A Morte Como Caminho para o Sublime

 Virgínia Celeste Carvalho *

 

Haveremos de chegar ao sublime traçando o caminho daquilo que, antes, nos parece áspero, até mesmo grotesco? Pergunto em tom até alto, mas desconfio que ninguém virá responder-me: há mistérios resolvidos só poeticamente, em imagens que sugerem mais que afirmam, que envolvem mais que esclarecem. Um desses mistérios é o da morte. Mistério fatal, pessoal e intransferível. Dos mais longínquos mitos fundadores das comunidades mais temporalmente distantes de nós até mitos propriamente literários que ganharam forma de histórias em quadrinhos, ela nos ronda e só ao poeta — em sentido largo do termo — é dada a autoridade de nos apresentar aos seus meandros: nos tornar dela conhecidos sem que a encontremos antes de que o destino diga, finalmente, amém.

Elegias podem ser textos-presente para os definitivos mortos precoces — sim, pois para nós a morte sempre é precoce —, textos para evocar os ausentes-presentes e dizer-lhes as graças, no intuito de preservar seu nome, já que sua alma fora consumida pelo Lete. Mas também podem ser um elogio à morte anunciada todos os dias, em pequenos gestos, a morte pressentida, aquela que impregna “umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens” (Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa), a morte do dia-a-dia, ladina, levando um a um nossos pertences e, quando menos esperamos, a casa está vazia. Entretanto nós precisamos da morte, assim como, e talvez até mais, precisamos do mistério no qual a envolvemos.

E Rilke nos traz uma bela visão poética desse mistério em suas dez elegias, intituladas Elegias de Duíno, escritas entre 1912 e 1922. E o termo belo aqui, entenda-se, como nos diz o verso rilkeano, “é o começo do Terrível que ainda suportamos”. E, salientemos, nós, frágeis humanos, pouco suportamos, pois o desconhecido nos é sempre motivo de receio: sempre desconfiamos daquele viajante aparentemente inofensivo, embora não saibamos definitivamente o porquê. Mas algo em nosso espírito sempre se assusta, no gesto de ligeiros olhares que se cruzam. Além do mais, há muitos pormenores por nós ignorados e a hierarquia dos seres nos é assustadora: animal, homem e anjo. Da mesma forma que apenas instintivamente os animais nos sabem como não “confiáveis neste mundo definido”, sabemos que, por trás daquele olhar camponês do viajante, havia algo a mais, porém, diferentemente do animal que toma o instinto por verdade, logo nos desprendemos do mito e voltamos ao logos cotidiano pelo qual tentamos, a tudo, definir; sempre estreito, caminho reto. Afinal, como nos verseja Rilke:

Resta-nos, talvez,/ uma árvore qualquer na encosta, que revemos/ todos os dias; resta-nos a estrada de ontem/ e a fidelidade mimada de algum hábito/ que gostou de nós e conosco ficou e não se foi.

Mas a Morte, além de nos roubar a vida, nos rouba os hábitos e os pertences. Na poesia rilkeana, ela é simbolizada pela paisagem noturna: um véu negro que encobre a tudo, um espaço que, mesmo aberto às estrelas, é claustrofóbico, tanto pelo peso da experiência quanto do mistério. Noite que engole a todos, solitários ou amantes, a noite nos rouba a luz e, pouco a pouco, não vemos mais o outro que ali estava, um instante atrás, deitado ao nosso lado:

E a noite, a noite, quando o vento, pleno de espaço/ do mundo, roça a nossa face, não seria ela – a desejada,/ levemente enganosa – desafio penoso para/ o coração solitário? Será ela mais fácil para os amantes?/ Ai, eles apenas escondem, um do outro, o seu destino.

Fica-nos, então, a pergunta: a morte ou o presságio da morte é claustrofóbico? Não nos deixemos levar pelo peso grotescamente agigantado que lhe incidimos. Ela, quando aceita como passagem individual e imprescindível ponto de transição, é, na visão do poeta, a mais larga experiência, demonstrada numa das, sem dúvida, mais belas imagens de sua produção poética:

Lança o vazio dos teus braços/ aos espaços que respiramos; talvez os pássaros/ sintam o ar mais amplo em seu voo mais íntimo.

Um tanto confusos, logo após receber a última visita a qual temos direito, passa em nossa cabeça tudo aquilo que não foi, mas deveria sim ter sido. Na verdade, revivemos tudo aquilo que sonhávamos ter e não realizamos, apenas porque estávamos atados ao devaneio e ao tempo sempre futuro — como linha contínua e sistemática— quando o tempo vivia à nossa volta. Rilke não perdoa e toca nossa chaga:

Sim, as primaveras precisavam de ti. Algumas estrelas/ queriam que as percebesse. Avolumou-se/ uma onda, vinda do passado; ou então,/ ao passares por uma janela aberta,/ um violino se entregava. Tudo isso era missão./ Mas será que a cumpriste? Não estavas sempre/ distraído pela espera, como se tudo/ anunciasse uma amada?

Passada a angústia de viver em retrocesso o não-vivido, a morte nos ensina a nos desacostumarmos do terreno, do mundano, do logos. Os vivos são que precisam dos mistérios, afinal fabular sobre destinos divinos é o que nos dá algum sentido. Nomear e ser nomeado também são atitudes dos vivos, desde as comunidades mais remotas, quando os primeiros traços representavam objetos e nomear já era deter o poder. Na época em que a cultura cristã se solidificava, com o assentamento de seus rituais, os grandes livros dos mortos eram responsáveis por lembrar aos homens e ao Deus cristão aqueles que foram bem-aventurados em vida e eram dignos do paraíso. Ledo engano cristão: enquanto eternizamos um ser e a lembrança de seus feitos em traçados de tinta, o morto alegremente embriaga-se nas águas do Rio Lete:

Certamente é estranho não mais habitar/ a terra, não mais praticar costumes apenas/ apreendidos, não mais dar destino humano às/ rosas e a outras coisas promissoras; não mais ser/ aquilo que se era. Entre mãos infindamente angustiadas,/ e esquecer, até, o próprio nome/ e largá-lo, como um brinquedo quebrado.

Sentimento de alívio, por fim, pois eles se desacostumam do terreno, como nós nos desacostumamos do seio materno. A imagem do brinquedo quebrado não necessita de esclarecimentos: grita que é una e não pode ser desenvolvida em outros termos, é sem paralelos. Somos nós, de pés ainda virgens do terrivelmente belo caminho, que nos apegamos a ursinhos de pelúcia, cujo enchimento escapou, ou a carrinhos quebrados, cuja roda se perdeu em um tropeço no parque. Somos nós que não atravessamos a nossa expectativa sobre a morte que nos encontramos em um “espaço assustado”, por não termos transgredido ainda a ambição humana de distinguir e nomear em demasia, essa nossa propensão a dar destino humano àquilo que não entendemos.

Voltemos à primeira questão: Haveremos de chegar ao sublime traçando o caminho daquilo que, antes, nos parece áspero, até mesmo grotesco? Pela leitura de Rilke, não apenas chegaremos, como ele é o único caminho possível para se contemplar aquilo que nossa humanidade não consegue suportar e por isso nos é vedado. Veda que será arrancada de nossos olhos na passagem da morte, por emissários divinos — os anjos — que, antes de nossa passagem, nos achavam muito aquém de sua poderosa existência. Afinal o que pode nos ferir mais do que sermos ignorados? Nós, que tantos lutamos por limpar nossos olhos desse mal, mesmo que, ao contrário do que pensamos, estamos apenas mascarando os objetos.

Bibliografia:

RILKE, Rainer Maria. Os Sonetos a Orfeu — Elegias de Duíno. Ed. bilíngue.Trad.: Karlos Rischebieter. Rio de Janeiro: Record, 2002.


[1] Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco. Texto sobre a poesia de Rilke, lido no Colóquio Cecília Meireles, em 18 de novembro de 2008.

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