Poética da Infância

Saudadinhas do soldadinho. Eita, voou! (B. Cortizo)

Tem um soldadinho no jardim. Gostinho do tempo de criança no canto da boca, sabor graviola, por favor! O soldadinho foi embora… Não! Ainda está ali, na corda do balanço. Me balança? Não tão forte. Me segura agora, que eu vou cair. Mas até que o chão é macio até o Merthiolate chegar.

O soldadinho voou com o grito, mas o pé de laranja nem é tão longe assim. Ninguém brinca de gangorra, sozinho. E sozinha eu estava até esta manhã. Então este sol nasceu e nos convidou para vir aqui, mesmo com essa terra ainda molhada. E se sujarmos a roupa de barro, o castigo é certo.

Não toca no soldadinho! Já foi, agora uma de suas asas se desfez. Ele não pode mais voar… Traz para árvore, talvez ele possa viver! Afinal vivemos mesmo com a corda do balanço apodrecendo sob a chuva de todos esses anos e a gangorra se curvando sob o peso do tempo. Além do chão cheio de pedregulhos que ferem e dos remédios que ardem, mas nem curam.

Então eu brinco com palavras por isso: a verdade é o estar de cama quando o mundo poderia ser divertido. Com a gente brincando de esconde-esconde até você, desajeitado, tropeçar na primeira pedra.

Virgínia Celeste Carvalho

Anúncios

Casa Inabitada

SENTIMENTO SÚBITO – Lucila Nogueira
A Cícero Belmar

Porque você nada sabe da insônia
não venha assim desavisado com esse universo de frases protocolares
e toda uma higiene pasteurizada de ternura
cuidado e não se aproxime demais
existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda
e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo
estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito

a água que lavou as letras da biblioteca
é um sinal de que o amor e a palavra exigem renovação
que tanto estudo não resolve o desamparo
e que continua desabitada a casa que sou

finjo-me autobiográfica e renasço como personagem
espasmo de eletrochoque eu sirvo o meu senhor
ducha de eletricidade eu sirvo o meu senhor
e basta o seu tom de voz ser um pouco menos terno
que eu já sinto dor

(Se quiser se deliciar comigo, recitando o poema na íntegra, clique aqui.)

Não é incomum perguntarem a pessoas ligadas às Letras quais os seus poemas, ou poetas, favoritos. Já vi o embaraço nos olhos de algumas pessoas ao tentar responder tal questão. Talvez seja mesmo difícil quando a gente pensa no rol de poemas que lemos e pensamos “poxa, como eu queria ter escrito isso!”.  Não muito tempo atrás, eu pensei numa lista, mas não necessariamente na ordem. Quais poemas entrariam em minha lista? E, na verdade, essa pergunta foi bem mais fácil de responder do que eu imaginava. Argumentei, para mim mesma, que poemas favoritos têm um quê de espelho. A palavra é bela, a composição precisa, o tema pertinente, a relação metafórica com o mundo inteligente e sensível – isso é o que me faz gostar e estudar poemas… Mas o que realmente coloca um texto na lista “top” é a imagem-palavra em que me vejo.

Alguns dos poemas favoritos foram (sem que haja uma ordem entre eles): A primeira elegia, de Rilke. Tabacaria, de Álvaro de Campos. Espelho, de Sylvia Plath. nalgum lugar, e.e.cummings. E Sentimento Súbito, de Lucila Nogueira. Das elegias de Rilke, eu já tratei aqui no blog. Noutros momentos, talvez, eu venha a falar dos demais poemas e de outros que não citei aqui. Entretanto, hoje eu quero recitar Sentimento Súbito, em uma voz alta, e meu desejo é que minha voz ecoasse por todo bairro e por todo Recife.

Esse poema me tocou tanto quando li, que me inspirei em um de seus versos para dar nomear a reunião de meus textos: Casa Inabitada. “Que tanto estudo não resolve o desamparo/ E que continua desabitada a casa que sou”, é o que o poema nos diz. E é o que eu sinto. É essa imagem, da casa como espaço do ser, é tão convidativa para o devaneio! Bachelard que o diga. Veja: mesmo com todas essas vozes sábias que ecoam em nossas cabeças e mesmo com todo esse aperto no peito que nos leva a estudar mais — na tentativa de aprendermos mais e, assim, fazemos mais também —, há um vazio que não se preenche: é aquele lugar só nosso; o cantinho quente na cama que não queremos compartilhar com ninguém. É aquela gaveta onde guardamos os diários adolescentes todos à chave. É aquela “parte de mim onde ninguém chegou ainda”.  Basta a gente se deparar com essa imagem da casa-alma para se recolher nela. E ainda mais: começamos a criar outras tantas!

A imagem poética não é como um objeto, nem seu substituto do objeto. Casa e ser não são apenas comparados no poema de Lucila; o que acontece é que especificidade da “casa desabitada” é emprestada ao nosso ser.

E não é apenas essa imagem da Casa que me envolve. “Finjo-me autobiográfica e renasço como personagem”. Recito e parece que o entendimento de toda uma literatura se faz escutar. O que falar sobre a felicidade desse verso? “A poesia tem uma felicidade que lhe é própria, independentemente do drama que ela seja levada a ilustrar”, nos diria o já citado Bachelard. Ora, e não é esse sentimento que o verso nos passa? Fingir o fingimento, fazer-se personagem… Tudo isso me é espelho: olho-o e parece que meu ser me fala baixinho: a ilustração de um drama que não é mais o drama vivido, isso sim é poesia.

Não, nem um pouco difícil por Sentimento Súbito no rol de poemas preferidos. Afinal essa insônia e as pessoas que não sabem dela…

Virgínia Celeste Carvalho, entre 29 e 30/03/2013.

 

Poética da Adolescência

Eu me sentia um spam porque era inadequada. Inadequações. Isso é um círculo, você dizia. Eu, quadrada. Eu não sou cult, eu gritava, e você nem ouvia. Inadequada estava escrito em minha testa e eu, sem vergonha, continuava e a te espreitar e aparecia à tua frente como quem não quer nada. Isso é um retângulo! Eu ouvia. Já mudou? Eu perguntava, toda circular, e você se permitia rir esnobe. E era o riso mais lindo, mesmo que fosse ácido.

Eu me sentia um email nunca lido, enviado diretamente à lixeira, porque a isso eu era destinada. Destino. Isso é karma, eu me repetia, mas era a ela que você beijava. Isso é karma, eu sussurrava, mas é ela quem você tem por linda; e eu me resto só, feia nesse espelho. Eu era o desgosto, o démodé em tempos dessas tendências descoladas, de todos esses sapatinhos vermelhos e desses ângulos confusos.

Convenhamos: eu me sinto um moleskine em tempos de blog. Você me olhava, eu fechada, na estante, meu templo. Páginas sem importâncias, guardadas na prateleira mais perto do chão. Sem pedestais. O amor que se perdeu no caminho entre uma folha e outra. Talvez um sarcasmo não compreendido. Eu sequer era real. Inadequada até na ficção, você me diria, se soubesse como.

Virgínia Celeste Carvalho

Cansei,

Nada mais é viagem.

Ao longo do rio,

Um arrepio corre nas águas…

… jaz o que corria em minh´alma,

exceto a poesia.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Evocação

I

Não memorizo aldeias

Nem aldeões:

Meu cabelo ao vento

– lúcido, tardio –

Exibe o corte, a ruptura,

a outra margem;

A imagem distorcida em mim

Não é doce nem crédula:

Pus a vida acima da Era;

O corpo acima da cela;

Os pés acima do cavalo…

… e, se assim não fosse,

aí sim, seria errado.

 

II

Mar. Terra. Cana. Terra-Seca:

Não é preciso ir muito, para ser estranho…

Das entranhas do dia, nasço

– não se nasce do nada,

se surge do ambíguo.

 

Não tardo nem contento, contemplo;

E o chover não mais distrai

O piscar de olhos

– rebento do adeus

sem vestígios.

 

Ah, atordoar infantil!

Versos de outrora conjugados, lentos

Nada mudou…

… ainda me sou,

rebentar violento.

 

III

Pernas acima da Terra.

Pó por cima de nós, dos sóis, dos séculos

(e não há outra ruptura

senão ser girassol!)

O cavalo segue abaixo, distante

Não é preciso estar acima, para estar melhor…

Não me abarco

E piso,

Como quem pisa um tapete, nuvens

Detendo nas mãos um telefone…

O que ferirá mais senão a palavra?

Palavra dúbia.

Anti-prece.

Anti-deus.

 

IV

Contemplo. A chuva. O guarda-chuva. A náusea.

Nos olhos pardos, o passado pesa…

E há ferida: quanta dor inflama!

Quisera não ser eu, poeta ou passo;

Palácio erguido num confuso brio:

Meus sonhos são faces do céu que crio

Poemas ávidos, avós reversos…

… e isso, ninguém sabe.

 

V

Na timidez, procuro-me só:

Assim sou no extenso vão da palavra!

 

Quisera ser morena, alva – viúva

Tudo menos poeta e colibri:

 

Pousar e ser única – aldeã!

Talvez feliz.

 

VI

Campo, campina. Galo-de-Campina.

Há tanto, tantas lembranças mortas…

O verde sucumbiu aos olhos

Que, no chão, semeiam concreto.

 

Na outra margem,

lá, sempre lá,

Fico. Reservo. Esqueço…

Lanço ao rio o tonel

o túnel de meus anos.

 

Não hei de lembrar, como sempre.

 

VII

Padeço muito e lento,

muito lento.

Se chuvas, lágrimas, seres,

esvaem-se, algo fica…

 

Certas canções não sanam as lacunas do tempo;

Tempo-corpo, poema.

 

(Ah, se não fosse sopro, não fosse águia, cerveja…

se talvez flechas, não telefone…

se apenas mulher… não essa sina!)

 

VIII

Cruzar bares, mares, risos

E na outra margem

a palavra está…

Cardíaca, a alma reclama

Seu desejo último

– ávida, certa.

 

IX

Vivo;

Como isso não diz muito, adeus…

Sempre planícies por trás de serras

E rio entre montes; sigo.

 

Não responda o adeus

(nem a deus peço):

Sempre mais uma ponte e um riacho

E um cavalo para domar…

 

X

Só,

Mas há outra margem;

E, por ser ainda crédula,

Um novo deus.

 

Virgínia Celeste Carvalho

Descubra-se

Melhor descobrir as pernas. Os pelos. Os seios. Ou cobrir todo corpo. Santa ou puta, tanto faz. Você sacia olhos ou a fé.

Nua ou vestida, seja livro de cabeceira ou panela de aço inox. Santa ou puta, tanto faz. Você sacia a fome dos hormônios ou da barriga.

Agora, trate de não descobrir as ideias. Descobrir ideias é descobrir feridas. Expostas e com pus, elas devoram e ardem. Elas não são benquistas assim: onde, ao menos, um band-aid, garota? Você escuta. Onde, ao menos, água para lavar a podridão, mulher?

Você sangra, mas a vítima não é você. O sangue é seu, mas você terá que enxugar a lágrima do outro. E ainda agradecer. Porque, às vezes, o sangue é seu, mas você mesma terá que estancar, porque apenas quererão limpar o sangue que sujou o piso.

Melhor descobrir as pernas e cruzar os dedos. Melhor cobrir-se toda e fingir não ter receio.

Agora, quando você se descobre e descobre suas ideias, não há dedo, só receio e um deus nos olhos alheios que te crucifica.

Só te resta, então, o foda-se. E o adeus.

Virgínia Celeste Carvalho