Come board this lunatic express

À minha dissertação de mestrado, escrita em 2008.

Ao som de Tori Amos.

Eu lhe digo que a capa do livro é uma grande vulva aberta, deixando-nos ver a força e a fragilidade de uma vagina em flores. Mas ele diz que não, que preciso de terapia. Deste pasto, não quero mais, foi o que tentei explicar, mas isso parece que lhe deixou mais preocupado, fazendo-lhe engolir um pouco de saliva e seus olhos não saiam de cima de mim, como dois padres, não, dois papas a me excomungarem e eu ficando nua, meu sexo também exposto e seios intumescidos pelo frio. Foi nesse instante que gritei para!, e me tranquei no quarto, deixando-me cair sentada atrás da porta, como fazem as atrizes hollywoodianas, mas isto é a vida real, era o que ele diria e mesmo calado ressoou sua voz grossa em minha mente e me pus a chorar. Porque sim, isto é sim trágico. Um caleidoscópio, tipo de LSD, mas estou limpa hoje e ele sabe, mesmo assim bate na porta, pergunta se estou limpa, cê jogou minha última caixa de calmantes e não tem nada a ver com isso, é outra coisa!. Ele não enxerga o outro lado que sempre há, inflamado, exigente, viscoso e ponho a me tremer e babar como um cachorro, mas estou só, ele está do outro lado da porta e não pode impedir que minha cabeça bata uma vez contra porta, ele escuta e se preocupa, eu sei, mesmo que eu não ouça e não sinta nada agora, sei que ele escuta do outro lado e grita qualquer coisa como amor, calma!, porém nunca estive tão calma, você que não vê que tudo me é vão, e vou ficando miudinha, miudinha, quase passo pela brecha da porta, quando acordo tossindo quase engasgada pela saliva que corre e levanto numa tontura daquele chão frio e abro a porta como se o quarto fosse uma sala tão apertada e me acometesse uma claustrofobia como a que nos acomete quando completamos nove meses e queremos sair a todo custo de um útero fétido, frio e pegajoso que nos acolheu, porém crescemos demais e queremos outros horizontes e depois teremos até que enterrar aquela carne da qual já fizemos parte e achamos tudo isso muito normal, até flores mortas de pessoas que você nem conhece temos que aturar, e servir um cafezinho, como se tudo fosse um samba, um samba de crioulo doido como diriam meus antepassados portugueses preconceituosos e fracassados. Eu abro a porta, ele e os dois papas em seus olhos ainda estão lá, ao menos, agora, confusos, e não tão mais incisivos e gigantes e de pênis sempre excitados. Estão murchos agora, como caramujos doentes. Ele me abraça e diz que está tudo bem, e canta alguma canção dessas idiotas que falam de amor incondicional e eterno, sei que tudo isso é com carinho, que ele me quer ver bem, mas isso me deixa mais entediada, o amor não é assim capitalista, ainda ouso dizer, ao que ele retruca all I ever wanted, all I ever needed is here in my arms, eu lhe digo que até gosto dessa música, embora devamos falar e enxotar essa lama que o silêncio cria, atolando nossos pés, pernas, daqui a pouco chegando à cabeça e você morrerá mudo, eu me perguntei como consegui articular tal ideia se tudo era tão confuso, ele até concordou e me levou até a cama, onde se pôs a me ninar e eu voltei a dormir, sonhando com a grande vulva que consumirá a todos nós, vacas e bois, nesse pasto de meu deus.

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