… e ela precisou levantar.

… e ela precisou levantar, para escrever e expurgar tudo aquilo que lhe impedia de dormir. Porque os olhos dele eram como duas setas fincadas há muito tempo, tanto tempo que nem podia mais medir em anos. Porque era o tempo da falta e do que não fazia mais sentido. E eram esses olhos que apareciam vertiginosamente, em lampejos que traziam uma sensação de dormência a seu cérebro… e ela se sentia caindo, caindo no sono, serena, mas acordava tonta, sentindo suas veias pulsando. Estava lisérgica.

Engraçado essas coisas sobre a Morte. O silêncio que há no minuto anterior do verbo morrer conjugado. A atmosfera… os olhos… a atmosfera dos olhos. Eram esses olhos pestilentos que me olhavam e me diziam sobre o fim. Eram olhos turvos, taciturnos, de um brilho apagado, como tocha de fogo negro, e eram eles que eu fitava entre as frestas da janela.

… e ele dormia, ao lado. Era porto, era terra. Era alento. Era o sorriso. Mas ela não precisava de terra, estava, ao contrário, queria, no entanto, desejava, mais que tudo, água… água que era morte e vida, esquecimento e lembrança, perdão e desprezo. E viu como seu reflexo estava diminuto e como as águas estavam poluídas e quanto há tanto não chovera. Sentiu medo de mergulhar, seu corpo era de uma baleia doente, de olhos necrosados, com guelras já apodrecidas. E depois lembrara que baleias não tinham guelras.

A primeira reação foi o nada. Aquele minuto-nada entre pôr fichas em orelhões antigos e esperar o tummmm da chamada. E o nada é tanta coisa, e o minuto era todo o ocidente em chamas, e tudo poderia morrer naquele minuto, acho até que todas as papoulas perderam seu vermelho, e todo ópio seria pouco para não sentir o minuto trêmulo e vagaroso passar, na verdade, serviria para ainda mais sentir o minuto se negar a dar mais um passo. E era o nada de saber que não havia mais fichas nem telefones de fichas.

 … e tudo estava agigantado, como o pênis que agora é cartão postal do Recife.

Nessas horas, eu digo: Sylvia, Sylvia, você estava certa, amor. Estou nauseada com esse fedor de detergente de prato. E essa máquina de lavar me causa dores de cabeça, Sylvia. Me tira desse quarto, não me sela aqui com essas tuas crias, essas pequenas verdades sadias. Quero a doença, Sylvia. As remelas desses olhos preguiçosos, entorpecidos ainda. Quero a verdade cruel e pulsante, que corre sob nossa pele… eu quero, Sylvia… quero… você.

… e era necessário, acima de tudo, definir o que era literatura. E nenhuma teoria poderia resolver o mistério daqueles pelos eriçados no pescoço ao ler um verso irretocável. Era como um beijo profundamente gelado entre lençóis quentes e macios.

Virgínia Celeste Carvalho

(este texto eu escrevi em 2009, para os olhos do meu pai anunciando a morte de minha mãe numa manhã palmarense. e lógico, para toda confusão que vem depois)

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