Casa Inabitada

SENTIMENTO SÚBITO – Lucila Nogueira
A Cícero Belmar

Porque você nada sabe da insônia
não venha assim desavisado com esse universo de frases protocolares
e toda uma higiene pasteurizada de ternura
cuidado e não se aproxime demais
existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda
e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo
estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito

a água que lavou as letras da biblioteca
é um sinal de que o amor e a palavra exigem renovação
que tanto estudo não resolve o desamparo
e que continua desabitada a casa que sou

finjo-me autobiográfica e renasço como personagem
espasmo de eletrochoque eu sirvo o meu senhor
ducha de eletricidade eu sirvo o meu senhor
e basta o seu tom de voz ser um pouco menos terno
que eu já sinto dor

(Se quiser se deliciar comigo, recitando o poema na íntegra, clique aqui.)

Não é incomum perguntarem a pessoas ligadas às Letras quais os seus poemas, ou poetas, favoritos. Já vi o embaraço nos olhos de algumas pessoas ao tentar responder tal questão. Talvez seja mesmo difícil quando a gente pensa no rol de poemas que lemos e pensamos “poxa, como eu queria ter escrito isso!”.  Não muito tempo atrás, eu pensei numa lista, mas não necessariamente na ordem. Quais poemas entrariam em minha lista? E, na verdade, essa pergunta foi bem mais fácil de responder do que eu imaginava. Argumentei, para mim mesma, que poemas favoritos têm um quê de espelho. A palavra é bela, a composição precisa, o tema pertinente, a relação metafórica com o mundo inteligente e sensível – isso é o que me faz gostar e estudar poemas… Mas o que realmente coloca um texto na lista “top” é a imagem-palavra em que me vejo.

Alguns dos poemas favoritos foram (sem que haja uma ordem entre eles): A primeira elegia, de Rilke. Tabacaria, de Álvaro de Campos. Espelho, de Sylvia Plath. nalgum lugar, e.e.cummings. E Sentimento Súbito, de Lucila Nogueira. Das elegias de Rilke, eu já tratei aqui no blog. Noutros momentos, talvez, eu venha a falar dos demais poemas e de outros que não citei aqui. Entretanto, hoje eu quero recitar Sentimento Súbito, em uma voz alta, e meu desejo é que minha voz ecoasse por todo bairro e por todo Recife.

Esse poema me tocou tanto quando li, que me inspirei em um de seus versos para dar nomear a reunião de meus textos: Casa Inabitada. “Que tanto estudo não resolve o desamparo/ E que continua desabitada a casa que sou”, é o que o poema nos diz. E é o que eu sinto. É essa imagem, da casa como espaço do ser, é tão convidativa para o devaneio! Bachelard que o diga. Veja: mesmo com todas essas vozes sábias que ecoam em nossas cabeças e mesmo com todo esse aperto no peito que nos leva a estudar mais — na tentativa de aprendermos mais e, assim, fazemos mais também —, há um vazio que não se preenche: é aquele lugar só nosso; o cantinho quente na cama que não queremos compartilhar com ninguém. É aquela gaveta onde guardamos os diários adolescentes todos à chave. É aquela “parte de mim onde ninguém chegou ainda”.  Basta a gente se deparar com essa imagem da casa-alma para se recolher nela. E ainda mais: começamos a criar outras tantas!

A imagem poética não é como um objeto, nem seu substituto do objeto. Casa e ser não são apenas comparados no poema de Lucila; o que acontece é que especificidade da “casa desabitada” é emprestada ao nosso ser.

E não é apenas essa imagem da Casa que me envolve. “Finjo-me autobiográfica e renasço como personagem”. Recito e parece que o entendimento de toda uma literatura se faz escutar. O que falar sobre a felicidade desse verso? “A poesia tem uma felicidade que lhe é própria, independentemente do drama que ela seja levada a ilustrar”, nos diria o já citado Bachelard. Ora, e não é esse sentimento que o verso nos passa? Fingir o fingimento, fazer-se personagem… Tudo isso me é espelho: olho-o e parece que meu ser me fala baixinho: a ilustração de um drama que não é mais o drama vivido, isso sim é poesia.

Não, nem um pouco difícil por Sentimento Súbito no rol de poemas preferidos. Afinal essa insônia e as pessoas que não sabem dela…

Virgínia Celeste Carvalho, entre 29 e 30/03/2013.

 

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