Evocação

I

Não memorizo aldeias

Nem aldeões:

Meu cabelo ao vento

– lúcido, tardio –

Exibe o corte, a ruptura,

a outra margem;

A imagem distorcida em mim

Não é doce nem crédula:

Pus a vida acima da Era;

O corpo acima da cela;

Os pés acima do cavalo…

… e, se assim não fosse,

aí sim, seria errado.

 

II

Mar. Terra. Cana. Terra-Seca:

Não é preciso ir muito, para ser estranho…

Das entranhas do dia, nasço

– não se nasce do nada,

se surge do ambíguo.

 

Não tardo nem contento, contemplo;

E o chover não mais distrai

O piscar de olhos

– rebento do adeus

sem vestígios.

 

Ah, atordoar infantil!

Versos de outrora conjugados, lentos

Nada mudou…

… ainda me sou,

rebentar violento.

 

III

Pernas acima da Terra.

Pó por cima de nós, dos sóis, dos séculos

(e não há outra ruptura

senão ser girassol!)

O cavalo segue abaixo, distante

Não é preciso estar acima, para estar melhor…

Não me abarco

E piso,

Como quem pisa um tapete, nuvens

Detendo nas mãos um telefone…

O que ferirá mais senão a palavra?

Palavra dúbia.

Anti-prece.

Anti-deus.

 

IV

Contemplo. A chuva. O guarda-chuva. A náusea.

Nos olhos pardos, o passado pesa…

E há ferida: quanta dor inflama!

Quisera não ser eu, poeta ou passo;

Palácio erguido num confuso brio:

Meus sonhos são faces do céu que crio

Poemas ávidos, avós reversos…

… e isso, ninguém sabe.

 

V

Na timidez, procuro-me só:

Assim sou no extenso vão da palavra!

 

Quisera ser morena, alva – viúva

Tudo menos poeta e colibri:

 

Pousar e ser única – aldeã!

Talvez feliz.

 

VI

Campo, campina. Galo-de-Campina.

Há tanto, tantas lembranças mortas…

O verde sucumbiu aos olhos

Que, no chão, semeiam concreto.

 

Na outra margem,

lá, sempre lá,

Fico. Reservo. Esqueço…

Lanço ao rio o tonel

o túnel de meus anos.

 

Não hei de lembrar, como sempre.

 

VII

Padeço muito e lento,

muito lento.

Se chuvas, lágrimas, seres,

esvaem-se, algo fica…

 

Certas canções não sanam as lacunas do tempo;

Tempo-corpo, poema.

 

(Ah, se não fosse sopro, não fosse águia, cerveja…

se talvez flechas, não telefone…

se apenas mulher… não essa sina!)

 

VIII

Cruzar bares, mares, risos

E na outra margem

a palavra está…

Cardíaca, a alma reclama

Seu desejo último

– ávida, certa.

 

IX

Vivo;

Como isso não diz muito, adeus…

Sempre planícies por trás de serras

E rio entre montes; sigo.

 

Não responda o adeus

(nem a deus peço):

Sempre mais uma ponte e um riacho

E um cavalo para domar…

 

X

Só,

Mas há outra margem;

E, por ser ainda crédula,

Um novo deus.

 

Virgínia Celeste Carvalho

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