Nada mudou, Sylvia.

“A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.” (Sylvia Plath)

Ele me diz que lhe causo enxaqueca.

A minissaia vende minha coxa e sou consumo. Ou acham que sou. Repouso o copo entre minhas pernas e todos olham. Isso é hollywood ou não é? Você não queria que fosse?

Mas ele diz que lhe causo náuseas.

E ela? Ela diz que quer ter carro e casa com vista para um iate. Eu pergunto com que bunda e ela me olha mortificada. Oi? Ela pensa que trabalhar oito horas diárias fora e mais as dezesseis restantes em casa não é ser fodida. Ela questiona como eu sou quem sou. Ela queria que eu fosse quem ela achava que eu deveria ser. Fo-di-da.

E o que penso é: sou a agonia dele?

Olha, a “menina dez” é porra-louca. Fez tattoo e se pintou. A menina dez não raspa o sovaco e você ri dela. Mas para ela você nem existe. Que diferença faz?

Ele vai falar comigo mais uma vez?

Eu piso na lama e meu coturno não encharca. A menina dez dança descalça na chuva e nem vai pegar resfriado. A burra-dou-a-bunda-oito-horas-pra-empresa chora pelo seu salto alto arruinado e as unhas, cujas cutículas ela arrancou, vão apodrecer.

Enxaqueca é a puta que pariu.

Pego o copo e cruzo as pernas. Todos olham de novo. Porra de hollywood: isso é real, sem maquiagens.

Ela passou o fim de semana num cruzeiro. Voltou queimada e ardida. Mas de bunda descansada pra recomeçar.

A “menina dez” tirou zero. Ninguém entendeu o porquê. Mas ninguém se importou.

E ele continua lá, sol. E eu, inseto. Chego mais perto, e ele agora apenas lâmpada.

Mas morro do mesmo jeito.

Virgínia Celeste Carvalho

Poética do Fim

Nem gostei desse texto. Mas ele estava me irritando tanto na minha cabeça que achei melhor escrever logo e esquecê-lo depois.

 

Agora não sei de mais nada não sei dizer adeus muito menos oi ainda me vem um até logo que engulo seco como cream cracker sem café.

E você, nem aí. Todo certeza. Todo calculado. Todo razão.

E eu quero dizer que merda eu sinto raiva sinto ódio sinto remorso sinto tesão queria voltar anos contos e palavras e não dar a mínima para aquele dia quando você falou algo e eu tomei como indireta e respondi com várias diretas tempos depois.

Mas você diz que sou neurótica. E, sempre tendo respostas, responde a tudo da forma mais clichê possível, só para deixar claro que nada disso importa.

Então você mata a parte mais poética de mim.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Você

Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você. (B. Cortizo)

Ele entrou de mãos vazias. Era uma tarde triste, eu perdida em meio a papeis e flores mortas. Mas ele veio, vazio, e se mostrou a mim, inteiro. E eu queria que o tempo morresse aos poucos e calcificasse aquele sorriso já eternizado na memória. Porque era um sorriso alegre, que me falava de vidas que já foram e de vidas que virão. Acontece que eu estava preenchida, pesada, cheirando a tantas promessas, envolta no que deveria ter sido.

Estou aqui. Foi que ele me disse, olhando como se enxergasse meus pelos, minhas entranhas, minha alma e o que meus olhos sequer veem. Você está aí. Foi o que eu consegui responder sem titubear, pois eu sabia que ele estava ali e era inútil procurar uma borracha com nossa medida. Sabes quantos passos eu dei? Eram seus olhos que me pediam para dar um passo, apenas um, mas o que eu sentia era cada vez mais a terra úmida sob os meus pés impedir-me, a terra a se abrir sob meu corpo. Eu ainda carregava uma pesada flor do passado em meu seio.

Se for pra ser culpado de algo, que seja culpado de você. Não repita isso, foi o que eu tentei falar em vão. Não repi… Se for para Eu ser culpado… Ele repetiu de forma mais alta, mais árida até, mais rígida, e eu o contive com um dedo em seu lábio. Então meu olhar recaiu sobre nossos pés juntos, unidos. Havia eu dado um passo sem perceber? Eu quero ser culpado de você. Mas sem levantar a vista, descobri que sempre há um retorno e, regressando, vi a terra abrindo-se e eu caindo naquele fosso de rosas murchas.

Virgínia Celeste Carvalho

A menina e sua árvore

A Juli e Sandro.

 

Ideias nascem em árvores.

Eu disse e a menina olhos cor mel me olhou. Usava um vestido de corte simples, de tecido barato e tinha pés descalços. Mas os olhos dela eram felinos e me senti meio um ratinho acuado no canto da parede. A menina me devoraria com aquela expressão inquisidora de quem quer mais. Menina-general.

Ideias nascem em árvores. É só cultivar algumas dentro de você.

Ela me perguntou onde conseguir sementes, mesmo que nenhuma palavra fosse dita. E me perguntou onde conseguir um aguador. E um ancinho. E até mesmo quis saber sobre estrume. Quanto mais me engolia, mais se vestia de questões. E até tive certeza de que minhas respostas seriam insuficientes.

Ideias nascem em árvores. É só cultivar algumas dentro de você. Cada ideia lida ou conversada é uma semente, menina.

Ainda não contente, a menina de olhos cor de mel me olhou angustiada. Tão angustiada que quase não compreendi a última questão, desdobrada em três, que seu olhar me fazia: se ideias nascem em árvores, por que todo esse sentimento de vazio que sentimos, mesmo depois de tanto esforço em semear? Por que esse espaço-silêncio? Por que essa falta do que dizer?

Ideias nascem em árvores. É só cultivar algumas dentro de você. Cada ideia lida ou conversada é uma semente, menina. Quanto ao vazio… Quanto ao silêncio… É “porque temos mais ideias do que palavras para expressar*”.

A menina só então viu que havia uma árvore primaveril dentro si. Estrondosa, mas ainda inominada.

 

Virgínia Celeste Carvalho

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* Citação de Paul Ricoeur.

Anotação

Folhas brancas me assustam e admito estar em outono: palavras caem ressequidas de minhas mãos e, pelo chão, se espalham.

Não pises, peço. Não pises que dói. Não pises, que desejo contar uma por uma e cometer, meio boba, pela vez primeira, um exercício de exatidão.

As palavras caídas se erguem e me encerram: enlouqueço nesse pequeno mundo de sentidos tão diversos, mas que nada me dizem.

Virgínia Celeste Carvalho

Afasia

Eu poderia ser mais clara, mas se teus olhos não veem é porque o tempo das pontes se fora: somos ilhas imersas em nevoeiro. E, sem mãos, sequer podemos remar até a outra margem. Somos corpos náufragos, sem algum fôlego, entretanto ainda lúcidos e com vida.

Poderia ser mais claro, se eu desenhasse. Até ergo meu braço e crio formas na espessa névoa. Formas de um lábio, um tanto decaído: um lábio de adeus. O mistério está em eu partir antes mesmo do aceno de encontro. Como se, de avistar a terra firme, eu apenas vivesse.

Mais claro seria se este céu se vestisse com meu nome e nele respingássemos nuvens pálidas nas formas do teu. Embora eu procure no infinito o manto azul desejado, o tecido se despetala e só nos resta aquela cortina negra e mofada de cinema antigo.

Mais claro não será porque não existe a fôrma exata em que eu possa definir os teus sentidos em mim.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Interdito

Te imaginei sem jeito, mas não assim, como realmente foi. Te imaginei vermelho, não bem tuas bochechas, mas vamos desconversar. Porque a vida nem sempre é retilínea e nem sempre tenho que me encolher em palavras. Até porque você sempre soube que minhas metáforas te diziam em mim.

A palavra deixou de ser máscara. Eu, mil cacos de várias faces no chão, ao mesmo tempo em que eu, desmascarada na altura no meu queixo. E não me importo. Na verdade, até gozo disso tudo um verso irretocável. Gozo o eriçar dos meus seios quando quase falo e perdes o compasso.

É que eu tenho essa mania boba de sorrir para você aquilo que nunca poderemos conversar. 

 

Virgínia Celeste Carvalho