Das estranhezas do porão

Estive no porão esses dias. Fale-me mais. Claro. Encontrei a escada que era uma quase passagem secreta entre o amadeirado chão de uma quase saleta inutilizada, à esquerda da cozinha. Quase? Antes era uma copa, não mais. Hmmmm, quase secreta… você a escondeu? Não, decerto não fui eu. Foi o tempo, este sempre esconde tudo. A gente acorda com a certeza de que deixou a conta de luz dentro do livro de cabeceira, sabe?, marcando a página. Sei. E então, onde a conta pela manhã? O tempo então ri quando o homem vem e corta a luz. Você falava de sua ida ao porão. Sim, a casa, quando a luz é cortada, é toda ela um porão, menos o véu de poeira grossa, sim, porque varro a sala todo dia. Então eu ter ido ao porão e o homem ter vindo e cortado a luz é quase a mesma coisa. Não havia lâmpada no porão? Havia sim, havia, passado, o tempo levou; ela já era fraca quando existia, não tinha os watts da lâmpada posta na sala de leitura. Depois um dia queimou e o tempo sussurrou amém, o porão se consumiu em trevas e eu estive por lá um dia desses. E como foi? Como foi o quê? A ida ao porão. Ah, foi normal; como toda ida a um porão: você desce degrau a degrau cautelosamente; não, antes você prepara uma vela, e eu nem tinha um castiçal, então respinguei a cera derretida no fundo de um copo — de cabeça pra baixo, sabe? — para ela se firmar. E então? E então eu desci degrau por degrau; meio com medo de rolar escada abaixo meio que me lembrando de todas aquelas histórias de trancoso, esperando, não sei bem o quê, talvez algo mais local, como uma armadilha de saci, ou, talvez, não… Ou talvez, o quê? Não sei, algo com mais tentáculos, sabe? Algo com tentáculos que plantasse na minha ideia, como se aquela ideia fosse minha, de ir até o porão naquela noite. (silêncio). Mas, descendo, só uma barata, desavisada da minha visita, estava por lá, quieta, em sua vida de barata; não a matei porque pensei que aquele porão, embora fosse de minha propriedade, era todo dela, e ela, sendo parte do porão, também fosse toda minha e eu não tenho a indelicadeza de matar minhas coisas. O que havia no porão, além da barata? A falta de luz, mas isso eu já falei, mas ela era que gritava mais alto, sabe? A falta que preenchia. Havia pó, antes mesmo de vê-lo, eu já espirrava, mas isso já era o esperado, suponho, não era? Por um momento acompanhei a ida tímida da barata para uma fresta e depois ergui a vela e nada… Nada? Sim, nada, nada dali parecia meu, nada parecia com as coisas que eu entulhara por tantos anos. E o que eram, então? Não sei, coisas dos outros, coisas deformadas, coisas quasímodos e quixotes, o cristo, meu deus, o cristo. Cristo? Uma cruz, na sala de jantar, havia, há muitos anos; era ferro, bronze, estanho? Não sei o metal, ah, não sei mesmo. Mas era escura e de metal, talvez do arame mais barato possível, e era um cristo pregado à cruz, numa expressão de paz entortada. Mas esse era o cristo da sala de jantar. O cristo do porão tinha tenta… tenazes olhos que explodiram em sangue quando quiseram me revelar algo. Acho que cheguei tarde para o cristo. Dei até um passo para trás, na esperança de que o sangue jorrado não sujasse a mim, mas era tarde. Você tem ideia do que Cristo queria dizer? Não estou bem certa, talvez me alertar de que podia haver algo tentac… tentador em alguma das caixas empilhadas. E havia caixas empilhadas? Você havia dito que não existia nada no porão. Nada que fosse meu, entende? Nada que me significasse. Os óculos, por exemplo, eram, eu contei, cinquenta e quatro armações de óculos e todas eram cor de rosa com letrinhas! De quem eram aquelas armações, eu me perguntei. Eram todas de uma infantilidade sem medo. Será que alguma criança míope os esqueceu por aqui?, eu questionei num tom até alto, que eu me permito quando falo só. Mas antes de qualquer resposta, aconteceu. (silêncio). Aconteceu…? Todas as cento e oito lentes racharam e o som parecia de uma torre de cristal desmoronando e foi tanto vidro que eu poderia construir uma, se quisesse. Isso também foi uma revelação? Não sei, a única coisa que sei é que muitos cacos feriram meu pé quando tentei passar por eles. Estava descalça? Sim, claro, que drama haveria em ir, ao porão, calçada? Fui de camisola, daquelas que as mulheres usam numa esperança vã de que um homem apareça em sua casa, quando a lua tiver adormecido a todos os outros seres, e quando chover muito para que ele peça abrigo. Na hora em que eu descia as escadas, meu seio quase ficou desnudo, mas nem levantei a alça, era mais pictórico assim: uma mulher de cabelos desgrenhados, com um seio quase exposto, coberta por apenas uma seda fina e macia — se houvesse alguém parar saborear a textura—, tendo um copo como um castiçal, descendo, descalça, as escadas, para uma visita noturna ao porão. Pictórico? Sim, como os quadros, como as paisagens mortas, como um ato que conseguiu burlar o movimento e se fixou em um instante; assim, sendo eu assim, eu diria ao tempo: venci. Encontrou o tempo no porão? Exatamente, e ele é mais tempo, inclusive. Quando estamos no portão, como amantes em despedida, o tempo é incerto, e essa incerteza é deveras esperançosa. Mas no porão, encontramos camisinhas com prazo de validade vencido: foram compradas no supermercado e o embalador, talvez endiabrado, as colocou no pacote de produtos de limpeza. Ficou lá, na saleta à esquerda da cozinha, quando aquela ainda era uma copa. Depois, numa limpeza qualquer, saíram rolando por uma secreta fresta e agora jazem sem terem sido usadas. É esse tempo exato, das transas que não tivemos, que encontramos no porão. Talvez brinquedos no porão? Quem sabe fotos ou até mesmo um diário? Não brinquedos, muitas crianças estavam sem brinquedo quando eu deixei de ser criança, encontrei apenas os contornos deles: do contorno do ursinho, sangravam porções de enchimento; da boneca preferida, havia o contorno das voltas bailarinescas que ela dava em torno de si até seu fêmur soltar um gemido de quebra, destoando do som que fluía do contorno do piano. Eu, toda dedos de Mozart e toda pés de bailarina russa ao mesmo tempo, num contorno que nem parecia comigo, pois eu fui menina desajeitada e tímida e sempre houve uma barreira de livros entre mim e o mundo. Foi então que eu vi que um tenta… uma tentativa de morte — não de suicídio — me rondava desde criança. (silêncio). E quanto às fotos? Nada. Só borraduras, tons incertos que pingavam do álbum no chão e formavam uma poça de significados intricados, como se cada imagem que se formasse fosse uma charada, cuja resposta era outra charada e eu me senti vítima de um bobo da corte infeliz. Vi imagens de gatos, mas não eram meus gatos. Eram gatos adoecidos, gatos depilados em seus miados agudos, um tanto intransigentes, como se possuíssem uma fome de mil anos. Talvez fossem gatos perdidos de Bast. Renunciaram ao evangelho felino e suas bocas não se abrem quando um rato desprotegido lhes passa as fuças. Ou então só caçam lagartos que largam o remexido rabo para fugir. Gatos tolos, quando pensamos assim. Acabam-se todos abraçados por tent… temperos de cheiros vários e deixam o prato principal escapar. Bem, tudo isso eu encontrei no porão. (Levantou-se e rapidamente, ajeitando ainda a saia justa, chegou à porta). Faltou falar-me sobre o diário, Laura. Vá a minha casa, doutor. Cada tijolo é uma palavra, que eu não ouso segredar a ninguém.

(Anos depois, sentado em uma poltrona aconchegante, o Dr. Silva leu no jornal uma matéria um tanto estranha: uma mulher, por volta dos 30 anos, assassinou uma professora e algumas crianças numa exposição marítima, enquanto observavam um polvo. O nome da assassina não lhe era estranho).

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