser até o próprio vento.

O Outro sempre estava lá. Na montanha de frases. Precisaria agarrar-se em suas mãos e, de maneira ligeira, livrá-lo dali. Era sua única chance, antes que algum significado ousasse interferir. Mas começou a chover pontos de vista e suas asas pesaram. Caía; abaixo de si apenas ondas de temas, de aspecto vermelho como sangue ainda não coagulado.

Deu a si guelras e nadou até uma margem intransitiva, onde tudo parecia acabar. Entretanto percebeu que tudo era apenas o começo, pois o verbo sempre fora a nossa própria carne e apenas existia em nós.

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3 pensamentos sobre “Margem Intransitiva

  1. Dei uma passada rápida aqui para e me deparo com este texto delicioso de ler, ver e sentir. Parabéns.
    Passarei aqui com mais calma para ler outros. Virei fã com apenas algumas linhas. bjs e parabéns mais uma vez.

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